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O condomínio de Copacabana que grita “Fora Cunha”: uma crônica

A convulsão em Brasília entra na ordem do dia de um prédio de classe alta carioca

Faixa de "Fora Cunha" gigante em Copacabana.
Rio de Janeiro

Em um edifício art-decó, no coração de Copacabana, os vizinhos convivem em harmonia com convicções ideológicas díspares. Carol, a idosa com boina de lantejoulas do terceiro andar, sempre detestou Lula e é a favor do impeachment da presidenta; Elisabeth, a psicanalista conversadora, que quer uma horta no quintal, sempre confiou no metalúrgico, mas, em 2014, votou em Aécio sem gostar dele; Alberto, engenheiro eletrônico, é fã do juiz Sérgio Moro, se diz apolítico, mas irá no protesto anti-PT deste domingo; Ângela, bela atriz de 64 anos completamente vestida de branco, encarna a mais férrea militância do Partido dos Trabalhadores.

Eles, todos rondando ou já tendo superado os 60 anos, se conhecem há cerca de 20 e só nesses tempos convulsos a política entrou na ordem do dia do condomínio. Uma única causa é consenso entre os moradores dos 12 apartamentos deste prédio com vista para o mar: “Fora Cunha”.

Em outubro, após as informações sobre as contas secretas do presidente da Câmara serem divulgadas, Alberto, de 57 anos, estava roxo de raiva: “Era um menosprezo com o povo enorme. As evidências eram claras, teria que sair, pedir desculpas”. Cansado de conviver com sua indignação entre quatro paredes quis mostrá-la à cidade inteira. Pensou em colocar uma faixa na sua varanda – como essas que ostentam alguns dos seus vizinhos contra Dilma ou a CPMF – mas apostou por algo maior: uma faixa de 28 metros que ocupasse o prédio de cima a baixo. Precisava do apoio do condomínio.

Um por um, Alberto consultou seus vizinhos. Ninguém se opôs. “Houve unanimidade porque, se não, não teria sido legal. Qualquer um teria o direito de sair na sua janela e cortar a faixa”, lembra Ângela. Alguns, como ela, até se empolgaram com a ideia e pediram para participar das despesas, mas Alberto quis bancar sozinho os 600 reais da iniciativa. “Eu concordei porque acredito que a gente tem que se manifestar. Cunha não é o único corrupto, mas ele representa, com seu cinismo e suas manobras, o pior da nossa política. Ele debocha da gente”, explica Elisabeth, a psicanalista.

No dia 15 de novembro, dia da proclamação da República, um pedaço de tela preta gigante com o “Fora Cunha” em enormes letras brancas e uma bandeirinha com as cores do Brasil desenrolava-se do telhado até o primeiro andar. Está lá até hoje, de cara para a praia de Copacabana.  Algumas coisas aconteceram desde então. O Ministério Público Federal apresentou a segunda denúncia contra Cunha, Aécio e Dilma foram citados na delação do ex-senador Delcídio e Lula foi levado a depor à força pela Polícia Federal. As novidades, como era de se esperar, continuam sendo a pior das desculpas para puxar assunto no elevador.

Sentados em duas cadeiras de plástico branco na cobertura do prédio, Ângela e Alberto se reuniram para explicar à reportagem a história da faixa, mas dois minutos depois já começaram a discutir. Ângela critica o papel da “mídia golpista” na cobertura do depoimento de Lula e rechaça o que ela considera uma “Justiça seletiva”. Alberto, vestido com uma camiseta em apoio a Sérgio Moro, explica seu descontentamento com o PT por ter surgido como “um partido ético” e “acabar justificando a roubalheira que sempre existiu”. A atriz coça o ouvido e sorri apertando os dentes para se conter, o engenheiro agita a mão direita para enfatizar suas palavras.

Diluída a discussão, Alberto lamenta que a iniciativa do seu prédio não fosse imitada por outros. “Achei que iria começar a ver muitas faixas pelo bairro, mas ninguém copiou. Isso me frustrou. De qualquer forma, a gente vai manter a nossa. Agora estou querendo colocar uma nova”, anuncia ele. “Qual?”, indaga Ângela.

– Eu botaria uma faixa a favor de Moro.

– Se for só da sua janela, pode.

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