Eleições na Argentina 2015

A eleição argentina explicada para os não argentinos

Pela primeira vez em mais de uma década o sobrenome Kirchner não participa do pleito

As eleições presidenciais deste domingo na Argentina, para as quais foram convocados em caráter obrigatório 32 milhões de argentinos, tiveram um primeiro fator essencial muito evidente: pela primeira vez em mais de uma década o sobrenome Kirchner não esteve nas cédulas. Na presidência desde 2003 com Néstor e em seguida com sua esposa e sucessora, Cristina Kirchner, os dois formaram o governo mais longo da história argentina.

Junto com o primeiro turno da eleição presidencial, os eleitores renovaram com seus votos 130 das 257 cadeiras da Câmara dos Deputados, 24 das 72 do Senado e 43 do Parlamento do Mercosul. A seguir, informações básicas sobre a votação:

Candidatos

Concorriam seis candidatos saídos das PASO (primárias abertas simultâneas e obrigatórias), realizadas em 9 de agosto. Essa eleição primária serve para reduzir um universo maior de candidatos, reflexo de um sistema partidário crescentemente fragmentado. Dos seis candidatos que superaram as primárias, três concentraram 92% dos votos válidos.

O debate eleitoral girou em torno da “continuidade com mudanças” do situacionista Daniel Scioli (que teve 36,6% dos votos), em teoria herdeiro do kirchnerismo, e a mudança clara de Mauricio Macri (com pouco mais de 34,5% dos votos), principal candidato da oposição, mas que também promete manter as nacionalizações e benefícios sociais do kirchnerismo. O terceiro grupo mais votado foi a Frente Renovadora, do peronista dissidente Sergio Massa, ex-chefe de Gabinete de Cristina Kirchner, cujos 21,1% de votos serão decisivos para o segundo turno.

Os fatos do kirchnerismo

Apesar de o nome Kirchner não disputar as eleições, a sombra da família ainda é vasta. Scioli é o candidato da situação. Durante a era iniciada por Néstor, o Governo conseguiu melhorar muitos números macroeconômicos, como o PIB (produto interno bruto – a soma do que o país produz), os níveis de pobreza e o desemprego. Outros indicadores do bem-estar do país, como a qualidade da educação e o índice de desigualdade, mostram leve piora. Veja nestes gráficos (em espanhol) os principais indicadores dos 12 anos de kirchnerismo. Há fortes dúvidas, no entanto, sobre a forma de obtenção dos dados sobre inflação e pobreza, as quais, segundo fontes independentes, são manipuladas pelo Governo há vários anos.

Os temas de campanha

Apesar de a campanha argentina estar marcada pela sucessão do kirchnerismo, a pobreza, que ainda atinge 25% da população, a inflação, a criminalidade e a corrupção dominaram o debate eleitoral do primeiro turno. Scioli se apresentou como o sucessor do kirchnerismo. De fato ele é, mas ele buscou dar uma marca pessoal à campanha, salientando o fato de há oito anos governar a Província de Buenos Aires, a mais importante do país, com mais de 16 milhões de habitantes.

Já Mauricio Macri, prefeito da Cidade de Buenos Aires no mesmo período, se define como uma ruptura com o passado e argumenta que todos os seus rivais representam a continuidade. Enfatizava que todo voto que não fosse para ele acabaria sendo de Scioli, por lhe permitir a vitória no primeiro turno. Para Macri, uma eventual presidência de Scioli seria a continuidade do Governo Cristina Kirchner.

Assim, Macri buscou convencer os eleitores da oposição – havia outros aspirantes, como a progressista Margarida Stolbizer, o esquerdista Nicolás do Cano e o peronista Adolfo Rodríguez Saa – de que ele representaria o “voto útil”, e que a atomização da oposição poderia abrir as portas para uma vitória de Scioli. Sua estratégia foi recompensada com a ida a um inédito segundo turno.

Sistema eleitoral

O país pratica um sistema de eleição presidencial em dois turnos, semelhante ao brasileiro, mas com peculiaridades. Bastam 45% dos votos válidos (em vez de 50%) para vencer no primeiro turno. Mas o candidato mais votado também evita o segundo turno se obtiver entre 40 e 45%, porém com mais de 10 pontos percentuais de diferença sobre o segundo colocado.

O segundo turno

Desde que o sistema foi introduzido nas eleições presidenciais, esta é a primeira vez que a Argentina terá segundo turno. A votação será em 22 de novembro.

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