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Maior manifestação da democracia brasileira joga Dilma contra as cordas

Segundo estimativas, cerca de três milhões de pessoas foram às ruas nas manifestações deste domingo

Ato pelo impeachment na avenida Paulista. Sebastiao Moreira EFE

Embalados pelo pedido de prisão preventiva do ex-presidente Lula e pela definição do rito de impeachment pelo Supremo Tribunal Federal na última semana, centenas de milhares de pessoas tomaram ruas de diversas cidades neste domingo em manifestações no Brasil pela quinta vez para reivindicar a saída da presidenta Dilma Rousseff. De acordo com o site G1, ao todo mais de três milhões foram às ruas em 229 cidades, levando em conta dados fornecidos pela Polícia Militar. Em São Paulo, termômetro político e social do país e principal bastião anti-PT, o ato reuniu 500.000 pessoas na avenida Paulista, segundo o Datafolha, mais que o dobro do número alcançado em março do ano passado, de acordo com o mesmo instituto. Após cambalear  – o último ato pelo afastamento da petista, em dezembro do ano passado, teve público menor que o esperado –, agora os grupos que querem a saída do PT do Governo colocaram de vez a presidenta nas cordas.

Esta é a maior manifestação de rua da história da democracia do país depois do fim da ditadura, e mostra o fôlego que os movimentos pró-impeachment, que nasceram em 2014, atingiram. A marcha pelas eleições diretas (Diretas Já), uma referência de multidões, levou às ruas 400.000 pessoas em 1984. Se na primeira grande manifestação pró-impeachment em março do ano passado os grupos que pediam a saída de Dilma dividiram espaço na avenida Paulista com reivindicações difusas, como os pedidos da intervenção militar, desta vez o discurso foi mais afinado. O sentimento que se sobressaiu, de maneira geral, é de total rejeição ao PT e ao Governo e que “qualquer coisa” será melhor que Dilma Rousseff na presidência. "Qualquer um é menos pior que Dilma", disse a dentista Fátima Gerbasi. "Não tem importância se é o Temer que assume [o Governo, em um eventual impeachment]. Vão fazer um Governo de coalizão e isso vai ser bom".

Os protestos multitudinários são uma má notícia para a presidenta que está prestes a encarar um processo de impeachment na Câmara e está sob a ameaça de perder o apoio do PMDB, seu principal aliado. O grito nas ruas pode empurrar parlamentares indecisos a votar a favor de sua destituição via impeachment, e pode acelerar até a análise de suas contas de campanha no Tribunal Superior Eleitoral. A mandatária ainda tem o mercado financeiro jogando contra, pois acreditam que a sua permanência impede que a crise política se resolva e desate o nó da economia.

Um grito contra todos?

Definitivamente não foi um dia feliz para a presidenta. Mas políticos da oposição também não foram poupados e receberam vaias no meio da massa. Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin, pela primeira vez participando dos protestos, e o senador Aécio Neves, ambos do PSDB, foram chamados de “oportunistas”, o que os obrigou a abreviar sua passagem pela Paulista para não mais que 30 minutos. Em alguns momentos, o protesto parecia um grito contra todos os políticos. Marta Suplicy (PMDB), caloura na oposição, também foi vaiada e chamada de “vira casaca”. Pré-candidata do PMDB à prefeitura de São Paulo, a senadora deixou o PT em abril de 2015.

Em Brasília, onde a manifestação ocorreu na parte da manhã e reuniu 100.000 pessoas, segundo a Polícia Militar, o início da passeata foi confuso, com locutores de cinco carros de som falando ao mesmo tempo. No percurso, os manifestantes pararam em frente à Catedral da cidade e rezaram um Pai Nosso. O deputado federal de extrema direita Jair Bolsonaro (PSC-RJ) fez um discurso tumultuado. Enquanto falava, do alto de um carro de som, alguns de seus apoiadores seguravam cartazes com os dizeres #Bolsonaro2018, uma alusão a sua eventual candidatura à presidência daqui a dois anos, e ocupantes de outros trios elétricos, contrários à presença de políticos no evento, gritavam palavras de ordem contra o PT, contra o ex-presidente Lula e contra Dilma, abafando a fala de Bolsonaro.

Entre os que demonstravam sua indignação, havia uma aposentada que se considera profissional em protestos pelas ruas da capital federal. Rosa Maria de Paula, 57, afirma que participou dos atos das Diretas Já, do pedido de impeachment de Fernando Collor de Mello e que agora, mesmo tendo votado em Lula até 2002, não vê outra saída para o país que não a destituição da presidenta Dilma Rousseff e dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB). “O PT só trouxe corrupção e roubalheira. Por isso sou a favor do impeachment da Dilma e da cassação do Renan e do Cunha”.

No Rio o ato também foi o maior dos últimos anos e também teve o início marcado pela oração de um Pai Nosso, seguido pelo hino do Brasil. De um trio elétrico, um locutor acusou Dilma pelo "assassinato do povo brasileiro". “Chegamos ao limite. É a primeira vez que venho a uma manifestação, deixei meus netos em casa e vim para demonstrar meu apoio ao Ministério Público”, afirmou o empresário aposentado Ricardo Castro, 71, que participava do ato na orla de Copacabana, zona sul da cidade. O grito mais ouvido na manifestação era “eu não quero viver em outro país, quero viver em outro Brasil!”

Sem confrontos e Moro

De modo geral, não houve os confrontos que se esperavam nos dias anteriores e o perfil do público continuou repetindo o mesmo padrão: a classe média alta, branca, muitos que nunca votaram no PT e outra parcela que já votou, mas agora rejeita a condução do partido. Neste domingo, a exaltação ao juiz Sérgio Moro se repetiu, assim como à Polícia Federal. Em São Paulo, eles ganharam cartazes, bonecos, camisetas e faixas em homenagem ao trabalho realizado na Operação Lava Jato. Além dessas figuras já costumeiras nas ruas, o promotor do Ministério Público de São Paulo Cássio Conserino estreou entre os heróis. Conserino foi um dos autores do pedido de prisão preventiva de Lula enviado à Justiça na última quinta-feira. "Lula molusco, pode esperar, o Conserino vai te pegar", cantaram na avenida Paulista.

Enquanto as ruas fervilhavam, Moro divulgou uma nota, algo inédito desde que as manifestações anti-Dilma começaram. "Neste dia 13, o povo brasileiro foi às ruas. Entre os diversos motivos, para protestar contra a corrupção que se entranhou em parte de nossas instituições e do mercado. Fiquei tocado pelo apoio às investigações da assim denominada Operação Lava Jato", disse o juiz. Na carta, em que ele diz também que é “importante que as autoridades eleitas e os partidos ouçam a voz das ruas”, Moro surfa em uma onda iniciada no ano passado, quando passou a ser chamado de herói nas ruas.

A fragilidade crescente do Governo e as mais recentes notícias da Lava Jato animaram os líderes dos movimentos organizadores do protestos em São Paulo a se sentirem seguros para cravar, inclusive, uma data para o nocaute final de Dilma Rousseff. "Até maio ela cai", afirmava Renan Santos, do Movimento Brasil Livre (MBL), em um discurso inflamado para uma multidão que o aplaudia na avenida Paulista. O senador Ronaldo Caiado (DEM) também mostrou segurança ao falar da derrubada do Governo, estimando um tempo – um pouco mais generoso que o MBL – "Se Deus quiser, até junho já teremos encerrado este momento da história brasileira e caçado a presidente", disse no carro de som do Movimento Endireita Brasil.

Já no carro de som do Vem pra Rua, o maior movimento pró-impeachment na Paulista, predominava um clima  ufanista. O hino nacional foi executado duas vezes, e os manifestantes exortados a cantar com o braço direito em riste. “Parabéns a todos aqueles que ainda se emocionam com o hino!”, gritou Rogério Chequer, um dos coordenadores do grupo. Na sequência, os alto falantes tocaram o tema da vitória do piloto Ayrton Senna da Silva, morto em 1994. Provocações contra militantes do PT – que supostamente seriam pagos para comparecer a atos pró-Governo – também deram o tom. “Quem recebeu um real para estar aqui? Eu vim de graça!”, gritava um dos porta-vozes do Vem pra Rua.

Enquanto os protestos ocorriam, os ministros de Dilma acompanharam com atenção todos os passos. Ao fim do dia, a presidenta se reuniu com seu núcleo duro, formado pelos ministros Ricardo Berzoini (Secretaria do Governo), Jaques Wagner (Casa Civil), José Eduardo Cardozo (Advocacia Geral da União) e Edinho Silva (Secretaria de Comunicação) para discutir como iria se pronunciar diante de tanta mobilização. À diferença de março passado, não houve fala à imprensa. Decidiram apenas emitir uma nota de cinco linhas destacando respeito pelos protestos. “A liberdade de manifestação é própria das democracias e por todos deve ser respeitada. O caráter pacífico das manifestações pelo Brasil ocorridas neste domingo demonstra a maturidade de um país que sabe conviver com opiniões divergentes e sabe garantir o respeito às suas leis e às instituições”.

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