“Nunca deixo o velho entrar em casa”

Clint Eastwood acaba de rodar seu novo filme ‘American sniper’

O cineasta norte-americano Clint Eastwood, Nova York, em 2013.
O cineasta norte-americano Clint Eastwood, Nova York, em 2013.G. C. (getty images)

Frank Capra se aposentou aos 64 anos. Billy Wilder, quando era cerca de 10 anos mais velho e já tinha deixado para trás a qualidade de criador que alcançou em suas obras-primas. Entre seus companheiros de armas, atores nascidos em 1930, há de tudo: aposentados como Sean Connery, convalescentes como Gene Hackman e falecidos como Steve McQueen. E alguns mais jovens, como Jack Nicholson, desapareceram das telas. Então qual é o segredo de Clint Eastwood? Aos 84 anos, ele continua ativo como ator, diretor, produtor, músico e até político. É nessa última área que mais críticas foram feitas a esse liberal republicano, sendo que muitos pensam que ele está ficando senil ou que o sucesso lhe subiu à cabeça. No resto de sua carreira, quem não o bajula, admira o fato de um octogenário continuar a rodar, e não um, mas dois filmes por ano. É o caso agora com Jersey boys e American sniper. “Meu segredo é o mesmo desde que fiz Rawhide, em 1959: ficar ocupado. Nunca deixo o que é velho entrar em casa”, diz Eastwood ao EL PAÍS.

É verdade que ele está parecendo mais frágil: olha para baixo ao falar, seu corpo balança em tremores ligeiros, sua barba por fazer tem partes grisalhas e mais finas, e de vez em quando o ouvido esquerdo o deixa na mão. Mas ainda se percebe sua força, em suas respostas, à sua volta, comportando-se como o rei do estúdio Warner, com o qual trabalha há décadas, enquanto seus assistentes avisam ao interlocutor que é melhor sentar-se do seu lado direito. “Se a gente deixa de viver olhando para frente, não há outra alternativa senão olhar para trás, e isso é cair na nostalgia”, diz Eastwood, eternamente recordado pelo papel de Dirty Harry. O cineasta prefere deixar a nostalgia para Jersey Boys, filme baseado no musical homônimo que, depois de fazer sucesso nos palcos da Broadway e de Londres, foi transposto ao cinema num filme que focaliza a vida de Frankie Valli e seu grupo, The Four Seasons. O musical é algo inusitado na carreira de Eastwood, que usou praticamente o mesmo elenco que levou a obra aos teatros.

Um ator que dirigiu 34 filmes

A obra de Clint Eastwood como diretor de cinema abrange grandes títulos:

O estranho sem nome (1973).

O cavaleiro solitário (1985).

O destemido senhor da guerra (1986).

Bird (1988).

Coração de caçador (1990).

Os imperdoáveis (1992).

Um mundo perfeito (1993).

As pontes de Madison (1995).

Meia-noite no jardim do bem e do mal (1997).

Cowboys do espaço (2000).

Sobre meninos e lobos (2003).

Menina de ouro (2004).

Cartas de Iwo Jima (2006).

A Troca (2008).

Gran Torino (2008).

O diretor admite que, embora o grupo conte com grandes números como Can’t take my eyes off of you, esse não é “seu tipo de música”: ele se interessa muito mais pelo jazz de Charlie Parker ou Lester Young que por esses grupos melódicos do passado ou pelo pop dos anos 1960. “Prefiro o country, cujas canções contam uma história, e você entende as letras”, resmunga o diretor, traindo a idade, que admite ter pegado pesado na cerveja “quando as outras pessoas experimentavam drogas”. Mas Eastwood é apaixonado por histórias, e em Jersey boys encontrou uma história boa: o reflexo de uma era, a década que se divide entre os anos 1940 e 1950, vista não desde os olhos de um astro, mas da perspectiva de um grupo de amigos saídos de um bairro operário de Nova Jersey. E o fato de ser um musical não o incomodou. No final, e sem soar saudosista, Eastwood reconhece que passou anos alimentando uma mágoa como diretor. “Sempre senti uma inveja saudável de Milos Forman, porque eu teria gostado de dirigir Amadeus”, recordou, falando do filme sobre a vida do menino prodígio da música clássica.

A idade também não mudou o estilo de Clint Eastwood, conhecido por rodar apenas uma tomada de cada sequência. Ele explica em poucas e ferinas palavras. “Nem sempre é uma tomada. Rodo todas as que forem necessárias para captar o momento como ele precisa ser. Mas é verdade que procuro captar o momento na primeira tomada. Outros diretores devem ter suas razões para filmar muitas tomadas, entre elas a falta de confiança no que querem.” Eastwood já tem sua ideia tão clara em sua cabeça que vai montando o filme ao mesmo tempo em que o roda. É isso o que lhe permite sobreviver nessa indústria: graças às filmagens rápidas e econômicas, pode arriscar-se com as histórias que lhe interessam sem medo do fracasso. Isso, e porque ele se chama Clint Eastwood e já recebeu dez indicações ao Oscar, das quais levou a estatueta em quatro ocasiões, todas depois de ter passado dos 60 anos.

Tanto Jersey boys como American sniper foram projetos que caíram em suas mãos. No caso do primeiro, Eastwood nunca tinha assistido ao musical. Quanto ao segundo, ele estava pelo menos lendo com interesse o livro do militar de forças especiais Chris Kyle, sobre suas experiências como atirador. Kyle é considerado pelo Exército norte-americano o atirador mais letal (ele chegou a responsabilizar-se pela morte de 255 insurgentes iraquianos, 40 em um só dia, embora o Pentágono lhe atribua apenas 150), e seus inimigos o apelidaram de Demônio de Ramadi. Foi assassinado nos Estados Unidos em 2013, já aposentado, por um soldado que tentava ajudar em sua reincorporação na sociedade civil. American Sniper tem um roteiro muito detalhado e que Eastwood reconhecer ter sido um dos mais difíceis que filmou recentemente. Novamente, foi a história que despertou seu interesse. “Nesta altura da minha vida, não tenho mais medo de nada”, ele admite. Quando muito, tem na cabeça o bem-estar de sua família, e não é medo, mas preocupação. E pouca. Recém-separado de sua segunda esposa, Dina Eastwood, ele diz que com tanto cinema não tem tido tempo de desfrutar sua solteirice recuperada. Sobre a promissora carreira de ator de seu filho Scott Eastwood, fruto de um romance breve com a aeromoça Jacelyn Reeves há 28 anos, o cineasta tampouco tem muito a dizer. “Apenas que fico satisfeito pelas coisas estarem indo bem com ele, porque, na idade dele, eu me considerava um sujeito de sorte simplesmente por ter trabalho”, ele acrescenta, novamente deixando sua idade transparecer na conversa.