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Perfil digital dos manifestantes: o abismo aberto pela polarização

Nas redes sociais manifestantes contrários e a favor do impeachment não possuem referências comuns

Ato contra o impeachment na Paulista dia 18.03. Ag. PT

Nos últimos dias 13 e 18 de março manifestantes pró e contra o impeachment tomaram as ruas do país. Com base em dados coletados no Facebook, traçamos o perfil digital dos manifestantes de cada um dos protestos. A pesquisa indica que as referências digitais dos manifestantes são profundamente distintas. Das cinco categorias de páginas examinadas – veículos de mídia, comentaristas, políticos, movimentos e campanhas e partidos políticos – em todas elas, a preferência daqueles que confirmaram publicamente presença no ato do dia 13 eram completamente diferentes das preferências daqueles que confirmaram no ato do dia 18. Com raríssimas exceções, nenhum ator político, por meio do Facebook, é capaz de se comunicar ao mesmo tempo com ambos os polos da disputa.

Para conduzir a pesquisa, foi coletado um identificador único de cada usuário que anunciou publicamente sua intenção em participar do ato do dia 13 (cerca de 410.000 usuários) e do dia 18 (cerca de 24.000 usuários) confirmando presença em eventos no Facebook. Em seguida esses dados foram comparados com uma base de usuários que, entre os dias 13 de fevereiro e 13 de março, curtiram alguma publicação de uma série de páginas selecionadas pelos pesquisadores a partir do acompanhamento do debate político. Para cada página considerada foi possível verificar a porcentagem de manifestantes de cada ato que se interessou por seu conteúdo. O trabalho completo pode ser acessado aqui.

O estudo revelou que veículos de mídia impressa como a revista Veja e os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de São Paulo parecem mais relevantes dentre os manifestantes do dia 13 (pró-impeachment, no gráfico em azul), enquanto que os manifestantes do dia 18 (contra o impeachment, em vermelho) tendem a dar mais atenção para portais de notícias como G1, UOL e R7. Foi possível verificar também que uma proporção muito grande dos leitores de portais como a Rede Brasil Atual e o blog Tijolaço foram ao ato "contra o golpe”, mas como se tratam de veículos pequenos, isso quase não se expressa no total de manifestantes.

Além disso, aqueles que defendem a permanência da presidenta no cargo parecem ler menos a grande imprensa, porém, buscam mais informação em comentaristas como Socialista Morena e Leonardo Sakamoto. Com a exceção da página do jornalista Ricardo Boechat, âncora do Jornal da Band, nenhuma outra é popular ao mesmo tempo entre manifestantes de ambos os lados da disputa.

Sobre as páginas que convocaram os atos do dia 13, é notável, por um lado, o declínio de popularidade do Revoltados Online (curtido por 12% dos manifestantes) e, por outro, a ascensão da página do partido anti-PT (14%). Esta última foi a que mais recebeu curtidas recentes dentre as selecionadas. Considerando apenas os usuários que confirmaram presença no ato do dia 18, ela perde em popularidade apenas para o Vem Pra Rua (26%) e o Movimento Brasil Livre (16%). Ainda entre os manifestantes pró-impeachment destacam-se duas páginas, ambas autodeclaradas apartidárias: o Movimento Quero Me Defender (3%), que “atua para ver aprovada a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos bem como o direito constitucional dos brasileiros(as) de se defenderem através da compra e do porte de armas de fogo”, e o Movimento Contra Corrupção (MCC) (9%).

Dentre os manifestantes do dia 18, chama a atenção que páginas dos movimentos negro e feminista sejam mais relevantes do que páginas de movimentos tradicionalmente ligados ao governo como o Movimento dos Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Uma chave de interpretação desse resultado é a diferença de atuação na internet desses atores, tendo apenas os primeiros assumido a disputa do discurso nas redes. Outra chave de compreensão é a tendência de moralização da política chamada de “guerras culturais”. Neste caso a proeminência de grupos identitários, bem como de grupos como o MCC e o Quero Me Defender, seriam indícios de que o Brasil passa por uma fenômeno de moralização do debate político similar a que os Estados Unidos passaram no começo dos anos 1990.

Quando analisamos os seguidores de páginas de políticos, como esperado, quadros tradicionais do PT aparecem em destaque entre os manifestantes contra o impeachment: Dilma Rousseff, Lula, Eduardo Suplicy e Fernando Haddad. Do outro lado, quadros tradicionais do PSDB como Fernando Henrique Cardoso (3%) e Aécio Neves (7%) dividem o destaque com políticos de extrema-direita como o senador do DEM Ronaldo Caiado (11%), o deputado do PSC Jair Bolsonaro (9%) e o deputado estadual do PSDB Coronel Telhada (2%).

Além do PSDB (curtido por 9% dos manifestantes do dia 13) e do PT (curtido por 15% dos manifestantes do dia 18), partidos com mais consistência ideológica aparecem em destaque entre as páginas seguidas pelos manifestantes: o Partido Novo com 3% dos que tomaram as ruas no dia 13 e o PSOL com 3% entre os que tomaram as ruas no dia 18. Os manifestantes confirmados nos atos não parecem estar engajados nas páginas dos outros partidos estudados (DEM, REDE, PMDB e Solidariedade) que tiveram menos de 1% dos manifestantes interagiram com elas. Isso pode indicar descaso com o tema ou simples falta de capacidade desses partidos em disputar as redes.

Em ambos os atos o Datafolha traçou o perfil dos manifestantes. Se os dados do Datafolha estiverem corretos, há uma surpreendente proximidade entre ambos quanto à proporção de homens e mulheres, idade, escolaridade e faixa de renda, sendo os do dia 18 pouco mais jovens e os do dia 13 consideravelmente mais ricos. O abismo que existe entre os manifestantes, porém, é menos geracional ou de classe social do que de referências culturais. Nas redes, o efeito bolha dos filtros, causado, seja pela liberdade do internauta em buscar ativamente suas fontes de informação, seja pelos algoritmos das redes sociais que sugerem a ele informações compatíveis com seu perfil, isola os polos do debate tornando o diálogo quase impossível.

Márcio Moretto Ribeiro é professor de Sistemas de Informação na USP
Pablo Ortellado é professor de Gestão de Políticas Públicas na USP

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