‘Spotlight’, um filme para quem acha que o jornalismo está morrendo

Reconstituição de denúncias sobre casos de pedofilia na Igreja devolve a fé no porquê da imprensa

A equipe de repórteres da Spotlight do Boston Globe no cinema.
A equipe de repórteres da Spotlight do Boston Globe no cinema.Divulgação

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Porém, é mais provável que você seja um cidadão que acompanha as notícias sem preocupações maiúsculas com o destino do jornalismo – tão ameaçado de morte desde que a revolução digital disparada com a Internet se instalou nas vidas de todos nós. Pois saiba: Spotlight vai fazer (até) você acreditar que um jornalista dedicado pode fazer a diferença em um mundo povoado de corrupções esperando para ser denunciadas.

Capitaneada por Tom McCarthy – ator de Hollywood que se converteu em diretor de títulos satisfatórios, mas desconhecidos do grande público (com exceção, talvez, de Trocando os pés, com Adam Samdler) –, a produção aborda a investigação jornalística de um time especial do jornal norte-americano The Boston Globe que resultou, em 2002, numa série de reportagens sobre a conivência da arquidiocese de Boston com padres pedófilos atuando na cidade por décadas.

Reconstruindo o processo de maneira simples em uma redação bastante analógica, que mais parece dos anos 90 que dos 2000, sem heroísmos mas com ritmo instigante, o filme cola o espectador na trabalho dos repórteres Walter Robby Robinson (Michael Keaton), Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d'Arcy James), que ao lado de seus chefes, Marty Baron (Liev Schreiber) e Ben Bradlee Jr. (John Slattery), decidem questionar o forte poder local da Igreja (leia a reportagem original aqui).

Tudo começa com a chegada de Marty Baron à direção do periódico, que à época experimentava os primeiros abalos gerados pela web e queria se reinventar. Baron, um jornalista workaholic de origem judia, vindo de outra cidade com um olhar fresco para captar boas histórias, incumbe a Spotlight – o time de repórteres especiais do Globe – de descobrir, a partir de uma primeira denúncia que resultou em mais de 70 casos revelados, como o alto clero de Boston pôde encobertar por tanto tempo os abusos infantis.

Com um cotidiano que além de exaustivo pode ser maçante e repleto de portas fechadas, como bem sabe um repórter, eles descobrem que os religiosos nunca eram punidos por suas ações, apenas afastados temporariamente de seus cargos. Descobrem também, e especialmente, que essas práticas eram acobertadas não só pela Igreja, mas pela cidade (muito católica, graças à sua história ligada à migração de irlandeses) como um todo.

Nessa rotina que perpetuava a crueldade, estavam envolvidos advogados corruptos, que trabalhavam para a Igreja fechando pobres acordos compensatórios, as próprias vítimas, humilhadas e envergonhadas para falar de suas histórias, e também por eles mesmos, quase alheios até então às denúncias que tinham diante dos olhos. “Se é preciso uma cidade inteira para criar uma criança", diz um dos personagens recuperando o famoso ditado, "é preciso uma cidade inteira para abusar dela”.

O bom jornalismo não morrerá

Mesmo com um enredo forte como a pedofilia praticada por religiosos (“Como posso dizer não a Deus?”, contam no filme as vítimas que se indagavam quando eram crianças e sofriam abusos), é preciso reforçar que o mérito central de Spotlight está em esmiuçar a prática jornalística, com sua reconstrução de fatos e valioso potencial de denúncia. Repórteres reais, como bem se mostra com o apoio de um ótimo elenco, fazem trabalho de detetive – sem jamais se aproximar do glamour de que um Sherlock Homes pode se rodear, ao menos no cinema. E jornais dignos de serem lidos prezam sua independência e mantém um espírito questionador. Dá para sair da sala de cinema comemorando: “O bom jornalismo não morreu, nem morrerá”.

Se a série de reportagens (mais de 600 textos publicados em 2002 que resultaram no afastamento de 249 padres de suas funções) mudou a vida de Boston e foi coroada com um Pulitzer em 2003, o filme – ainda que tenha tido que cavar sua saída da lista negra hollywoodiana de filmes difíceis de se trabalhar – parece ter diante de si uma carreira promissora.

Estreou em setembro, no Festival de Veneza, onde fez alarde, ainda que fora da competição oficial. Foi indicado a três Globos de Ouro, incluindo o de melhor filme dramático, e eleito o melhor longa-metragem de 2015 pela Associação Nacional de Críticos de Cinema dos EUA. Por esses louros, considerados iscas do Oscar (que este ano acontece em 28 de fevereiro), deve conquistar algumas das estatuetas que precisa para somar ainda mais espectadores. Ou, melhor: leitores.

O jornalista Mark Rezendes na pele de Mark Ruffalo e na vida real.
O jornalista Mark Rezendes na pele de Mark Ruffalo e na vida real.Reprodução (The Boston Globe)

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