Coluna
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Outono no Brasil

Qualquer que seja o resultado do impeachment, estaremos sob o jugo de parlamentares que exercem mandatos em benefício de seus interesses. É um outono sem perspectiva de primavera

O Palácio do Planalto, em Brasília, nesta terça-feira.
O Palácio do Planalto, em Brasília, nesta terça-feira.Eraldo Peres (AP)

O outono no Hemisfério Norte, onde as estações são bem definidas, marca a preparação para os tempos difíceis associados ao inverno. Simbolicamente, também significa o crepúsculo da vida – nos rigores dos climas frios, a vida como que desaparece da face da Terra, dando lugar à neve no solo e a nuvens cinzentas no céu. Portanto, o outono é melancólico e sombrio, paisagem necessária para que se cumpra o ciclo que determina a ordem natural das coisas. Se nos planejamos bem, vencemos o inverno sem muitas dificuldades; se não, irrompe o caos, nossa existência entra em colapso.

O ministro sem pasta Luiz Inácio Lula da Silva montou um quartel-general em Brasília com objetivo único de salvar o mandato da presidente Dilma Rousseff e a sua própria pele. Para cumprir a meta, não hesita em oferecer cargos para partidos envolvidos em escândalos e que defendem ideias diametralmente opostas às do Partido dos Trabalhadores, mas que somam preciosos votos no Congresso. Esse mesmo movimento tem feito o senador Romero Jucá (RR), presidente em exercício do PMDB e investigado pela Operação Lava Jato, que trabalha para a formação do Governo liderado pelo vice-presidente Michel Temer, em caso da aprovação do impeachment de Dilma. Um e outro desejam uma única coisa, permanecer no comando do país, e para isso se dispõem a fazer qualquer transação.

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O principal assediado no momento é o PP, que acabou optando por votar pelo impeachment. O partido possui uma bancada de 47 deputados federais – 19 deles investigados na Operação Lava Jato – e seis senadores – metade envolvidos em denúncias de corrupção, inclusive o presidente da agremiação, Ciro Nogueira (PI). Seu mais notório membro é Paulo Maluf (SP), que dispensa apresentação. Para quem não se lembra, o PP é o antigo PDS, que antes chamara-se Arena, base Política Civil da ditadura militar, que censurou, prendeu, torturou e matou cidadãos brasileiros entre 1964 e 1985.

O PP carreia o apoio de mais duas legendas, o PTB e o PSC: juntos os três formam um bloco parlamentar nada desprezível com 75 deputados federais e 10 senadores. Os mais destacados membros do PSC, um partido declaradamente homofóbico, são os deputados Pastor Marcos Feliciano (SP) e Jair Bolsonaro (RJ). Já o PTB é presidido pela deputada Cristiane Brasil (RJ), filha do ex-deputado Roberto Jefferson, condenado no processo do mensalão.

Outro bloco parlamentar cortejado por Lula e por Temer (por meio de seu preposto Romero Jucá) é o formado pelo PR, PSD e PROS, que alcança um total de 82 deputados e oito senadores. Os mais conhecidos membros do bloco são Clarice Garotinho (RJ), Darnley (RS) e Tiririca (SP). O PR esteve no centro de um escândalo de fraudes de licitações operadas no Ministério dos Transportes, cujo titular entre 2004 e 2010 – portanto ao longo do Governo Lula – era o deputado Alfredo Nascimento, atual presidente do partido...

A questão é que qualquer que seja o resultado de impeachment – que não tem absolutamente nada de técnico, apesar dos cínicos argumentos da oposição – estaremos sob o jugo de parlamentares que exercem seus mandatos não em benefício dos eleitores, mas sim de seus interesses particulares, no mais das vezes escusos. É patético observar os governistas reclamarem hoje da infidelidade do PMDB, já que em 2010 o PT se aliou àquela agremiação visando ganhar o pleito e perpetuar-se no poder mesmo sabendo que por trás da fachada daquela sigla havia (e há) apenas um grande balcão de negócios.

Nunca pensei que um dia estaríamos sendo governados por um grupo de homens e mulheres justos e probos, o exercício da política não admite essa utopia... Mas nem em meus mais terríveis pesadelos imaginei que seríamos conduzidos a essa rua sem saída, a esse outono sem perspectiva de primavera. Afundamos todos num lamaçal de corrupção, acuados pelo desemprego, pela violência descontrolada, pela zika, pela dengue, pela H1N1, enquanto nossos líderes – se é que podemos designá-los assim – discutem a repartição do butim.

Luiz Ruffato é escritor e jornalista.