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‘O Filho de Saul’, a um metro do inferno

Filme, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, faz você sentir mais do que ver: o martírio de habitar o inferno e querer se manter de pé

Filme O Filho de Saul
Géza Röhrig, em 'O filho de Saul'.

Tratado por cima e por baixo, à direita e de cabeça para baixo, com grandiosidade e simplicidade, com ética e estética, até mesmo com esteticismo e sem ética, com justiça, com rigor, com ambiguidades, com poder didático, inclusive com humor, no cinema, o Holocausto, não raro com origem na literatura, parecia um assunto esgotado. Parecia. Até o húngaro László Nemes chegar e colocar o tema de pernas para o ar no último Festival de Cannes com seu O Filho de Saul —que agora é apontado como um dos favoritos a levar o Oscar de melhor filme estrangeiro. Porque a mais terrível das tragédias do século XX é um tema inesgotável. Porque a atitude do ser humano é incompreensível.

Em questões de fundo, talvez, tudo tenha sido dito. Talvez. Mas, na forma, ainda havia um resquício, pelo menos. Um resquício brutal com base em uma das possibilidades do cinema: em vez de mostrar, tentar imiscuir, introduzir, envolver o espectador; não só mentalmente, mas também quase fisicamente. Literalmente, provocar na plateia a sensação de estar dentro de um quartel, de um corredor da morte, de um sumidouro moral, de uma guerra implacável, com o inferno dos outros e com o próprio. É o extraordinário O Filho de Saul, uma aposta na questão do travelling como questão moral de Jean-Luc Godard, um antídoto à teoria da abjeção de Jacques Rivette, um gancho inteligentíssimo aos tabus de representação de Claude Lanzmann, diretor do documentário Shoah (1985).

‘O Filho de Saul’

Direção: László Nemes.

Atores: Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn, Todd Charmont, Sándor Zsótér.

Gênero: drama. Hungria, 2015.

Duração: 107 minutos.

O filme de Nemes atinge o objetivo através de três recursos aparentemente simples. Primeiro, um padrão de som hiper-realista no qual cada movimento, cada toque, cada grito, cada disparo, cada respiração, se pareça com uma facada no estômago de quem assiste ao filme. Em segundo lugar, uma câmera agilíssima, quase sempre por trás do protagonista, um judeu que trabalha em um dos fornos crematórios de Auschwitz, que se movimenta no ritmo de numerosos planos de sequência. E, em terceiro lugar, uma limitadíssima profundidade de campo, com menos de um metro em muitos momentos. Só importa o que está bem debaixo do nariz do personagem. Um procedimento que, ao mesmo tempo, funciona como recurso formal ético e metáfora de fundo. Porque a ambiguidade da atitude de Saul, pondo em perigo os vivos para honrar um morto, é o outro grande tema do filme. Nemes quer falar da impossibilidade de se ter uma visão global do campo de extermínio nessas condições, e isso é transmitido.

As críticas morais feitas do sofá de casa são fáceis. O terrível é estar lá e ter de agir, de tomar decisões. E isso é o que o filme apresenta; faz você sentir mais do que ver: o martírio físico e mental de habitar o inferno e querer se manter de pé.

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