“Pra ser sambista, não precisa ser do morro”

SP, ‘onde tudo o que se planta dá’, semeou o samba no interior e viu o ritmo florescer na capital

Elis Regina e Adoniran Barbosa em cena de um documentário de 1978.
Elis Regina e Adoniran Barbosa em cena de um documentário de 1978.

Em uma noite de 1960, o carioca Vinícius de Moraes escutava o compositor Johnny Alf na boate Cave, na rua Consolação, rodeado de pessoas que preferiam rir e conversar entre elas em lugar de prestigiar Alf, o precursor da bossa nova. O poetinha se irritou com o barulho e o descaso com o show e, dizendo palavras das que se arrependeria depois, lançou uma praga sobre os paulistas: “São Paulo é o túmulo do samba”.

Quando a discussão é sobre o maior gênero musical brasileiro, alguns exaltam sua origem do, que está na Bahia, enquanto outros preferem louvar os anos em que ele se nacionalizou, levado pelas tias baianas à antiga capital do país, ao Rio de Janeiro. Mas poucos falam do capítulo escrito por São Paulo nessa história. São Paulo, terra do trabalho onde só o samba não prospera... Na visão de quem a desconhece, é claro.

“Esse foi um disparate de Vinícius de Moraes, que disse o que disse porque não sabia, não tinha pesquisado”, afirma Olga von Simson, professora da Unicamp e pesquisadora do samba paulista há muitos anos. Toquinho, parceiro de Vinícius na música por mais de uma década, confirma essa versão: “Ele falou isso não porque São Paulo fosse o túmulo do samba. Foi defender um artista numa boate, ficou muito bravo com o pessoal e disse que a cidade era o túmulo do samba. Tinha um jornalista perto, que pegou só essa frase...”, relembra o músico o paulistano.

Vinícius e Toquinho.
Vinícius e Toquinho.Reprodução

A verdade é que São Paulo – terra fértil dos cultivos de cana de açúcar e café que contribuíram para o progresso do Estado desde o período colonial – viu o samba ser semeado no interior em rodas de batuque de negros escravizados (como aconteceu na Bahia e em outros lugares) e florescer na capital, para onde foi levado por escravos já alforriados. Aterrissou nos barracões da Barra Funda, do Bexiga e da Baixada do Glicério, bairros que ainda hoje são redutos de rodas e escolas de samba tradicionais. “Diferente de outros lugares onde o samba se desenvolveu com o passo da umbigada, proibido aqui pelos vigários, São Paulo tem o bumbo como característica principal”, explica Olga, que faz esse resgate histórico em seu livro Carnaval em branco e negro – Carnaval popular paulistano (1941-1988), de 2008.

Por isso, o samba paulista de raiz é conhecido como samba de bumbo, samba caipira, samba rural, entre outros nomes. Essa manifestação original – cujo berço são as festas religiosas de Bom Jesus de Pirapora – sofreu influências do Rio de Janeiro, graças de novo ao rádio, e principalmente ao carnaval paulistano, que em 1967 passa a seguir os moldes do carnaval carioca e transforma seus cordões de marcha sambada em escolas com seus sambas-enredo. O interior, afastado da mídia, resistiu um pouco mais às influências e foi capaz de preservar suas tradições. Até hoje, Campinas, por exemplo, é um centro de autêntico samba rural, o samba de bumbo campineiro.

Gente bamba

Várias foram as respostas dos sambistas de São Paulo à provocação de Vinícius de Moraes, que no fim das contas não queria mesmo ofender. Tanto assim, que ele foi parceiro de Adoniran Barbosa, o maior bamba paulistano, que tem destaque no panteão do samba nacional. Juntos eles compuseram Bom dia, tristeza.

Um documentário raro, mas felizmente disponível na Internet, mostra que Adoniran foi o guia da Elis Regina em 1978, no auge da carreira da cantora gaúcha, no Bexiga. Depois de uma festa no bar, ele a leva para conhecer as ruas do bairro ao som de Saudosa maloca.

Anos mais tarde, os célebres cariocas Chico Buarque e Paulinho da Viola gravaram com o paulistano Paulo Vanzolini, compositor de Ronda, um dos sambas mais pedidos em bares e rodas de samba até hoje.

Por sinal, rodas não faltam em São Paulo para comprovar a saúde do samba local. Quase 30 delas, como o Samba da Vela, estão catalogadas em um guia criado por iniciativa da deputada estadual e sambista Leci Brandão (veja a segunda edição aqui). Nesses encontros que acontecem em grande parte na periferia, é comum escutar os versos de Geraldo Filme, um dos ícones do samba paulista, da canção Eu vou mostrar:

Eu vou mostrar, eu vou mostrar
que o povo paulista também sabe sambar
Eu sou paulista, gosto de samba
A Barra Funda também tem gente bamba
Somos paulistas e sambamos pra cachorro
Pra ser sambista não precisa ser do morro.

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