REPORTAGEM

A esperança em um saquinho de terra

À espera das 3.500 casas prometidas em acordo, o Movimento dos Trabalhadores sem Teto desocupa o Copa do Povo

Uma mulher observa os escombros do Copa do Povo.
Uma mulher observa os escombros do Copa do Povo.Joel Silva (Folhapress)

Antes mesmo de que o sol raiasse, o dia dos acampados da Copa do Povo, na zona leste de São Paulo, já tinha cor e sentimento. Cor vermelha, das camisetas e bandeiras, da luta do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e dos olhos chorosos de quem vai sentir saudade. O sentimento era de tristeza pelas despedidas, mas também de felicidade de quem está mais perto de alcançar a casa própria. Durante quatro meses, essas cerca de 4.000 famílias compartilharam o que tinham – a esperança e o apoio mútuo – e o que não tinham também. Hoje se ajudam com a desmontagem dos barracos e a retirada de entulho, com dois caminhões cedidos pela subprefeitura de Itaquera. O espaço sem barracas dará lugar a prédios de moradia popular.

Dona Ana Maria de Jesus está muito emocionada. Não consegue acreditar no que aconteceu em sua vida desde que acampou com o MTST no terreno de 155.000 metros quadrados ao lado do Parque do Carmo, para garantir uma casa onde pudesse morar com a filha e a neta. "Nunca imaginei que fosse ter essa força, de estar aqui, dormindo com chuva, sol e frio. Eu fui corajosa e hoje eu digo: O que aparecer, eu estou pronta para lutar", afirma a diarista de 62 anos, que voltará ao seu barraco de madeirite na Vila Sílvia (zona leste), onde mora há dois anos em uma ocupação irregular, enquanto espera a definição das próximas etapas até a construção definitiva dos blocos de apartamentos.

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Apesar de faltar apenas um mês para as eleições, muitos acampados disseram que ainda nem pensaram em quem vão votar – alguns chegaram a responder que não sabiam nem onde dormiriam à noite. Os três candidatos com maior intenção de voto, Aécio Neves, Dilma Rousseff e Marina Silva, foram mencionados em igual medida, mas nenhum dos ocupantes soube dizer qual deles está mais comprometido com a causa da casa própria – e há 6,9 milhões de pessoas no Brasil nesta situação, segundo o IBGE. Ainda assim, no mesmo palanque onde os coordenadores subiram para falar com os participantes, também aproveitaram o microfone representantes do PSOL, que mencionaram a atuação da candidata Luciana Genro na causa dos sem teto, e o vereador Nabil Bonduki, do PT, participante ativo nas negociações do movimento sobre o Plano Diretor e que falou sobre as próximas lutas que o MTST terá que travar no bairro, como transporte, saúde e educação.

A desocupação do Copa do Povo, que tem o nome em protesto pelos gastos excessivos da Copa, é fruto de um acordo com a empresa dona do terreno e os poderes públicos – e todos assinaram os papéis para garantir o compromisso. A proprietária, Viver Incorporadora, definiu com o MTST que teriam preferência na compra do terreno (o movimento é uma entidade do programa federal Minha Casa Minha Vida). Um segundo acordo foi firmado entre os Governos federal, estadual e municipal para garantir a liberação das verbas públicas necessárias para a construção de moradias populares no local.

Em junho, o movimento pressionou a votação do Plano Diretor da cidade e conseguiu aprovar uma lei específica para este acampamento, alterando o zoneamento para permitir a construção de casas no local. A mesma lei está sendo questionada por um grupo de Promotores de Habitação, que a consideram inconstitucional pela mudança do zoneamento não constar no Plano Diretor, mas em uma lei separada. A retirada dos barracos, mesmo assim, facilitará o próximo passo: a avaliação da área pela Caixa Federal que, segundo a proprietária, vale 35 milhões de reais.

Esse montante parece exagerado para um bairro onde o metro quadrado construído custa 3.436 reais, um dos mais baixos da cidade, de acordo com dados de 2013 da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Os aluguéis na zona, no entanto, aumentaram 8,18% no último ano, segundo a Fundação Getúlio Vargas. Mas tanto comprar como alugar um imóvel em um bairro que está a uma hora do centro de São Paulo, é algo distante da realidade financeira dos acampados. A diarista Gláucia Lopes Pinheiro, que estava desarmando a barraca sem saber para onde iria, pensava nos seis filhos, dos quais cuida sozinha. "Eles estão na casa da minha mãe, na Cidade Tiradentes (zona leste), mas já são dez pessoas lá. Eu ainda não sei para onde vou, antes preciso conseguir um carreto para levar as coisas daqui", disse a sem teto, apontando para o colchão e as roupas divididas em sacolas de supermercado. Pinheiro afirma que quer uma casa "para ter sossego e dar lugar" para seus filhos.

Outros que saem do Copa do Povo, como o carpinteiro pernambucano Monteiro de Carvalho, encontrou abrigo em um lugar provisório que, de momento, pode pagar. "Um barraco em São Mateus, por 300 conto", para onde irá depois de ajudar os companheiros a desarmar as lonas estendidas em toda a extensão do morro. "Estou saindo daqui hoje para entrar no meu apartamento amanhã", diz o trabalhador de 40 anos que ganha 1.180 reais por mês e que há cinco anos está na fila para conseguir uma casa no programa Minha Casa Minha Vida. Um teto, para ele, significa poupar os filhos de situações que ele passou. "Muitas noites em dormitórios, nem posso chamar aqueles lugares de casa", lamenta, afirmando que sua história não é nada perto das que conheceu no acampamento.

Como eles mesmos dizem, a luta continua. E pelos discursos de encerramento do Copa do Povo, a pressão popular seguirá. "Estamos saindo sem nenhuma viatura, sem ser enxotado por ninguém", disse um dos líderes do movimento, Guilherme Boulos, "mas temos que estar preparados para os problemas que virão na hora de transformar o que está no papel em realidade". "Se a Caixa criar problema, acampamos lá. Se a Prefeitura dificultar, também sabemos o endereço", disse em tom ameaçador. Recentemente, uma mulher, Dona Dina, foi atropelada nas imediações do Copa do Povo e seu filho Serginho falou emocionado sobre a falta de sinalização nas ruas e criticou a CET. A falta d'água e a responsabilidade da Sabesp também foram outros assuntos do dia, o que dá a entender que serão as próximas pautas do movimento.

No final do ato, todos os presentes receberam uma lembrancinha. Se tratava de um pacotinho vermelho, do tamanho de um bombom, com um laço branco. Dentro havia terra. A terra sobre a qual os 3.500 apartamentos serão construídos. E, mais uma vez, as formiguinhas, como eles mesmos se denominam, cantaram alto a vitória, com os pés batendo e levantando poeira daquele mesmo chão onde têm a esperança de que sua casa seja logo construída: "Pisa ligeiro, pisa ligeiro. Quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro".