Crise política implode base de Dilma na Câmara e Governo mira Senado

PDT e PTB anunciam independência e reduzem governistas a 320 dos 513 deputados

Temer durante entrevista em universidade de Brasília.
Temer durante entrevista em universidade de Brasília.UESLEI MARCELINO (REUTERS)

Nem um jantar de boas-vindas nem o apelo do vice-presidente e coordenador político. Nem a liberação de emendas nem a nomeação de cargos comissionados. Nada foi capaz de deter a implosão da base de apoio de Dilma Rousseff (PT) na Câmara dos Deputados, selada nesta madrugada com o anúncio do PDT e o PTB, que juntos reúnem 44 deputados federais, de que, de agora em diante, são independentes: não seguem mais as orientações do Palácio do Planalto.

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Os sinais de que a base dilmista na Câmara iria emagrecer já haviam sido dados em maio e junho, quando diversos parlamentares traíram a gestão petista em votações do ajuste fiscal, da redução da maioridade penal e do projeto de lei da terceirização. Nesta semana, a Câmara já havia aberto nesta semana três CPIs e todas excluem o PT do comando, o que é incomum, já que o partido tem a segunda maior bancada da Casa e deveria ocupar algumas das funções de destaque como relatoria ou presidência. Mas o descolamento formal de dois partidos da base de apoio pôs em evidência a desorganização geral do Governo na Casa, que, aprovou também na madrugada desta quinta, com apoio inclusive do PT, o primeiro item da chamada pauta bomba, de impacto para as contas públicas, com a proposta que equipara salários de algumas categorias do setor público com o teto do funcionalismo, o dos ministros do Supremo. A medida causa um impacto superior a 2 bilhões de reais ao ano para as contas públicas.

“Não vamos nos impressionar com o dia de ontem e o dia de hoje. Agora, o alerta [que eu dei] era indispensável. Se começarmos a dizer que não há crise de maneira nenhuma não ajudamos a superá-la”, disse o articulador político e vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), que no dia anterior apelou firmemente que a base ficasse unida. Ele tentou contemporizar as defecções e o revés após uma palestra voltada para estudantes de direito em uma universidade de Brasília. “O que os (partidos) declararam foi independência: independência significa que votarão de acordo com suas convicções, o que de alguma maneira já vinham fazendo”, seguiu Temer, que disse que, apesar da crise política e econômica, o país ainda tem uma estabilidade das instituições.

O líder de Rousseff na Câmara, José Guimarães (PT-CE), disse preferir que o PDT e o PTB se transformassem em opositores do que fossem independentes. “Não sei o que independente significa”, disse em tom irônico.

Com a oficialização do desligamento de pedetistas e petebistas, a base de Rousseff agora tem o apoio de 320 dos 513 deputados, mas, como demonstram as votações, esse número não tem se refletido no plenário. Uma apertada maioria que teria de ser muito fiel para aprovar projetos importantes, como os que emendam a constituição (as PECs) e exigem ao menos 308 votos. Para barrar um eventual processo de impeachment, um risco que cresce sobre a presidenta, é necessário impedir que os a favor da medida alcancem 342 votos.

Depois de iniciar a liberação de emendas e a nomeação de quase 200 comissionados para tentar agradar aliados, Rousseff pode ser obrigada nas próximas semanas a iniciar uma reforma ministerial. O PDT quanto o PTB têm dezenas de cargos no Governo. Os mais importantes são o Ministério do Trabalho, com o pedetista Manoel Dias, e Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, com o petebista Armando Monteiro.

Câmara alta

Enquanto na Câmara a implosão da base já é certa, no Senado, o Governo teme sofrer as primeiras baixas. Nesta semana, o presidente da Casa e aliado de Rousseff, Renan Calheiros (PMDB-AL), reuniu-se com líderes do PSDB, do PMDB e do DEM para discutir o processo do impeachment da presidenta. A reunião aconteceu na casa do senador Tasso Jereissatti (PSDB-CE) e contou com a presença do também tucano José Serra (SP) e do peemedebista Romero Jucá (RR).

Conforme dois participantes do encontro, Calheiros chegou a sugerir que Rousseff poderia ficar mais tempo no cargo, mas nem os peemedebistas que estavam na reunião gostaram da ideia e disseram temer que o PT não reconheceria o apoio de sua base caso consigam evitar a destituição da presidenta.

Em até duas semanas, o Senado deve começar a analisar as primeiras medidas da reforma política e do ajuste fiscal que foram aprovadas na Câmara. A partir de então será possível notar se os senadores serão “contaminados” pelas decisões dos deputados ou se as intervenções governistas conseguirão conter as traições.