Clint Eastwood: “Leio uma história e vejo o filme que vou fazer. Isso é tudo”

Cineasta estreia “Sully”, sobre piloto que fez pouso de emergência com 156 passageiros no Rio Hudson

O diretor e ator Clint Eastwood, durante a apresentação de “Scully” em Los Angeles, em setembro. / VÍDEO: Trailer do filme “Sully”.Reutersundefined
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Clint Eastwood é um homem de poucas palavras e muitas histórias. Especificamente 35 filmes como diretor, uma carreira cada vez mais rápida à medida que se aproxima dos 90 anos. E isso sem contar sua longa filmografia como ator. Talvez por isso, aos 86 anos, o intérprete, cineasta, produtor e compositor não queira perder tempo falando sobre o que faz. Prefere contar com a câmera. “Não é uma questão de estilo. Leio uma história e vejo o filme que quero fazer. Isso é tudo. Depois, à medida do que vou fazendo, vou pensando que posso colocar um pouco mais disso ou daquilo. Não há nenhum segredo. Em resumo, como Sully, quando filmo faço o que tenho que fazer”, admite o diretor durante a apresentação em Los Angeles de Sully.

Nesse caso, a única coisa que faltava a Eastwood era interesse por uma história. A priori, não existia nenhum drama. Para alguém como ele, ávido leitor da imprensa e piloto de helicóptero há 40 anos, a história do capitão da aviação comercial Chesley Sully Sullenberger não tinha nenhum dramatismo. Não importava que em 2009 ele tivesse feito um pouso de emergência nas águas geladas do rio Hudson, em Nova York, salvando a vida de todos seus passageiros e da tripulação, depois de perder dois motores na decolagem do aeroporto de LaGuardia. Sem tirar o heroísmo de sua façanha, Eastwood não tinha um nó dramático nessa história que havia passado de mão em mão e era recomendada tanto por Steven Spielberg como por sua secretária. “O roteiro ficou uma semana na minha mesa. Com o resto. E todos os dias minha assistente dizia que eu devia ler. E todos os dias eu pegava outro”, reconhece. Até que leu o manuscrito de Todd Komarnicki, algo que julgando pelo ruído que faz lembrando o momento (um som próximo ao de seu personagem em Gran Torino) fez mais para tirá-lo do caminho do que por interesse. “Foi quando me perguntei por que não tinha lido o roteiro no lugar dos outros”.

Como em grande parte de sua filmografia como diretor, Eastwood encontrou o dramatismo dessa história nos pequenos detalhes. Nas dúvidas que surgiram durante a investigação oficial e que fizeram com que o piloto se questionasse se tinha feito a coisa certa. “O filme mostra que foi a decisão certa”, resume de forma sucinta. A crítica dá razão a Sully e ao diretor. Eastwood é sóbrio em palavras, mas a imprensa norte-americana não economizou elogios na hora de receber um filme que consideram um claro candidato ao Oscar, estatueta que ele já conseguiu quatro vezes como produtor e diretor de Os Imperdoáveis (1992) e Menina de Ouro (2004), além do prêmio Irvin Thalberg pelo conjunto da obra. Com manchetes como “Sully voa alto” ou “o filme se destaca na temporada de premiações”, o novo trabalho de Eastwood é lembrado como “um exemplo sólido de realização da maneira mais direta e honesta” separando assim sua figura como autor e lenda viva de Hollywood de sua imagem mais polêmica, a vinculada na política ao candidato republicano à presidência dos EUA, Donald Trump. As projeções da imprensa norte-americana foram seguidas de aplausos, sua estreia nos EUA aconteceu durante o 15º aniversário do 11 de Setembro com uma correta campanha promocional e entre seus atores só há elogios. “Antes de conhecê-lo é alguém cujo nome dá medo”, diz Tom Hanks, alter ego na tela de Sully. O diretor nunca pensou em outro ator para o papel de Sully. “Foi minha única escolha.”

Com um orçamento de cerca de 60 milhões de dólares, o filme já ultrapassou os 180 milhões de dólares em bilheterias internacionais, tornando-se um novo sucesso de público para um ator que parece ter se afastado do lado da câmera em que começou sua carreira. “Não me interessam mais os projetos que exigem minha presença”, admite ele, escondendo seus problemas de audição. “Prefiro ver o trabalho dos outros. Continuar aprendendo. Eliminar as preocupações como ator e me concentrar no que os outros estão fazendo”.

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