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Protestos contra Dilma voltam embalados por escalada da crise política

Ações legais contra Lula incendiaram os movimentos antigoverno. Cresce apoio de empresários

Manifestação anti-Dilma em Copacabana. AFP

Os protestos de movimentos anti-PT e pró-impeachment voltam neste domingo com maior apoio do establishment empresarial e político que há um ano e embalados pelo sentimento de que a derrubada do Governo Dilma Rousseff pode estar mais próxima. Do ponto de vista da mobilização dos participantes, um ingrediente importante entrou em jogo: a série de ações legais contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, começando com a condução coercitiva para prestar depoimento na sexta 4, e terminando, por ora, com o pedido de prisão preventiva do Ministério Público de São Paulo. Embora a Justiça ainda não tenha acatado o pedido, e não exista um prazo para fazê-lo, a notícia incendiou as redes sociais dos grupos mobilizadores e apoiadores na quinta-feira.

Um ano após uma onda verde e amarela invadir a avenida Paulista, em São Paulo, na maior manifestação que a oposição já fez em toda a história do Governo petista, os movimentos antigoverno planejam repetir a dose. Neste domingo, os organizadores da manifestação convocada desde o ano passado por movimentos como o Vem Pra Rua e o Movimento Brasil Livre (MBL) esperam atrair mais de um milhão de pessoas, número próximo do registrado em 2015, quando esse contingente  foi à avenida Paulista gritar "fora Dilma", segundo a Polícia Militar. De acordo com os dados da medição do Datafolha, foram 210 mil pessoas no ato, recorde dos quatro mega-atos convocados contra o Planalto.

Se naquela época o Governo petista, acostumado a ser aquecido pelo calor dos movimentos sociais, sentiu pela primeira vez que tinha perdido o monopólio das mobilizações de massa, agora os protestos podem ser a pressão que faltava para que muitos políticos em Brasília tomem uma posição em relação ao impeachment, acelerando esse processo.

Longe do Planalto, o apoio à oposição nas ruas já está aumentando: atores, entidades de classes e políticos fazem convocações para a marcha. O juiz Sergio Moro e Newton Ishii, agente da PF conhecido como "Japonês da Federal", estão sendo usados como garotos-propaganda da manifestação. “Precisamos de vocês para juntar as forças, para combater a corrupção e tornar o Brasil mais justo”, disse, Ishii. “Contem comigo", finalizou, em um vídeo que organizadores do ato publicaram na página do Facebook do evento.

Em outro vídeo publicado na mesma página, aparece uma foto do juiz Sergio Moro, com uma narração de fundo: "Este homem e seu grupo estão, de verdade, mudando o Brasil. E agora, quando ele mais precisa de você, você vai deixá-lo sozinho?", questiona uma voz de filme policial, sobre uma montagem com a imagem de Moro na avenida Paulista.

"Essa polarização extremada, que vem desde as eleições de 2014 e teve um agravamento importante desde a condução coercitiva do ex-presidente Lula, indica a perspectiva de uma longa e custosa disputa entre os dois campos políticos"

Do lado empresarial, o apoio também cresceu. Paulo Skaf (PMDB), presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), realizou, no início da semana, uma reunião com representantes do MBL, do Vem pra Rua e de cerca de 100 entidades filiadas à Fiesp, para anunciar seu apoio ao ato. Na ocasião, disse que estaria na Paulista no domingo com a família. A Associação Brasileira de Shoppings Centers (Abrasce), a Sociedade Rural Brasileira e algumas sessões estaduais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também divulgaram apoio. Nesta quinta-feira, o governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) disse que "pode ser" que vá à Paulista, "como cidadão", na que seria a primeira participação do presidenciável tucano neste tipo de ato.  Até então mais distante, Alckmin planeja, segundo a Folha de S. Paulo, ir ao protesto ao lado do senador Aécio Neves, seu concorrente na luta pela vaga de candidato a presidente do partido.

Embora o movimento Vem pra Rua evite falar em Impeachment, essa é uma das bandeiras que serão levantadas no domingo. Na realidade, talvez seja a maior delas. O ato, segundo o movimento, será "em apoio à Lava Jato, à Polícia Federal, ao Ministério Público e à Justiça Federal". Evitam falar do impeachment porque é feita uma associação direta com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), também implicado na Lava Jato. Mas fontes do movimento afirmam que ele será "também pelo fora Dilma”.

Confrontos e redes sociais

Os ânimos acirrados das últimas semanas levantaram uma certa tensão em torno dos atos de domingo, com maior temor por confrontos de rua do que no ano passado. Na semana passada, o PT e entidades ligadas ao partido chegaram a marcar um ato no mesmo dia e local, em São Paulo, para defender o Governo, aumentando ainda mais a expectativa de confronto. Desmarcaram pouco tempo depois. Os movimentos governistas decidiram então manter um ato de "apoio à democracia" para a sexta, 18. Em entrevista coletiva nesta sexta, Dilma Rousseff fez "um apelo para que não haja confronto" no domingo. "A manifestação é um momento importante para o país", disse.

Nas redes sociais o acirramento político ficou bastante visível. A evolução das menções aos protestos é bem parecida com a de março de 2015, segundo estudo realizado pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Dapp). Entre quarta e quinta-feira, foram registrados 115.000 tuítes sobre a manifestação.

De acordo com Marco Aurélio Ruediger, diretor da FGV/Dapp, essa evolução indica uma tendência de que veremos protestos de grande magnitude no domingo. "Embora não se possa afirmar isso com 100% de certeza, eu diria que é bem provável que tenha uma dimensão parecida – a se julgar pelo clima nas redes sociais", disse.

Nesta sexta-feira por volta das 16h, o tema corrupção era o mais popular no Twitter, segundo a ferramenta da Dapp. Em seguida, vinha protestos. Os temas na sequência eram segurança, educação, saúde e transporte.

Para Ruediger, o clima de radicalização política revela uma cisão política e social "mais profunda do que uma simples oposição ao governo ou a Dilma Rousseff. "Essa polarização extremada, que vem desde as eleições de 2014 e teve um agravamento importante desde a condução coercitiva do ex-presidente Lula, indica a perspectiva de uma longa e custosa disputa entre os dois campos políticos."

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