Atentados em Paris

Polícia francesa faz mais 128 buscas domiciliares sem ordem judicial

Aviação realiza um segundo bombardeio contra o feudo dos jihadistas na Síria

A polícia inspeciona um edifício de Estrasburgo.FREDERICK FLORIN (AFP)

A resposta do Estado francês à matança jihadista da sexta-feira prossegue com grande intensidade, dentro e fora de suas fronteiras. Amparados pelo estado de emergência em vigor na França depois do múltiplo atentado, centenas de policiais fizeram buscas, na noite de segunda para terça-feira, em 128 domicílios de suspeitos no país inteiro, apesar de não contarem com ordens judiciais expressas para esse fim. Enquanto isso, aviões militares franceses realizavam, pela segunda vez em 24 horas, um bombardeio maciço contra grupos jihadistas na localidade síria de Raqa.

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As buscas amparadas nas medidas extraordinárias, anunciadas pelo ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, à emissora France Info, somam-se a 168 operações desse tipo feitas na noite anterior. Sob o estado de emergência, o ministro também pode impor residências forçadas a suspeitos, o que já ocorreu em 104 casos. Isso significa que suspeitos de envolvimento com o terrorismo podem ser obrigados a viver em determinado local ou proibidos de morar em áreas específicas. Em ambos os casos, eles ficam submetidos a uma vigilância sistemática.

O presidente da França, François Hollande, anunciou na segunda-feira, em uma sessão solene e extraordinária do Congresso (Assembleia Nacional mais Senado), que pretende prorrogar por três meses o estado de emergência decretado após os ataques jihadistas de sexta-feira em Paris e arredores, que deixaram mais de 120 mortos. Segundo a legislação atual, o estado de emergência pode ser decretado por apenas 12 dias, e sua prorrogação depende de lei aprovada no Parlamento. O projeto nesse sentido será apresentado na quarta-feira no Conselho de ministros e enviado na quinta ao Parlamento, onde provavelmente será aprovado ainda nesta semana. A lei fixará novos requisitos e fórmulas para a aplicação dessas medidas excepcionais, que basicamente consistirão em dar mais liberdade de atuação ao Governo e à polícia.

Depois da matança terrorista, aviões franceses bombardearam intensamente a Síria duas vezes num período de 24 horas

O presidente quer também alterar a Constituição francesa para que essas medidas excepcionais possam ser aplicadas de forma mais habitual, sem a necessidade de ativar mecanismos legais extraordinários. Hollande argumentou que o “terrorismo de guerra” torna necessária essa reforma constitucional.

Atualmente, o estado de emergência é regido na França por uma lei de 1955. Até agora, ele havia sido aplicado em apenas cinco ocasiões: três por graves incidentes relacionados à guerra de independência da Argélia, uma quarta por acontecimentos violentos na Nova Caledônia (dependência ultramarina na Oceania) e uma quinta, em 2005, por causa dos graves distúrbios nos bairros periféricos de Paris, após a morte de dois jovens perseguidos pela polícia.

Hollande também anunciou uma intensificação dos bombardeios aéreos franceses na Síria, o que já está se materializando. Na noite de segunda para terça-feira, caças estacionados nos Emirados Árabes Unidos e Jordânia lançaram um intenso ataque contra Raqa, principal foco jihadista na Síria. O Estado-Maior francês afirma que os aviões destruíram um centro de comando e outro de treinamento.

A operação envolve 10 aviões franceses, o que demonstra por si só a intensidade da ação – normalmente, apenas dois ou dois ou três aviões participam de bombardeios desse tipo. Pelo menos 16 bombas guiadas por laser foram atiradas contra os alvos. Na noite do sábado para domingo, os aviões franceses já haviam feito outro ataque com magnitude semelhante, também contra Raqa.

A França bombardeia a Síria desde setembro. Mas, até a matança de sexta-feira em Paris, seus caças haviam realizado apenas dois ataques. Depois dos atentados, em apenas três dias, ocorreram outros dois, e bem mais intensos. “A França está em guerra”, reiterou Hollande aos parlamentares.

O presidente recebeu na manhã desta terça-feira o secretário de Estado dos EUA, John Kerry. Após a reunião, de 45 minutos, Kerry declarou que Paris e Washington precisam ampliar seus esforços e a troca de informações para coordenar melhor suas ações na Síria. No domingo, Hollande agradeceu ao presidente norte-americano, Barack Obama, pelas informações que as forças dos EUA prestaram à França antes do primeiro bombardeio pós-atentados.

O encontro com Kerry é o primeiro contato internacional para ativar os planos antijihadistas propostos por Hollande. Ele deseja formar “uma coalizão única” na Síria – incluindo as forças militares da Rússia – e deseja que o Conselho de Segurança da ONU aprove uma resolução contra o Estado Islâmico.

Do mesmo modo, Hollande encarregou o seu ministro de Defesa, Jean-Yves Le Drian, de pedir ajuda aos seus homólogos da União Europeia na qualidade de país “atacado”, uma iniciativa prevista nos estatutos da UE. O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, mostrou-se convencido de que os Estados europeus responderão positivamente.

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