oscar 2016Crítica
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Estética deslumbrante. Só isso?

Durante seu muito longa-metragem estou exclusivamente concentrado no milagre da luz natural

Leonardo DiCaprio, em “O Regresso”
Leonardo DiCaprio, em “O Regresso”

O REGRESSO

Direção: Alejandro G. Iñárritu.

Intérpretes: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson.

Gênero: western. EUA, 2015.

Duração: 156 minutos.

O nome desta seção, O Filme da Semana, é maximalista e em muitos casos enganoso. Como sempre escrevo na primeira pessoa, eu lhes diria que o elegante, sutil, emocionante e complexo Carol é o meu filme preferido da semana, para não dizer dos últimos tempos. Mas gosto de escrever a quente sobre o que assisti (desfrutei desse filme imensamente em Cannes, mas isso já tem nove meses) e a desprezível política de algumas distribuidoras para com suas melhores criaturas por parte de irresponsáveis convencidos pateticamente de que são muito cools, fazendo credenciais de imprensa exclusivas ou impossíveis para pessoas como nós que temos a obrigação, o prazer ou o dissabor de falar sobre seus filmes, me impede de lhes escrever o que senti com Carol.

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No caso de O regresso, previsível ganhador de vários Oscar, tal como aconteceu comigo no ano passado com o venerado Birdman, também do místico e novo rei de Hollywood chamado Iñarritu, durante o seu bastante longo filme me concentrei exclusivamente na beleza das imagens, na prodigiosa luz natural captada por Emmanuel Lubezki, no milagre que significa terem conseguido filmar durante tanto tempo em lugares tão glaciais, belos e selvagens, na estrutura, no risco, na coragem e na estética daquilo que vejo. Mas, diante da tela, assisto a tudo sem sentir fio nem calor, não sinto a terrível odisseia do protagonista, e me custa acreditar que, mesmo sendo alguém tão legendário como Leonardo DiCaprio, se consiga sobreviver a incontáveis graus abaixo de zero depois de ser atacado por um urso, arrastado pelas água de um rio e de cataratas, que caia de um barranco de incontáveis metros, e que não morra porque o protagonista e a história acabariam em uma superprodução que exige uma bilheteria gigantesca depois de uma campanha de marketing (vendendo arte e espetáculo, é claro) que já começa a me causar enjoos. Com Birdman, me acontece algo semelhante. Durante uma hora, eu me mantive presos aos seus falsos e brilhantes planos-sequência, acompanhados dos sons agitados de uma bateria. Quanto à enfática, embora insuportável, Biutiful, nem mesmo isso.

O Regresso fala do instinto de sobrevivência sob condições infernais, da força que a necessidade de vingança confere ao homem, das leis brutais da natureza quando todas as defesas civilizadas contra ela fracassam. E Leonardo DiCaprio? Está muito bem, como sempre. Sabe sofrer o tempo inteiro. Merece um Oscar há muito tempo, mas não será por causa desse caçador traído que ele entrará para a história do cinema.

Nesta noite, vou assistir em casa, pela centésima vez, As Aventuras de Jeremiah Johnson, aquele filme maravilhoso escrito pelo louco lírico John Milius e dirigido por Sidney Pollack. Ele conta a solidão voluntária de um homem em regiões lindas onde só vivem os índios, os animais e um ou outro desmiolado qualquer que nunca encontrou a sua estrela na civilização. Mata o seu filho adotivo e sua mulher índia, e sua sobrevivência só tem sentido por causa da vingança. Com certeza vou me emocionar de novo.