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O legado nocivo da industrialização na China pode custar milhões ao Estado

Fábricas estão fechando, mas os poluentes que elas emitiram continuam no ar e na terra

Habitantes com máscaras durante o alerta por poluição em dezembro em Pequim.
Habitantes com máscaras durante o alerta por poluição em dezembro em Pequim. REUTERS

“O fechamento da fábrica nos trouxe uma coisa boa: pelo menos podemos respirar melhor”, diz Lao Zhang. Aposentado, ele mora na cidade de Tiejuzhai, em pleno cinturão industrial cerca de 200 quilômetros a nordeste de Pequim, na província de Hebei. A fábrica de aço Tangshan Antai, que se instalou na vizinhança há uma década, deixou de produzir em outubro. É uma das 16 indústrias do setor que fecharam as portas em Hebei no ano passado devido à desaceleração econômica e às medidas do Governo para reduzir o excesso de capacidade. Mas sua década de funcionamento, dizem os moradores, deixou um legado de poluição que será difícil de erradicar.

“A cidade está cheia de pó de ferro”, diz o aposentado, dando um chute no chão que faz levantar uma pequena nuvem. “Enquanto a fábrica funcionava, o ar era preto. A sujeira ficava na pele, na roupa... Gastamos tanto detergente! A poluição também afetou a chuva. Caía chuva ácida, que prejudicou nossos cultivos. E ninguém nunca nos compensou por isso.”

Xia Xuge, um entre os cerca de 100 desempregados deixados pela fábrica neste povoado de 4.000 habitantes, está de acordo com Lao. “Os cultivos estão arruinados. Antes cresciam árvores frutíferas, mas a poluição da fábrica as matou. A terra está muito contaminada.”

“A poluição do ar pode afetar o solo. As substâncias nocivas emitidas na atmosfera pelas fábricas, como os sulfuretos, os metais pesados e outras partículas tóxicas, podem se assentar diretamente nas plantas e na terra, poluindo o solo e prejudicando as colheitas”, dizem representantes da ONG chinesa Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais, que há quase 10 anos se dedica a difundir dados e informações sobre a poluição industrial no país.

“Indiretamente, as substâncias poluentes podem ser absorvidas pela chuva, a neve ou mesmo a névoa, resultando em chuva ácida, que é também prejudicial para as colheitas e as plantas”, acrescenta essa ONG. “As siderúrgicas, em particular, são grandes emissoras de dioxinas, muito prejudiciais para o solo.”

Na base de dados do Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais, a Tangshan Antai é citada em sete situações de violação das regras desde 2008, por emissões de poluentes ou equipamento inadequado. No mais recente, no ano passado, as autoridades provinciais impuseram uma multa de 32.000 yuans (19.550 reais) por superar o nível tolerado de partículas poluentes expelidas na atmosfera.

Mas o fim das operações da Antai não significa que o ar da região ficará muito mais puro. As siderúrgicas são onipresentes em todo o município de Tangshan, e muitas delas são igualmente responsáveis por violações das regras. Hebei tem uma das piores qualidades do ar em toda a China: 7 das 10 cidades mais poluídas do país, incluindo Tangshan, ficam nessa província, onde funcionam 183 fábricas de carvão, ferro, aço e cimento. Entre todas elas, apenas duas foram aprovadas em uma vistoria de emissões feita pela ONG Greenpeace no ano passado.

Os níveis de poluição atmosférica na província, entretanto, começaram a cair. Segundo um estudo do Greenpeace publicado no mês passado, a poluição no triângulo Pequim-Tianjin-Hebei diminuiu 25,6% em 2015 com relação aos níveis de 2013. Isso pode ser explicado em parte à adoção de padrões ambientais mais rigorosos, mas também pelo fechamento de fábricas por questões econômicas e pelas ordens de Pequim para reduzir a capacidade industrial ociosa do país. Hebei se comprometeu a diminuir em 25% a sua produção de aço – 60 milhões de toneladas num total de 240 milhões – e 15% a de carvão – 40 milhões de toneladas do principal poluente no país – até 2017.

Contudo, segundo o estudo, Hebei se mantém no terceiro lugar na concentração das partículas poluentes mais perigosas, chamadas PM 2,5, de diâmetro inferior a 2,5 micra (milésimos de milímetro). A média diária da província é de 77,3 partes por metro cúbico de ar, só melhor do que a província de Henan e Pequim.

O departamento local de inspeção ambiental prometeu fechar até o final deste ano todas as pequenas empresas que descumprirem os padrões, segundo a agência Xinhua, e subvencionará investimentos em instalações para a limpeza de refugos contaminantes dos setores mais poluentes. Também prometeu investir o equivalente a 120 bilhões de reais para combater a poluição hídrica. Pequim calcula que aproximadamente 60% das águas subterrâneas da China e 70% na planície do norte – onde fica o cinturão industrial de Hebei – contenham elementos nocivos.

Mas a poluição mais difícil de erradicar pode ser a do solo. Um relatório do Ministério de Recursos Naturais e da Terra, elaborado ao longo de cinco anos e mantido em sigilo até sua divulgação parcial em 2014, concluiu que 19,4% da terra cultivável na China está poluída. Em 3,3 milhões de hectares é proibido semear devido à quantidade de produtos tóxicos no solo.

A grande causa disso é a rápida industrialização na China, junto com o uso excessivo de pesticidas. Além das partículas poluentes que chegam ao ar – o que não é o fator principal –, os dejetos tóxicos das fábricas se infiltram no solo. Em outros casos, os agricultores empregam água reciclada da mineração para irrigar seus campos. Entre os metais pesados que a investigação identificou estavam o cobre, o zinco, o mercúrio e o cádmio.

E, uma vez que chegam ao solo, esses materiais permanecem aí para sempre se não forem limpos. “Os metais pesados não são biodegradáveis”, diz por telefone Ada Kong, diretora da campanha do Greenpeace contra produtos tóxicos no leste da Ásia.

Sua eliminação pode ser muito custosa. Segundo Kong, limpar um acre de terreno (4.046,86 metros quadrados) pode custar o equivalente a até 60.000 reais.

Até agora, o Governo chinês se mostra mais lento na hora de fazer frente a esse tipo de contaminação do que contra a poluição do ar ou da água, que já contam com seus respectivos planos de ação. Chang disse esperar que o plano de descontaminação dos solos seja finalmente adotado este ano, com “medidas concretas para combater o problema”.

O Instituto de Assuntos Públicos e Ambientais observa que “para reduzir danos às colheitas e ao solo é fundamental reduzir as emissões industriais de poluentes atmosféricos, e que as fábricas cumpram os padrões de eliminação de detritos. Se as fábricas divulgarem seus dados sobre a eliminação de detritos o público terá condições de fiscalizar seu comportamento ambiental e contribuir para que os padrões sejam cumpridos”.

Um país arrasado pela poluição

Cerca de 60% da água subterrânea na China contém elementos nocivos, segundo o Governo, que investirá o equivalente a 123,7 bilhões de reais no combate à poluição hídrica.

A poluição no triângulo industrial Pequim-Tianjin-Hebei caiu 25,6% em 2015 com relação a 2013, segundo o Greenpeace.

Das 183 fábricas de carvão, ferro, aço e cimento da província de Hebei, só duas foram aprovadas pelo Greenpeace em uma vistoria de emissões.

O Ministério de Recursos Naturais e da Terra estima que 19,4% das terras cultiváveis na China estão poluídas. É proibido semear em 3,3 milhões de hectares.

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