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Queda do preço do petróleo tira 100.000 postos de trabalho

Grandes petrolíferas reduzem seus lucros e cortam o investimento em serviços

Uma plataforma petrolífera no litoral da Líbia.
Uma plataforma petrolífera no litoral da Líbia.DARRIN ZAMMIT (reuters)

A queda do preço do petróleo vem causando amargas consequências às empresas do setor. A queda livre do barril, que baixou 60% em 12 meses – o brent, referência na Europa, custa 45 dólares (157,6 reais) –, produziu quedas recordes nos resultados das principais empresas energéticas mundiais. Como consequência, foram reduzidos gastos administrativos, em prospecções e em serviços, o que provocou demissões em cadeia. Em 2015, o setor já perdeu 100.000 postos de trabalho no mundo inteiro.

A Exxon foi a última do clube das cinco empresas petrolíferas de maior envergadura em escala mundial – as chamadas big five – a anunciar o golpe da queda do preço do petróleo em suas contas. O gigante norte-americano ganhou no segundo trimestre do ano 4,3 milhões de euros (17,11 milhões de reais). É o pior resultado trimestral desde 2009 e significa embolsar a metade do mesmo período de 2014. A Chevron, outro peso pesado da indústria petrolífera norte-americana, ganhou nos primeiros seis meses 584,43 milhões de dólares (2,05 bilhões de reais), 90% a menos em relação ao segundo trimestre de 2014, logo antes do preço do petróleo cair vertiginosamente.

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As duas empresas norte-americanas são as últimas a entrar em uma longa lista de companhias que pagaram o preço do novo equilíbrio no mercado do petróleo. A diminuição dos lucros levou a anglo-holandesa Shell a cortar 6.500 postos de trabalho, e a BP, que até agora despediu 1.200 funcionários, convocou em janeiro seus 15.000 trabalhadores no Reino Unido para deixá-los preparados sobre outros “planos de reestruturação” da empresa.

Os grandes grupos produtores vivem momentos difíceis, mas são as companhias de serviços petrolíferos que estão pagando o preço mais alto. A Saipem, fornecedora de serviços controlada pela italiana ENI, anunciou há pouco mais de um mês a demissão de quase 9.000 trabalhadores. Antes já haviam feito o mesmo, entre outras, as norte-americanas Schlumberger, a maior empresa do mundo em assistência petrolífera (11.000 postos de trabalho), e também a Weatherford (11.000), a Baker and Hughes (10.500) e a Halliburton (9.000). Entre os demitidos nos setores de serviços, prospecção e extração e de produção de maquinaria, os postos de trabalho perdidos na indústria petrolífera chegam já aos 100.000.

“A primeira medida tomada pelas grandes petrolíferas diante da queda do petróleo foi cortar o gasto em investimento e limitar as novas prospecções. Por isso, a onda de demissões atingiu com mais força as empresas de serviços”, explica Ariel Bergman, economista especialista em energia da Universidade Dundee (Escócia), o principal centro petrolífero do Reino Unido. “Se o preço do petróleo continuar baixo nos próximos meses, provavelmente ocorrerá uma segunda onda de demissões: as empresas com mais liquidez tentarão adquirir as que navegam em águas mais difíceis para aproveitar suas jazidas. E para economizar custos poderão cortar seu pessoal”.

A Agência Internacional de Energia (EIA, na sigla em inglês) prevê que o atual excesso de oferta de petróleo, principal causa da drástica redução de seu valor, persistirá ao longo de todo o ano de 2016, presságio da continuação dos preços baixos.

“Os impactos da queda do valor do petróleo na indústria estão começando a ser vistos com clareza agora. Dentro de 12 ou 18 meses a produção fora da OPEP (o cartel dos países produtores de petróleo) diminuirá e os preços mais acessíveis finalmente estimularão a demanda. Mas o cenário previsto para 2016 induzirá as empresas a evitar novos investimentos, e isso pode acarretar novas demissões”, avisa Gareth Lewis-Davis, analista especializado da BNP Paribas.

Enquanto isso, a OPEP está inundando o mercado mundial: em julho bombeou em média 31,5 milhões de barris diários, a quantidade mais elevada nos últimos três anos. As autoridades iranianas, além disso, dizem que estão prontas para aumentar rapidamente suas exportações, se o acordo nuclear com os EUA enfim causar o levantamento das sanções internacionais.

Dentro do setor, o melhor panorama para o negócio petrolífero mundial está na petroquímica: “As empresas que elaboram produtos petroquímicos vivem em um mundo oposto ao das produtoras. Aqui o petróleo é uma matéria prima e, sendo barato, está impulsionando suas atividades. Daí sairão os beneficiados a curto prazo do conjunto da indústria petrolífera”, afirma Don Bari, vice-presidente do setor de análise e tecnologia da empresa de consultoria norte-americana IHS Chemical.

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