‘O Nascimento de Uma Nação’, cinema que cura

Filme vencedor do festival de Sundance é um chamado à ação e à justiça Ele se contrapõe diretamente ao discurso racista do filme homônimo de D.W. Griffith

Nate Parker, ator e diretor, de 'The Birth of a Nation'
Nate Parker, ator e diretor, de 'The Birth of a Nation'

Antes de começar a primeira projeção do O Nascimento de Uma Nação, em fevereiro, em Sundance, o público se pôs de pé para aplaudi-lo. Todos ali conheciam a história que haviam ido ver — e que estreou no Brasil dia 10 de novembro — e reconheciam a coragem do seu produtor, roteirista, diretor e protagonista, Nate Parker, de batizar a sua façanha com o mesmo nome do filme que criou os alicerces do cinema e de Hollywood. Como a escolha de um título não é uma casualidade, este está longe de ser uma homenagem ao filme institucional e homônimo de D.W. Griffith, de 1915, ou o ego de um cineasta tentando se impor à história do cinema. Para Nate Parker trata-se de um ato de justiça e de um chamado à ação.

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“Hollywood como organização foi construída sobre o racismo. Foi construída sobre a ideia de que para se manter deveria existir um opressor e alguns oprimidos. Essa era a ideia de D.W. Griffith. Essa era a ideia da Ku Klux Klan. E, se não estivermos dispostos a balançar esses alicerces, vamos continuar lidando com esse problema durante anos”, afirmou Parker após a projeção, quando o cinema voltou a lhe oferecer uma ovação, a maior ouvida em Sundance neste ano.

O Nascimento de Uma Nação sai num momento adequado, em pleno debate sobre a falta de diversidade em Hollywood. Um problema que, segundo Parker, só será solucionado se for encarado frontalmente. “Quando cheguei a Sundance estava nervoso, não com a venda ou não do filme — que acabou sendo vendido por um valor recorde, 17,5 milhões de dólares [56,2 milhões de reais] — e sim para saber se as pessoas aceitariam a minha ideia de que, se quisermos nos curar, precisamos encarar nosso passado obscuro. Dediquei tudo o que sou a fazer este filme. E o fiz por uma razão, com a esperança de criar agentes de mudança, conseguir que as pessoas o vejam e sejam afetadas por ele.”

Apesar do discurso engajado, chama a atenção que o diretor fale em "passado obscuro". Assim como foi bem recebido, em geral, pela crítica, seu filme acabou entrando no centro de uma polêmica relacionada, justamente, ao passado de Nate Parker. Tudo aconteceu meses depois de Sundance, em agosto, quando a revista Variety revelou em uma reportagem que Parker e seu amigo Jean Celestin, corroteirista do filme, haviam sido acusados de estupro em 1999, quando eram estudantes da Universidade Estadual da Pensilvânia. Celestin foi inicialmente condenado (e depois teve a sentença alterada), e Parker, inocentado. Mas o episódio terminou por gerar um boicote de parte da crítica e de espectadores também ao filme, cujo futuro – em meio aos desfechos abstratos do caso – é incerto.

De volta à produção, que de certo esbanja qualidades artísticas, O nascimento de uma nação conta a história de Nat Turner, um escravo que aprendeu a ler sozinho com a Bíblia e se tornou pregador. Aproveitando sua habilidade, seu dono o fazia percorrer outras plantações do Sul, cobrando de outros escravagistas por seus sermões. Nessas viagens de fé, Turner descobriu a injustiça e comandou, em 1831, uma das mais importantes rebeliões de escravos da história norte-americana. Importante, mas desconhecida. “Se me tivessem dado um dólar por cada pessoa que me disse desconhecer a história de Nat Turner, eu poderia ter distribuído o filme sozinho”, brincou Parker em entrevista ao LA Times. “Fui percebendo que esterilizamos desesperadamente nossa história, sobretudo o período escravista. Não queremos falar disso.”

Parker, ator há uma década em títulos como Esquadrão Red Tails e Sem Escalas, passou sete anos pesquisando, escrevendo e procurando financiamento. Em 2013, abandonou a interpretação, depois de protagonizar Nos Bastidores da Fama, seu maior sucesso até hoje, e se centrou em O Nascimento de Uma Nação, apesar do risco que isso representava à sua carreira. Mas, inspirado na revolução feita por seu personagem, Parker quis fazer uma revolução no próprio cinema. Por isso não o concebeu para o sucesso comercial, apesar de a Fox afirmar agora que o filme está perto do Oscar, e sim para “impactar”. “Porque é uma história sobre um homem que luta contra a injustiça. Não é só para pessoas negras. É um filme sobre a liberdade de todos. Sim, desafia a sua situação privilegiada e o seu conforto. Mas promove a cura.”

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