José Galizia Tundisi | Presidente do Instituto Internacional de Ecologia

“O rodízio é necessário mesmo com previsões mais otimistas”

Depois de acompanhar crises hídricas em mais de 40 países, Tunidisi diz que sem transparência do Governo não há saída para São Paulo

O pesquisador Jose Galizia Tundisi.
O pesquisador Jose Galizia Tundisi.divulgação

José Galizia Tundisi, presidente do Instituto Internacional de Ecologia e membro da Academia de Ciências, é aos 77 anos um dos maiores especialistas em gerenciamento de recursos hídricos no Brasil. Tundisi foi convidado a visitar mais de 40 países que sofreram problemas de desabastecimento para ajudar a encontrar soluções. O pesquisador acredita que o problema de planejamento nesta crise hídrica em São Paulo não pode ser jogado só nos ombros da Sabesp, mas que se trata de um problema derivado da burocracia do país. Adverte, porém, que tempos difíceis virão e que as autoridades precisam ser "brutalmente" transparentes com a população para colocá-la do seu lado pois, de modo contrário, "a resposta será muito agressiva".

Pergunta. No final de março, o Governo decidirá quando e como implementar um rodízio em toda a região metropolitana de São Paulo. O que podemos esperar a partir de agora?

Resposta. A crise não e só de abastecimento, tem múltiplas dimensões e envolve problemas econômicos, produção de energia, transporte pela hidrovia, a questão da agricultura e a produção de alimentos, a saúde pública e o abastecimento. Esperam-se medidas drásticas. Nós já estamos usando o cheque especial, a água do Cantareira vai acabar. O rodízio ou o racionamento devem ser implantados mesmo que as previsões sejam mais otimistas, junto com uma diminuição da demanda.

P. O próprio secretário de Recursos Hídricos, Benedito Braga, alertou, antes de assumir o cargo, do risco de poluição da água ao cortar o fornecimento.

R. Sim, há contaminantes que podem ser sugados de fora para dentro dos canos. Os efeitos na saúde podem ser vários, de diarreias à intoxicação por metais pesados, dependendo do tipo de contaminante. Esse risco não é controlável, é muito difícil detectar todos os vazamentos que pode ter na distribuição de água. Mas não é algo para se preocupar tanto, porém, tem que ser pensado. Hoje está cada vez mais clara a conexão entre a qualidade e a quantidade. Os especialistas concordam em que à medida que diminui o volume das represas, diminui a qualidade da água. Em toda crise hídrica a qualidade da água é uma questão importante.

P. Falando de qualidade da água, o que o senhor acha da proposta do Governo de transposição de água da represa Billings, da qual se desconhece seu grau de poluição?

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R. A represa Billings é um enorme manancial de água que pode ser recuperado e existem técnicas para fazê-lo. Não é tão caro assim e poderia ser uma medida de curto prazo. Há mais de 22 anos que falo dessa possibilidade. Há problemas de contaminação, mas há um volume grande da represa que pode ser recuperado, é uma questão de selecionar os melhores braços dela, tratar a água e depois fazer a transposição.

P. Assumindo que a água ja é tratada como mercadoria, o senhor estaria a favor de uma privatização da Sabesp? Evitando assim intervenções políticas?

R. Acho que não. As experiências de privatização são muito erráticas, a visão do lucro se agudiza. Funcionou em alguns casos mas, por exemplo, na Cochabamba (Bolívia) foi um desastre. Em Cochabamba não fizeram um metro de cano, as populações gastavam 10% do seu salário no carro-pipa, resultou em um problema sério social, não acho que seja uma opção confiável. Mas eu não acho que o fato da Sabesp ser do Estado a torne incompetente. Não é incompetência, é burocracia. Os sistemas de água no Brasil, como muitas outras coisas, são altamente burocráticos e é muito difícil que absorvam inovações. A Sabesp tem abastecido água com qualidade, mas faltou planejamento a longo prazo e isso não é problema da Sabesp, é do Brasil que não tem capacidade de planejamento.

P. O senhor trabalhou em 40 países ajudando na gestão de crises hídricas. Quais lições pode aplicar no Brasil?

R. Em nenhum dos locais em que houve uma recuperação de lagos, represas ou rios se obteve sucesso sem a participação da população. Um outro ponto que aprendi foi que é preciso ter um sistema com séries históricas confiáveis de dados sobre o clima, o estado das bacias, mas também dados econômicos e sociais. Também aprendi que não pode se confiar só nos elementos físicos, mas que se tem que confiar na parte humana e social no planejamento.

P. Qual foi a crise com mais semelhanças com o Brasil?

R. A crise de Barcelona de 2007-2008 também foi muito séria. Foi abrupta e atingiu todos os setores da economia. Foi reduzido o volume de água a 100 litros por família por dia, compraram quatro navios da França com água que transportavam 250.000 m3 por dia durante quatro meses – isso não poderia ser feito aqui – e montaram uma planta de dessalinização. Mas a redução da demanda foi um aspecto muito importante. Reduziram qualquer tipo de uso de água que podia ser considerado superficial, como os chafarizes. A crise de dois anos resultou em um prejuízo de um bilhão de euros que representou 0,87% do PIB da Catalunha. Foi um impacto muito grande.

P. O senhor já tem alertado sobre os riscos de convulsão social se faltar água. Podemos esperar um novo junho de 2013 por conta da crise hídrica?

R. Quando eu falo isso, me baseio muito em um artigo que li em que se discutia que, se você tem uma conjuntura com condições climáticas adversas, problemas no fornecimento de alimentos, problemas relacionados à economia, problemas no uso de recursos naturais e problemas de saúde, você pode ter, sim, uma resposta muito agressiva da população. É preciso pensar nisso para que não aconteça, [os gestores] precisam trazer a população para o lado da gestão, mas para isso precisam mobilizar a sociedade e ter uma absoluta transparência para poder dizer: 'meus amigos, a crise é gravíssima, vai durar muito, precisamos da sua ajuda e colaboração'. A população percebe assim que não vai adiantar quebrar tudo e ela se coloca do seu lado.

P. Até agora tem sido feito o contrário...

R. Tem que haver mais informação e ser brutalmente transparente. Tem que fazer o que o [Wiston] Churchill fez na Segunda Guerra: 'Eu só posso oferecer aos ingleses sangue, suor e lágrimas'. Em uma crise como esta isso tem que ser falado brutalmente: 'vai faltar água, tem que fazer economia, vai ter problemas de saúde e precisamos de sua ajuda'.

P. O consórcio das Bacias PCJ, associação de usuários da água das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, propôs em novembro a construção de uma planta dessalinizadora, projeto que a Sabesp descartou. Agora, o ex-presidente da companhia Gesner Oliveira propôs implementar esse projeto em parceria com o setor privado. Poderia ser uma solução?

R. A dessalinização sempre é importante, embora seja um projeto de dois a três anos. É claro que você aumenta o custo da água, mas é uma solução importante e válida nesta crise. Um dos principais problemas é bombear água até o planalto porque o custo energético seria muito alto, mas, por outro lado, essa água poderia se adicionar a outras fontes que já existem. De qualquer forma, é uma alternativa importante, que serviria, pelo menos, para abastecer as cidades costeiras e poder usar essa outra água para outras atividades.

P. Se for chamado, o senhor aceitaria um cargo para ser parte ativa da gestão desta crise?

R. Ah... Essa é uma pergunta difícil. [Silêncio] Eu posso ajudar o país, faria tudo para isso, para que a população tenha mais saúde e viva mais feliz, mas acontece que eu já fiz isso várias vezes quando fui chamado para cargos públicos. Hoje não sei se eu teria condições físicas de enfrentar o desafio e trabalhar com tanta pressão. O problema não é só técnico, é também político e envolve enfrentar uma sociedade que esta pronta para reagir. A dimensão deste problema exige pessoas com muita vitalidade, e eu já tenho 77 anos.