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A metade dos contatos dos casos de ebola escapa aos controles

Peter Piot, codescobridor do vírus há 38 anos, afirma que esta epidemia é “uma tormenta perfeita”

Médicos da Libéria desinfeta o calçado de pessoas que saem de um centro de isolamento. Ampliar foto
Médicos da Libéria desinfeta o calçado de pessoas que saem de um centro de isolamento. Getty Images

O lento desembarque da ajuda internacional aos países com a atual epidemia de ebola (Guiné, Serra Leoa e Libéria) começou a dar pistas sobre por que a epidemia está fora de controle. Com cerca de 70 pessoas em campo e a presença de seu diretor, Tom Frieden, o Centro de Controle de Doenças dos EUA (CDC, a sigla em inglês) apontou um problema-chave: a falta de acompanhamento das pessoas que estiveram em contato com um doente. Lyle Petersen, diretor do Centro de Controle de Zoonoses (doenças transmitidas por animais) do CDC, estima que há uma subnotificação de 40% a 60%.

Os cálculos são muito simples. Quando uma pessoa chega a um hospital, parte do histórico clínico é ter a relação dos contatos do caso suspeito. Mas a médica Kelsey Mirkovic calculou que, em media, cada doente dá o nome de duas pessoas, quando o número médio de ocupantes das casas é de cinco ou seis. “Quando suspeitamos que a pessoa está mentindo, tentamos obter a informação dos vizinhos ou dos líderes comunitários”, disse a especialista, segundo informa a Associação Americana de Doenças Infecciosas. Este é apenas um dos problemas. Outro é a falta de material. A crise do ebola afetou três países cujos sistemas sanitários já eram muito débeis.

O conjunto, nas palavras de Peter Piot, codescobridor do ebola há 38 anos e ex-diretor da Unaids, é “uma tormenta perfeita”. “A epidemia disparou em países onde os serviços sanitários não funcionam”, e onde “a população desconfia das autoridades e dos sistemas sanitários”. Piot também criticou a resposta tardia diante da epidemia: “O alerta foi dado em março, e apesar dos pedidos da ONG Médicos sem Fronteiras, a Organização Mundial da Saúde [OMS] não acordou até julho, assumindo a liderança quando já era tarde”.

Este mal-estar é vivido em primeira pessoa nos países afetados. O enviado da OMS a Serra Leoa, Jacob Mufunda, foi retirado do país uma semana depois de o presidente do país, Ernest Bai Koroma, ter criticado o órgão. Uma porta-voz da OMS declarou que se trata de um rodízio rotineiro.

As críticas de Bai Koroma se unem às de Frieden, que afirmou que se a reação tivesse sido mais rápida, o surto estaria controlado. O CDC, além de pessoal, enviou 10.000 equipamentos de proteção, 400.000 pares de luvas, duas unidades de purificação de água e plástico para construir centros de isolamento. Com isso se pretende atender melhor os doentes e proteger os agentes sanitários que, por falta de material, pressa e cansaço descuidam da própria segurança e já somam cerca de 240 afetados e 120 mortos, 9% do total.

Apenas a Nigéria, com 16 casos de um único foco, tem boas notícias. O chefe de seu centro de controle de doenças, Abdusalami Nasidi, disse que o surto poderá estar controlado em setembro.