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Néstor García Canclini | Filósofo e antropólogo

“O papa é complexo e astuto”

Pensador argentino teoriza sobre a cultura em tempos de decomposição social e disseca as contradições das novas tecnologias

Joseba Elola
Gorka Lejarcegi

Néstor García Canclini é um homem que gosta mais das perguntas do que das respostas. Um cientista social que procura estudar diversas áreas para não ficar desorientado, como ele costuma dizer. Filósofo de origem – antropólogo e sociólogo, por fim –, defende que a filosofia, alimentada pelas ciências sociais, permite passar de um saber introvertido a um saber polifônico.

Escreve sobre temas como a arte, a globalização e o consumismo, mas nesses últimos tempos seu olhar se detém no apogeu de fenômenos como o bem-comum e a defesa da transparência. Em sua passagem por Madri para uma palestra no Museu Reina Sofia (Criativos, precários e interculturais), nos encontramos com Canclini (La Plata, Argentina, 1939), em uma sala do MediaLab Prado, um dos centros nos quais são criados esses movimentos que tanto lhe interessam.

Pergunta. A origem de seu último livro, O Mundo Inteiro Como Lugar Estranho (Gedisa), está em uma conferência que o senhor não deu sobre a cultura em tempos de decomposição social. No que consiste essa decomposição social dos tempos em que vivemos?

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Resposta. É alimentada por muitos processos: A desintegração social que gerou o neoliberalismo; a precariedade; a massificação da incerteza; a decomposição generalizada dos partidos políticos, dos sindicatos; e a descrença nas formas convencionais e institucionalizadas da democracia.

P. O que acontece com as democracias?

R. A situação da França, onde ocorreu, talvez, a maior elaboração formal, institucional e conceitual da democracia no Ocidente; não é a mesma dos Estados Unidos, onde nunca houve um partido de oposição e existe uma grande cumplicidade entre os dois partidos hegemônicos; e destes com o sistema econômico e de produção de armamentos. A situação latino-americana é diferente. Com exceção do México, que teve a experiência de monopartidarismo durante setenta anos, quase todos os demais países tiveram seus processos de democratização interrompidos por golpes militares, ou guerrilhas que não acreditavam no processo democrático e o chamavam de burguês. Esse sistema político está muito envelhecido na América Latina. Tirando casos excepcionais, como o do Uruguai, pouco funciona. Continuam ocorrendo eleições, mas existe pouca receptividade dos partidos às demandas da população.

P. E o que se pode fazer a respeito?

R. Eu gostaria de saber. As novas gerações, em especial, estão fazendo muito. Vários movimentos dissidentes de jovens...

P. O senhor se refere ao descontentamento dos jovens chilenos...

R. ...que me parece o movimento mais organizado politicamente, ainda que agora esteja em stand by. O Yosoy132, no México, que durou pouco, mas teve continuação em outros. São movimentos de alta intensidade e curta duração que conseguem pensar politicamente e forjar novos conceitos sobre a política. Muitos deles dizem: “Não somos apolíticos, somos apartidários”. Estão tentando fazer política usando as tecnologias digitais, as redes sociais, as concentrações massivas nas praças, nas ruas. Existe uma efervescência política, uma criatividade popular.

P. Na Espanha existe um partido, o Podemos, que canalizou essa efervescência, que emergiu com o 15-M, e que disse em algum momento que não é direita ou de esquerda, que esse debate está superado. É verdade?

R. Existem modos, até mesmo inovadores, de identificar o que é ser de direita ou de esquerda. Por exemplo: considerar a extensão da precariedade social como um escândalo e pedir que o Estado assuma a responsabilidade é uma posição de esquerda. Por outro lado, claramente, um Governo como o atual na Espanha não se interessa pelo social; simula certa preocupação em momentos pré-eleitorais, mas destrói direitos, impede a exploração da memória... Isso é claramente de direita.

P. O Estado de Bem-Estar social é coisa de outra época?

R. Aquela perseverança nas instituições dificilmente voltará a acontecer por um longo tempo; mas não sabemos se em 20 ou 30 anos existirá um novo patamar do capitalismo, porque não parece que irá desaparecer. Existem processos autodestrutivos nessa etapa do capitalismo que não estão funcionando nem sequer para os donos dos bancos.

P. O senhor estudou o fenômeno dos criativos, os empreendedores e as redes digitais. Byung-Chul Han, filósofo alemão de origem coreana, escreveu em 2014: “O neoliberalismo transforma o trabalhador oprimido em empresário, em empreendedor de si mesmo. Hoje cada pessoa é um trabalhador que explora a si mesmo em sua própria empresa”.

R. É isso mesmo. É importante nomear o liberalismo como a forma de organização e desorganização econômica que favoreceu essa precariedade. Mas também existe uma falta de responsabilidade dos Estados em relação às seguranças sociais, médicas e outras garantias básicas de vida.

P. Caminhamos a uma sociedade mais colaborativa, na qual o bem-comum possa avançar?

R. Sem dúvida. As tecnologias favorecem o compartilhamento de bens físicos e virtuais. E deixam o acesso à cultura e à comunicação muito fluido.

P. Esse maior acesso à cultura é considerado, em algumas ocasiões, como pirataria.

R. Não podemos chamar de pirataria a toda forma de download livre. Como autor, me interesso pela propriedade intelectual e desejo ser pago por meus direitos de autor. Mas é preciso considerar as novas formas de comunicação. Quem defende uma propriedade intelectual restrita em livros, filmes e músicas são principalmente os empresários. Precisamos refazer a legislação: existem formas intermediárias entre a chamada pirataria e o bem-comum absoluto. Porque também existem máfias que de fato pirateiam.

P. O senhor diz que o surgimento das novas tecnologias produz um estranhamento. O senhor se declara tecnocético ou tecnoutópico?

R. Tento evitar os dois princípios. Primeiramente é preciso agradecer as facilidades de uma comunicação mais intensa e extensa. Mas a democratização dos usos de tecnologias recentes não necessariamente cria horizontalidade e abole as hierarquias. Como cientista social, me parece mais prudente aproximar-se do tecno-ceticismo, que implica aceitar o tecno, não rechaçá-lo, mas sabendo que é preciso administrá-lo.

P. Ou seja…

R. O fato do Google ser o grande provedor mundial de conteúdos culturais não é algo que deva nos alegrar.

P. Quais outras coisas não são motivo de comemoração nesse mundo em que vivemos?

R. O ressurgimento e expansão de crenças religiosas como fuga. É surpreendente a expansão de religiões tradicionais do Ocidente, como as das assim chamadas seitas.

P. Nada a ver com o papa Francisco...

R. Também. É um personagem complicado. Eu conheci bastante sua atuação na Argentina e não acredito tanto nele como a maior parte dos veículos de comunicação.

P. O que o senhor critica nele?

R. Como Papa teve a inteligência de enfrentar algumas das fontes de desprestígio da Igreja Católica, como os padres que molestaram crianças sexualmente. Está reduzindo o caráter escandalosamente agressivo que a Igreja teve contra a sociedade. Mas é preciso dizer que quando estava na Argentina, apoiou explicitamente os grupos ultraconservadores que quebraram obras na inauguração da exposição de León Ferrari. É uma figura complexa. Me parece ser muito astuto.

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