'O Desafio dos emergentes'

Emergentes lideram o crescimento do PIB mundial apesar da crise

Especialistas destacaram ainda influência da crise no Brasil sobre a Argentina Fórum 'Desafio dos emergentes', organizado por EL PAÍS, reúne especialistas em Madri

Lula (centro), Felipe González (à esq.) e Juan Luis Cebrián durante o fórum em Madri.
Lula (centro), Felipe González (à esq.) e Juan Luis Cebrián durante o fórum em Madri.Ricardo Stuckert/ Instituto Lula (Fotos Públicas)

A crise que enfrentam as grandes economias emergentesBrasil, Rússia, China e África do Sul – com exceção da Índia, lançou uma sombra de dúvida sobre o futuro destes países que, no entanto, continuarão sendo os principais contribuintes para o crescimento do PIB mundial. É a conclusão dos especialistas convocados para fórum O Desafio dos Emergentes, organizado pelo jornal EL PAÍS nesta sexta-feira em Madri, do qual participaram também Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, e o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González.

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“Se falamos de crescimento do PIB, ele virá dos países emergentes, que continuarão contribuindo com mais do que o dobro que os países desenvolvidos”, disse Núria Más, professora de economia da IE Business School. A especialista insistiu na necessidade de diferenciar entre uma conjuntura negativa, como a atual, e o potencial de crescimento dessas economias, que permanece intacto, embora terão que enfrentar importantes processos de reforma.

O diretor do EL PAÍS, Antonio Caño, disse que os emergentes “são e continuarão a ser uma referência para a estabilidade mundial” e uma “referência da nova ordem, até mesmo política”, como demonstram as mudanças profundas que estas economias viveram nos últimos anos, com um papel crescente em fóruns econômicos e políticos globais.

Ao contrário de outras épocas, como reconhece o professor de Economia Empresarial da Universidade Autônoma de Madri, Emilio Ontiveros, o impacto da crise emergente hoje é muito significativo “por seu importante peso na economia mundial”. Na verdade, 30% das vendas das multinacionais em todo o mundo procedem de empresas de países emergentes. Mais significativo ainda para a economia espanhola. “Boa parte das empresas centrais para o estabelecimento dos indicadores domésticos e da Bolsa na Espanha têm interesses importantes na América Latina”.

Ontiveros também chamou a atenção para a estreita ligação entre as economias do Brasil e da Argentina, cuja previsão é de passar por uma desvalorização da sua moeda, o que pode aumentar as tensões financeiras na região. “Se o Brasil não se recuperar, vai ser muito difícil para a Argentina superar a crise”, disse ele.

Para o diretor corporativo de Assuntos Estratégicos da Corporação Andina de Fomento, Germán Ríos, o importante para o futuro dos emergentes é eliminar a persistente brecha em infraestruturas e valorizou positivamente a criação do Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas liderado pela China. “Os organismos financeiros que a China colocou em funcionamento vão mudar as regras do jogo do sistema financeiro global. Vão permitir que os emergentes contornem a crise com suas próprias regras e financiamento próprio”, disse ele.

Mudança de cenário

Otaviano Canuto, diretor-executivo do Conselho de Administração do Fundo Monetário Internacional (FMI), listou as características da economia global: a normalização das taxas de juros nos Estados Unidos, “embora não em outras áreas”; a desaceleração da China, e o fim do “superciclo” do preço das matérias-primas. Três transições que, na opinião dele, refletem o fim de um longo ciclo de expansão e, desde 2008, uma crise “que ainda não está fechada”.

Além dos desafios econômicos, durante o fórum, também foram analisados o cenário político e as mudanças que aconteceram nos últimos 15 anos. Javier Solana, ex-secretário-geral da OTAN, apontou que em 2008 a comunidade internacional passou de se relacionar baseando-se em uma confiança estratégica a uma confiança puramente tática. Solana afirmou, no entanto, que, apesar da concorrência entre as potências, existe a possibilidade de chegar a acordos sobre questões importantes, como a não proliferação – com o acordo sobre o programa nuclear iraniano – e as alterações climáticas – com a Cúpula do Clima de Paris.

Os participantes manifestaram sua preocupação com a proliferação do populismo que, como explicou Pierpaolo Barbieri, diretor executivo de Greenmantle, nasce de duas falhas da democracia moderna: a corrupção e a falta de oportunidades. Barbieri referiu-se aos “populismos” da Argentina e da Venezuela. “Houve crescimento econômico nos dois países, mas a partir da crise financeira foram vistos fracassos nos dois sistemas”. Como foi assinalado, as duas sociedades manifestaram o desejo de uma mudança nas recentes eleições. E embora comemorou a mudança de rumo na Argentina, “com Cristina Fernández de Kirchner, mesmo contra sua vontade, voltando à vida civil”, duvidou que tal coisa seja possível na Venezuela, “com [o presidente] Nicolás Maduro falando de castigar o povo” pelo resultado das eleições.

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