MORTE SEM TABU

Beleza é a 'alma' do negócio

O cemitério Parque das Cerejeiras, na periferia de São Paulo, apostou em arte e paisagismo para ser um lugar onde até os vivos gostam de estar

Uma das obras de Hugo França no Parque das Cerejeiras.
Uma das obras de Hugo França no Parque das Cerejeiras.Lilo Clareto

Distante dos mausoléus e estátuas que povoam os cemitérios tradicionais de São Paulo fica o Parque das Cerejeiras, um cemitério-jardim marcado por sua bela e complicada localização, no alto de uma colina com vista para o Parque Estadual Ecológico do Guarapiranga, em pleno Jardim Ângela – bairro da zona Sul paulistana que em 1996 foi considerado pela ONU a região urbana mais violenta do mundo. É lá que os moradores de casas de tijolos aparentes vão aos fins de semana para caminhar, fazer piquenique, conversar e até tirar fotos com vestido de noiva para o álbum de casamento. Também é lá que muitos deles enterram seus entes queridos.

Por mais raro que isso possa soar, aos ouvidos de quem vê na morte um tabu, é um espaço que convida o visitante a entrar e ficar à vontade, seja qual for sua missão ali. Tudo depende da perspectiva da qual se olha ou, em outras palavras, tudo depende do olhar. O Cerejeiras, 300.000 metros quadrados que incluem mata virgem, jardins e peixes ornamentais, esculturas e trilhas bem cuidadas, acredita que o prazer estético proporciona aos vivos uma relação positiva com a morte. E basta um passeio por lá em um dia ensolarado para lhe dar razão.

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Há quase 20 anos, quem responde por ele é Daniel Arantes, um tipo alto, ponderado e de voz serena com um tino para as artes plásticas que não é comum à maioria – diretores de cemitérios ou não. Em meio a visitas esporádicas a museus e galerias e também de viagens ao exterior para conhecer a indústria cemiterial de outros países, ele foi anotando ideias e alimentando sua visão de que uma necrópole "não precisa ser um lugar feio e triste”. Mas a maior influência veio do Brasil mesmo. Depois de uma visita a Inhotim, uma antiga fazenda do interior de Minas Gerais que virou um centro de arte contemporânea, voltou decidido a transformar também o Cerejeiras sob a inspiração do espaço mineiro.

“Fiquei apaixonado pelos bancos da área externa, feitos pelo Hugo França. No princípio, ele me pareceu uma referência inalcançável, mas tive um momento de coragem e lhe mandei um email. Terminamos combinando o trabalho”, conta Daniel. Cinco eucaliptos derrubados no próprio cemitério e 22 obras depois, o Cerejeiras virou um lugar mais bonito e acolhedor, além de ganhar repercussão com as famosas "esculturas mobiliárias” do designer – que tem no Jardim Ângela seu segundo maior acervo (Inhotim é o primeiro, com 126 obras).

Cerejeiras, no alto de uma colina no Jardim Ângela.
Cerejeiras, no alto de uma colina no Jardim Ângela.Lilo Clareto

Depois de França, Daniel convidou a artista plástica Alê Bufe a criar duas esculturas especiais: Árvore, que projeta imagens no chão de acordo com a incidência do sol, e Ciclo, que sugere o movimento infinito, o nascimento, a purificação e a passagem para um nova vida. Também é dela o Bosque das Palavras, uma instalação de palavras como “repouso", “amor" e “saudade" forjadas em ferro localizadas em vários pontos do cemitério. “As pessoas elaboram melhor o luto, ficam mais felizes de deixar seu pai ou sua mãe em um lugar como esse”, afirma Daniel.

Não só a arte responde por essa acolhida. A natureza é uma das grandes marcas do Cerejeiras, que se chama assim por causa de seu belo bosque dessa árvore frutífera originária da Ásia e tem metade de sua área destinada à preservação ambiental. Além de uma floresta virgem, uma grande parte da vegetação é de mata reflorestada, inclusive com a ajuda de clientes do cemitério que participam do projeto Vida Verde – cuja proposta é fazer, ao mesmo tempo, uma homenagem e um gesto ecológico.

As pessoas escolhem uma das mudas nativas e fazem o plantio. Ao final, é colocada uma plaquinha com o nome do homenageado e, depois, uma carta é enviada para informar a espécie plantada e a localização GPS da árvore. E, como em uma casa asseada, tudo fica lá, no lugar em que se deixou. "Não temos problemas de depredação. Um dos objetivos do nosso cuidado é que as pessoas se sintam inibidas a jogar lixo no chão e a descuidar. Quando chegam num lugar sujo, muitos fazem a mesma coisa: sujam”, explica o diretor.

'Árvore', escultura de Alê Bufe em ferro.
'Árvore', escultura de Alê Bufe em ferro.

Ainda que haja um estímulo à arte e ao contato com o meio-ambiente, o tom de cuidado e respeito com a morte é permanente. Há uma dedicada comunicação visual que explica o sentido de cada coisa lá dentro – tanto mensagens objetivas, sobre plantas e animais, como subjetivas, que convidam à reflexão. Também há um cuidado com as pessoas em processo de luto, que contam com psicólogos, palestras e um guia sobre o que fazer quando um ente querido se vai, sempre tratando a morte como algo que faz parte da vida. "Tentamos dar um passo além e fazer com que as pessoas conversem. Ninguém gosta de falar do assunto, porque não o dominamos. O ser humano sente que precisa dominar tudo ao seu redor”, conclui Arantes.

A sensação é que quem já superou não o medo da morte – que é insuperável – mas a negação sobre sua existência vai ao Jardim Ângela para fazer qualquer coisa, nem que seja sentar-se num dos bancos de Hugo França e pensar sobre a vida. Os mais festivos esperam, a cada ano, o Dia de Finados para visitar o cemitério, que está próximo de alcançar 30.000 visitantes nessa data. Eles sempre são recebidos com um concerto de música clássica, soltam balões ao céu e deixam suas homenagens em murais de vidro, mostrando que o luto pode virar uma gostosa saudade.

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