Mercado reprova Barbosa na Fazenda: desafios serão os mesmos de Levy

Pensamento alinhado ao de Dilma é visto como negativo pelo mercado, que acredita que o novo ministro não terá pulso tão firme para promover um ajuste fiscal como o antecessor

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A troca de Joaquim Levy por Nelson Barbosa deixa uma mensagem clara de retomada às origens desenvolvimentistas do Governo, mas não torna os desafios de 2016 menores. Na visão de economistas ouvidos pelo EL PAÍS, o substituto do "Chicago boy" no ministério da Fazenda precisará de um esforço adicional para convencer o mercado de que conseguirá colocar a economia de volta aos trilhos. Isso porque não há expectativas de que o Barbosa mantenha o pulso firme de Levy na contenção dos gastos públicos. Barbosa sabe como o mercado lhe enxerga e, em sua primeira declaração oficial na Fazenda, disse que o principal foco do governo é a "estabilidade fiscal". Também disse que o Governo está comprometido em combater a inflação e retomar investimentos, nível de emprego e de renda, para que a economia volte a crescer.

Horas antes, o ministro da Casa Civil, Jacques Wagner, deixou claro o que o Governo espera de seu novo ministro da Fazenda, alfinetando um dos pontos fracos de Levy, o jogo de cintura político. "Eu não gosto muito dessa separação entre político e técnico porque eu brinco sempre: um técnico puro que for um elefante em cristaleira, em seis meses cria muito problema para o governo. E uma seda entre cristais, que não resolva nada, não resolve a vida do governo", brincou, em entrevista coletiva nesta manhã, horas antes do anúncio da saída de Levy. Na visão de Wagner, quem está na missão de ministro tem que ser técnico e político, porque precisa conversar com o parlamento, com empresários, com trabalhadores.

Barbosa teria uma vantagem nesse sentido, pois tramita melhor no meio político, conforme destaca o economista Fernando Sampaio, da LCA Consultoria. "Acho que o episódio Levy é mais uma demonstração de que o trabalho do ministro da fazenda muitas vezes foge muito do trabalho de um ministro da fazenda. Depende demais do contexto político e do contexto global. As frustrações dessa passagem do Levy pela fazenda mostram mais uma vez o quanto esses fatores mais gerais são fundamentais. sou cético em relação ao que um economista pode fazer no governo. Inclusive num cargo de presidente".

Ainda que o traquejo político seja desejado para o cargo, de nada servirá esta qualidade sem uma visão mais crítica sobre a economia. "O Levy enfrentou três dificuldades e qualquer um que assuma o cargo também vai enfrentar. A falta de coesão do governo em relação ao que deve ser feito para retomar a economia, sua fraqueza no Congresso, e, a pior delas: a dificuldade em se fazer um ajuste fiscal num momento de recessão", analisa Sampaio.

Para ele, neste ano de 2015 houve um esforço para elevar receita e reduzir despesas, mas a arrecadação se contraiu demais."A recessão dificulta o ajuste e o ajuste dificulta a recessão", complementa. "Conclui-se, portanto, que as principais dificuldades enfrentadas hoje pela Fazenda não serão resolvidas com uma simples mudança de ministro. Não há saída fácil", pondera Sampaio.

Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria, acredita que a "solução caseira" encontrada por Dilma foi mais um tiro n'água. "Dilma colocou alguém que pensa como ela no lugar do Levy, mas o Barbosa não será um ministro tão compromissado com o ajuste. Ele até pode fazer uma política fiscal cautelosa, mas será mais branda que a do Levy", argumenta. Para ela, a troca pode significar mais dois anos de recessão para o país. "Sem o ajuste, comprometemos ainda mais o nosso nível de endividamento e isso deixará o Governo de mãos atadas para sair da recessão", defende.

Camila Abdelmalack, economista da Capital Markets, reforça que Barbosa não foi a melhor escolha para o mercado. "O ministro do Planejamento já mostrou ser muito mais flexível aos pedidos da presidenta e também não tem o perfil de Levy de tomar medidas mais austeras. Aos olhos dos investidores, isso seria ruim porque tardaria ainda mais o equilíbrio das contas e a retomada do crescimento".

Segundo Ablelmalack, a receita para melhorar a economia todo mundo sabe, a grande questão é encontrar um candidato capaz de assumir os desafios em meio do embate político e econômico. "A experiência já mostrou que não adianta colocar uma pessoa técnica, queridinha no setor. O grande desafio é encontrar esse meio termo, mas não há muita alternativa, ainda mais em um momento de tantas indefinições", afirmou.

A saída de Levy da Fazenda, uma ameaça com a qual o mercado convivia há algum tempo, visto que o ministro nunca disfarçou sua insatisfação em diversas quedas de braço com o Governo, coloca uma "pá de cal em qualquer esperança de que o Governo promova um ajuste fiscal minimamente satisfatório", acredita o economista Alexandre Schwartzman. Ele destaca que Levy deixou uma marca positiva no mercado, durante a sua breve gestão. "Ele tentou implementar um ajuste onde foi possível. Infelizmente, o posto de ministro da Fazenda de Dilma é uma roubada", complementa, em alusão a uma imagem que a presidenta carrega de longa data no mercado e que foi reforçada por Wagner nesta manhã, quando declarou que "quem banca a política econômica não é o ministro da Fazenda. Quem banca a política econômica é a presidenta da República, e ela convoca o ministro para cumprir".

Um custo político alto demais

A substituição de Levy por Barbosa na opinião dos analistas, foi realizada para retomar a popularidade da presidenta com a sua base governista e com seus eleitores. Desde que Levy assumiu oficialmente o posto, a governabilidade da presidenta só piorou. A aprovação de seu Governo, que já era baixa, despencou para 9% em dezembro, segundo pesquisa do Ibope com o CNI. Mas nem é preciso olhar para as pesquisas para perceber que a presidenta pagou um custo político alto pelo ajuste. Um dos 28 pedidos de impeachment enviados à Câmara, aguardando análise do Legislativo, quase vingou, colocando em risco o posto da mandatária, não fosse intervenção do Supremo Tribunal Federal, que devolveu o processo à estaca zero no Congresso.

A presidenta ganhou um pouco mais de tempo até a retomada da discussão do impeachment no Congresso. Mas não quis mais esperar mais para ver até onde esse caminho iria a levar. Foi Levy quem pagou o preço político.

Para Luiz Gonzaga Belluzzo, economista ligado à base governista, a saída do Levy reflete a necessária retomada de Dilma aos primórdios de seu Governo. "O ajuste desajustou a economia. Não acho que foi um problema do Levy, ele é boa pessoa. O problema foi o fato da Dilma ter comprado o discurso da oposição, de que a economia estava ruim, e se deixado levar pelo ajuste", afirma. O economista relembra a crise que a Europa vem enfrentando nos últimos anos, e que ainda trazem consequências para a população. "Se ajuste em tempos de recessão desse certo, a Europa não estaria em crise. A Espanha não teria 24% de taxa de desemprego", diz.

Na opinião de Belluzzo, o Governo permitiu uma alta severa demais nos preços da economia, liberando aumento de tarifas de energia e combustível. Com isso, o Banco Central teve de elevar demais os juros, para tentar conter a inflação, e só tornou o ambiente desfavorável para investimentos produtivos. Além disso, forçar um corte de gasto maior do que uma economia em recessão poderia suportar, jogou por terra a "credibilidade" que Dilma esperava conseguir com a contratação do Levy. Pelo contrário: só desuniu a base do Governo e irritou os eleitores do PT. "Acho que Nelson Barbosa é a pessoa mais indicada para reunir a base aliada, colar os cacos, pois seu discurso e pensamento estão mais alinhados aos objetivos sociais do Governo", defende Belluzzo.

Desafios para quem fica

A Fazenda tem um novo ministro, mas isso não significa que enfrentará novos desafios. pelo contrário. O sucessor de Levy passará pelas mesmas dificuldades que ele passou: a missão quase impossível de promover ajustes em uma economia em recessão.

O país já passou por diversas crises ao longo de sua história, mas, desta vez, encontra-se sem muita margem para um Plano B. "Quando Delfim Netto assumiu a Fazenda [1967-1969] em meio a uma crise, tinha margem para subir a carga tributária, que, na ocasião, passou de 20% do PIB para 35% do PIB. Hoje, só cogitar a retomada da CPMF é um martírio", analisa Sampaio, da LCA. Em outras ocasiões, como na gestão de Fernando Collor e segundo mandado de Fernando Henrique, o país recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI). No primeiro mandato de Lula, o mercado internacional colaborou, demandando commodities e impulsionando as reservas internacionais do país. Desta vez, não há margem para plano B. "Estamos baratos em dólar, mas o comércio internacional minguou. A indústria ainda está queimando estoques, pois o consumo despencou, então não deve voltar a investir tão cedo. Os juros altos inibem investimentos e a inflação inibe o consumo. Não será fácil sair dessa", ressalta o economista.

A inflação, contudo, tende a ceder no ano que vem, mas o nível de investimentos demorará a subir. "Sem a retomada da credibilidade do Governo, o empresário não terá confiança para investir. A confiança é a grande explicação para um PIB tão catastrófico", diz Sampaio.

Retomar a credibilidade será crucial, ainda mais quando a Operação Lava Jato, sozinha, conseguiu travar todos os investimentos do setor de construção civil. "As maiores empresas investidoras estão envolvidas ou são fornecedoras de alguma outra. Até o crédito minguou para o setor produtivo, pois nenhum banco vai emprestar para uma companhia que tem fornecedores ligados à Lava Jato", destaca.

O aumento do nível de endividamento público também emite um alerta para o Governo, ainda mais quando o Banco Central já vem sinalizando novas aumentos de juros para conter inflação, medida que tem, como efeito colateral, tornar o financiamento público junto ao mercado ainda mais caro.

Por outro lado, caso consiga um trânsito melhor no Congresso, o Governo poderá destravar medidas paradas no legislativo, para elevar receitas por meio de novos tributos.

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