Governo Macri

Macri arrasa na votação dos fundos abutre no Congresso: 165 a 86

O apoio de peronistas dissidentes, maior do que o esperado, deixa o kirchnerismo muito solitário

Mauricio Macri, em uma fábrica da Toyota em Zárate.
Mauricio Macri, em uma fábrica da Toyota em Zárate. (EFE)

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O presidente da Argentina, Mauricio Macri, acaba de fazer, na noite desta terça-feira, uma exibição de poder muito acima da esperada com seu primeiro grande desafio no Congresso, onde está em minoria. Graças ao apoio de peronistas dissidentes e à fratura da oposição, Macri arrasou na votação do pacto com os fundos abutre. Depois de 20 horas de debate ininterrupto durante a madrugada, Macri obteve 165 votos a favor e apenas 86 contrários, os do kirchnerismo e de alguns pequenos grupos de esquerda.

Esta demonstração deixa clara a fraqueza e a divisão do kirchnerismo e mostra que Macri tem o controle do país não só dentro como sobretudo fora da Argentina, inclusive em um assunto tão simbólico e delicado para os argentinos como o dos fundos abutre.

Todo o dramatismo da política argentina nos últimos 15 anos se colocou em primeiro plano nessa sessão parlamentar única, que deveria aprovar as leis que permitirão ao Governo de Mauricio Macri firmar um acordo com os fundos abutre e endividar-se em cerca de 12 bilhões de dólares nos mercados internacionais para pagá-los. Antes mesmo de começar a sessão, já se via que era um dia especial. Das tribunas do público, um grupo de kirchneristas cantava “Oe, oe, vamos a volver, vamos a volver”[oe, oe, vamos voltar, vamos voltar] e “patria sí, buitres no” [pátria sim, abutres não], enquanto os deputados fiéis à ex-presidenta os acompanhavam com palmas. Todos sonham com a volta, enquanto o grupo se esfacela diariamente com deserções.

Os macristas, mais tranquilos, estavam exultantes com a primeira grande exibição de que, apesar de estarem em minoria, controlam o Congresso graças a diversos pactos e à divisão do peronismo. Diego Bossio, ex-kirchnerista, recebia olhares assassinos de seus ex-colegas, que não perdoam que ele os tenha traído e esteja disposto a apoiar Macri. E Sergio Massa, peronista dissidente e árbitro com suas 24 cadeiras, distribuía sorrisos e gestos carinhosos a todos, em uma demonstração de poder que não se faz apenas com números, mas também com a linguagem corporal.

“Não façam isso, pagar assim é outra armadilha. Depois disso os abutres vão pedir mais. Temos de ser tão humilhados como país? Na história de nosso país, o endividamento externo trouxe pobreza e desindustrialização. Ainda não sabemos que consequências este acordo terá. Os abutres sequer se comprometem a não seguir brigando nos tribunais. É um mal acordo, não façamos, por que tanta pressa?”, clamou o ex-ministro da Economia kirchnerista Axel Kicillof. Enquanto isso, o macrista Luciano Laspina, em tom não menos dramático, assegurou que este acordo é básico para que a Argentina recupere o crédito e possam ser feitas as escolas e o saneamento básico de que as pessoas precisam. Laspina explicou que os Kirchner tentaram a via judicial contra os abutres “e a Argentina foi derrotada”, por isso agora é preciso pagar.

O kirchnerismo transformou o ‘sim’ ao projeto que permite o acordo com os fundos abutres em uma espécie de traição definitiva da pátria

A alternativa proposta pelo macrismo é especialmente dura: ou há acordo com os abutres, ou haverá um ajuste muito mais duro.

Na sessão interminável falou também Máximo Kirchner, o filho mais velho do casal que dirigiu a Argentina durante 12 anos, dizendo aos deputados de forma irônica: “Juntos podemos negociar melhor, eu sei que vocês são melhores do que nós, vejo vocês todos os dias nos bastidores da televisão”. Apesar de ser o líder de La Cámpora, o grupo de jovens kirchneristas, Máximo Kirchner mal aparece em público, e por isso seu discurso foi uma grande novidade.

A política argentina vive assim em plena revolução diante da votação que abre caminho ao pacto definitivo com os fundos abutre. Agora o assunto passará ao Senado, onde também se espera um sucesso de Macri graças ao apoio dos governadores peronistas, que controlam muitos senadores. O Governo joga contra o relógio: antes de 14 de abril, precisa ter aprovadas no Congresso e no Senado as leis que desbloqueiam esse pacto alcançado em Nova York. Se não conseguir até essa data, o acordo é desfeito e o descrédito internacional da Argentina será muito significativo, especialmente nos mercados financeiros, que receberam a chegada de Macri com grande entusiasmo.

O Governo conseguiu superar o primeiro passo. Primeiro obteve o quórum, ou seja, os deputados suficientes para iniciar a sessão. Os kirchneristas se ausentaram, mas ficou claro que eles estão em minoria, pois Governo e seus aliados começaram a sessão com 30 deputados além do necessário. Depois, numa primeira votação, em que o kirchnerismo pedia que se promovesse um referendo popular sobre o acordo com os fundos abutres, essa nova maioria ficou ainda mais nítida: 84 votos para a proposta kirchnerista, com 164 contra. Finalmente, após 20 horas, veio a votação final: 165 a 86.

A votação dos deputados é só o começo. O acordo ainda precisará ser submetido ao Senado, onde o macrismo tem menos força. Mas tudo indica que a lei sairá, porque Macri conta com o apoio dos governadores peronistas, que também querem voltar a se endividar. O kirchnerismo ficará assim cada vez mais solitário, e esta votação marca a ruptura definitiva do peronismo, algo que facilitará muito as coisas para um Macri em minoria tanto no Congresso como no Senado.

A chave de tudo foi o apoio de Sergio Massa. Ele é, ao mesmo tempo, o pior pesadelo e o principal aliado do presidente. Os dois viajaram juntos à cúpula de Davos, e Massa vem dando apoio ao novo Governo, mas é sabido que esse político hábil, que até um ano atrás liderava as pesquisas de intenção de voto para a presidência, aspira a ser o chefe da oposição e derrotar Macri nas urnas em 2017. Por isso, busca algum benefício político em cada passo que dá. “Com Massa aqui não podemos fica tranquilos, ele é muito rápido”, diz uma pessoa da confiança do presidente.

Os componentes teatrais e dramáticos da política argentina não se restringiam a essa incerteza sobre Massa, afinal resolvida. O outro peronista dissidente, Bossio, que rompeu com Cristina Fernández de Kirchner depois de ser um de seus principais aduladores – as fotos de ambos sorridentes ainda podem ser vistas em cartazes por toda Buenos Aires –, protagoniza uma autêntica novela política. Seus antigos companheiros o chamam de traidor e buscam qualquer mancha em seu passado para afundá-lo. Nesta semana, um fotógrafo captou uma conversa dele por Whatsapp com o líder da bancada macrista na Câmara, Nicolás Massot, em que ele negociava seu apoio em termos muito crus e coloquiais.

A publicação gerou um grande escândalo, e os kirchneristas, que estavam na mesma lista eleitoral que Bossio, inclusive levaram as mensagens aos tribunais para denunciar uma possível compra de votos. Um procurador federal pediu que o caso seja investigado, mas o juiz a arquivou imediatamente, por considerá-lo inconsistente. O assunto, como é habitual na Argentina, fez muito barulho, mas não deu em nada. Bossio garante que o linguajar coloquial que ele usou é habitual entre deputados, mas o caso, que teve grande visibilidade nas redes sociais, esquentou ainda mais o debate.

Como se componentes desse tipo não bastassem, o kirchnerismo transformou a votação numa espécie de traição definitiva à pátria. Cristina Fernández do Kirchner, que do seu retiro em Calafate (província de Santa Cruz, na Patagônia) mantém a liderança do seu grupo e fala por telefone com todos os dirigentes, mobilizou não só os deputados ainda fiéis a ela – um número minguante, mas ainda muito importante, com mais de 80 parlamentares – como também sindicalistas e dirigentes sociais para convocar uma grande manifestação diante do Congresso.

A verdadeira guerra está sendo travada dentro do peronismo, com rivais internos disputando a liderança de uma força que, apesar da estrepitosa derrota nas últimas eleições presidenciais, conserva grande parte do seu poder e, sobretudo, aspira a ser novamente hegemônica dentro de alguns anos.

Cristina Kirchner se comunica com seus seguidores de maneira críptica. Pelo Twitter e o Facebook, lança mensagens de apoio às pessoas que estão se mobilizando contra a votação. Os kirchneristas mais duros pressionam com todas as suas forças e contam ainda com aliados em todo o espectro que dominou a política argentina durante os últimos 12 anos – incluindo, por exemplo, um importante grupo de artistas que também vem se mobilizando contra o acordo, de Fito Páez a Leonardo Sbaraglia.

Nesta terça-feira, portanto, estavam reunidos todos os elementos habituais da tensão política argentina, mas, ao final, as coisas foram mais tranquilas do que o esperado. A lei seguirá adiante, e Macri pode respirar tranquilo. Não fosse assim, ele se veria diante de um problema muito sério de credibilidade, não tanto na Argentina, mas especialmente fora. O presidente vendeu a todos os governantes estrangeiros, por quem foi saudado com um entusiasmo superior ao que tem internamente, de que ele controla a Argentina e consegue aprovar suas reformas no Congresso.

Na próxima semana, receberá a visita de ninguém menos que Barack Obama, que deve legitimá-lo e dar seu respaldo definitivo. Um fracasso em um assunto tão sensível para os Estados Unidos quanto os fundos abutre azedaria a visita logo de saída. Mas não vai acontecer. Macri arrasou no Congresso e é previsível que faça o mesmo no Senado. Seu mandato começa então com uma exibição de poder no lugar onde teoricamente era mais frágil: o Parlamento.

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