Operação Lava Jato

Quem é quem na mira da PF e por que ação afeta Cunha, mas mina Governo

Maioria dos investigados pela Operação Catilinárias é ligada ao presidente da Câmara Ministros que sustentam laço governista do PMDB e Renan Calheiros são atingidos

“Nem os temores do povo, nem a confluência dos homens honestos, neste local protegido do Senado, nem a expressão do voto destas pessoas, nada consegue te perturbar?”, questiona Cícero ao senador romano Catilina, nas célebres Catilinárias que, séculos depois, dariam nome a uma operação da Polícia Federal que teve como principal alvo o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB). Além de buscas na residência oficial do presidente da Câmara, em Brasília, e em sua casa no Rio de Janeiro, a PF também foi atrás da chefe de gabinete de Cunha, Denise Santos, e de uma série de aliados do peemedebista, de dentro e de fora da Câmara. A notícia seria boa para o Governo Federal, a quem Cunha declarou oposição em julho, desde que a Operação Catilinárias, mais uma etapa da Lava Jato, não tivesse resvalado no presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), que vinha mantendo a câmara alta pacificada, e envolvido dois ministros que sustentam laços do PMDB com o Palácio do Planalto.

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A maior parte dos afetados pelos 53 mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) é de nomes ligados a Cunha nas investigações, entre eles o ex-deputado e prefeito de Nova Iguaçu, Nelson Bornier (PMDB), o doleiro Lúcio Funaro e Altair Alves dos Santos, que, segundo o lobista Fernando Baiano, recebeu 1,5 milhão de reais para repassar ao presidente da Câmara. Outro investigado que tem forte ligação com o peemedebista é Fábio Cleto, ex-vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias da Caixa, indicado por Cunha para o cargo e exonerado na semana passada pela presidenta Dilma Rousseff.

Em agosto, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao STF a condenação de Cunha pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por conta de um suposto esquema de corrupção na compra de navios-sonda para a Petrobras. Na denúncia, Janot também pede a devolução de dinheiro desviado e indenizações num total de 270 milhões de reais.

Em meio ao evidente cerco a Cunha, seu advogado, Marcelo Nobre, conseguiu enxergar um lado positivo na ação da PF nesta terça-feira. Durante a reunião em que o Conselho de Ética decidiu por dar prosseguimento ao processo que pode terminar na cassação do presidente da Câmara, Nobre disse que o fato de a polícia ainda estar em busca de provas "só reforça a defesa nesse Conselho de Ética: não há provas contra o meu cliente". O otimismo do advogado contrasta, contudo, com o clima de fim de festa para Cunha em Brasília, que deu margem inclusive para boatos de que o presidente da Câmara poderia renunciar.

"Tem alguma coisa estranha no ar", disse Cunha ao comentar a visita "normal, nada demais" de policiais a três de seus endereços. O presidente da Câmara, que assegurou que não pretende renunciar, destacou "o assalto da Petrobras pelo PT" e disparou contra o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que, segundo Cunha diz ter lido na imprensa, fez visitas não esclarecidas a Curitiba — onde a Operação Lava Jato é tocada. "Todos nós sabemos que foi o PT que assaltou o país. E aí de repente fazem uma operação contra o PMDB", disse Cunha, defendendo que seu partido rompa com o Governo.

Governo

Além de acertar em cheio o presidente da Câmara, a Operação Catilinárias abala a relativa calmaria garantida por Renan Calheiros no Senado, já afetada pela recente prisão do senador Delcídio do Amaral (PT). Apesar de o ministro do STF Teori Zavascki não ter autorizado a busca e apreensão pretendida pela Procuradoria Geral da República (PGR) na residência do presidente do Senado, os policiais federais visitaram em Alagoas o diretório estadual do PMDB, presidido por Renan. Também são foco desta fase da Lava Jato dois aliados do peemedebista: o deputado federal Aníbal Gomes (PMDB) e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.

Renan é alvo de três inquéritos no Supremo no âmbito da Lava Jato — um deles junto com Aníbal Gomes — por suspeita de corrupção na Petrobras. O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa chegou a dizer em sua delação premiada que o presidente do Senado recebeu além dos 3% de propina por contrato acordados na diretoria de Abastecimento. No caso de Sérgio Machado, afilhado político de Renan Calheiros, a acusação é de que ele repassou 500.000 reais a Costa em troca de benefícios na estatal.

Outro foco de desgaste para o Governo no caso é a investigação dos ministros Henrique Eduardo Alves, do Turismo — que foi presidente da Câmara no primeiro mandato da presidenta Dilma Rousseff —, e Celso Pansera, da Ciência e Tecnologia, que depois de ser taxado pelo doleiro Alberto Youssef de "pau mandado de Eduardo Cunha", aderiu ao Governo como parte do acordo do Palácio do Planalto com parte do PMDB para evitar o pedido de impeachment. Henrique Alves não tinha aparecido até agora nos inquéritos da Lava Jato no Supremo.

Mais um peemedebista aliado do Governo atingido pela Operação Catilinárias, o senador e ex-ministro de Minas e Energia Edison Lobão (PMDB) também apareceu na delação premiada de Paulo Roberto Costa. Segundo o ex-diretor da Petrobras, Lobão lhe pediu "uma ajuda" de 1 milhão de reais, além de outros 2 milhões para a campanha da então governadora Roseana Sarney em 2010.

Pernambuco

Outra frente da Operação Catilinárias foi buscar em Recife evidências sobre o inquérito que envolve o senador Fernando Bezerra Coelho (PSB). Em outro caso proveniente dos depoimentos de Paulo Roberto Costa, o ex-ministro da Integração Nacional teria pedido a Costa 20 milhões de reais para a campanha de reeleição do então governador de Pernambuco Eduardo Campos, morto durante as eleições de 2014. Na denúncia apresentada ao STF, Rodrigo Janot diz enxergar indícios de lavagem de dinheiro e corrupção passiva no caso.