Ex-líder da Catalunha confessa que manteve fortuna oculta no exterior

Jordi Pujol Soley, ex-presidente da Generalitat catalã por 23 anos, admite que regularizou há alguns dias” os valores escondidos por três décadas

Jordi Pujol, no Museu de Arte Contemporânea em 2012.
Jordi Pujol, no Museu de Arte Contemporânea em 2012.JOAN SÁNCHEZ

Jordi Pujol Soley, o homem que presidiu a Generalitat catalã durante 23 anos, fez ontem um ato de contrição e confessou que sua família mantinha fora da Espanha, e sem declarar, uma herança milionária. Em um comunicado sem precedentes, Pujol admite que os valores acumulados no exterior por sua mulher, Marta Ferrusola, e seus sete filhos só foram regularizados “nos últimos dias”, de modo que permaneceram ocultos durante mais de 30 anos.

O dinheiro –cuja quantia não é especificada– procede de uma herança de seu pai, o empresário Florenci Pujol. O ex-presidente catalão afirma que seu pai “dispôs como última vontade específica que o dinheiro localizado no estrangeiro”, que não figurava no testamento, “fosse destinado a meus sete filhos e milha mulher”. Pujol não foi designado herdeiro porque o pai, sempre segundo o comunicado, “considerava errada e de futuro incerto a minha opção pela política, em lugar de seguir no mundo da atividade econômica”. Seu pai, acrescenta a confissão, viveu “a época difícil” da Guerra Civil e do pós-guerra e “tinha medo do que poderia acontecer”, em especial “a um político muito comprometido”.

Pujol, de 84 anos, diz que o dinheiro que seu pai possuía no exterior procedia “do rendimento de uma atividade econômica sobre a qual já se escreveu e comentou”, embora não especifique qual seja. Em 1959, o Diário Oficial do Estado publicou uma lista de 872 pessoas que tinham sonegado importantes somas de dinheiro por intermédio de um banco suíço. Nela figuravam os nomes de Florenci Pujol e de David Tennenbaum, um sócio com o qual tinha dirigido um negócio relacionado a bolsa de valores e câmbio. Sua aparição nessa lista os obrigou a utilizar testas de ferro para comprar o embrião do que mais tarde seria a Banca Catalana.

O empresário morreu em setembro de 1980, apenas cinco meses antes do filho tomar posse como segundo presidente da Generalitat, depois da ditadura. Sua fortuna “não estava regularizada” nesse momento e os filhos de Pujol eram menores de dezoito anos. Por esse motivo, Pujol decidiu “encarregar da gestão e regularização (da herança) uma pessoa de confiança máxima de meu pai e minha também”, cujo nome ele também não revela. O ex-presidente admite que ignorou o assunto: “Não quis saber nunca do menor detalhe, até que quando meus filhos chegaram todos à maioridade ficou decidido que essa pessoa cederia a gestão a um deles”. Uma vez mais a carta não diz qual.

Um longo escândalo

Dezembro de 2012. O empresário Javier de la Rosa denuncia supostas contas de toda a família Pujol na Suíça e Andorra. O juiz Pablo Ruz rejeita a denúncia.

Fevereiro de 2013. O grampo da conversa entre Alicia Sánchez-Camacho, líder do PP na Catalunha, e uma ex-namorada de Jordi Pujol Ferrusola leva o juiz Ruz a investigar se Pujol se amparou na anistia fiscal do Governo do PP.

Abril de 2013. O juiz Ruz investiga movimentos bancários de até 32,4 milhões de euros em 13 países, realizados por Jordi Pujol Ferrusola.

Março de 2014. O juiz Ruz indicia a ex-mulher de Jordi Pujol Ferrusola por lavagem de dinheiro. No auto, além de mencionar os 11 carros esportivos de luxo que Pujol possui, o juiz denuncia que as empresas recebiam de prestadores de serviços para a Generalitat.

Julho de 2014. O juiz Ruz investiga os 15 milhões que Pujol Ferrusola e sua ex-mulher desembolsaram em diversas operações empresariais em apenas cinco dias.

Numa tentativa de proteger a família dos procedimentos judiciais que pairam sobre ala –relacionados, na maior parte, com a movimentação e grandes somas de dinheiro em contas no exterior–, Pujol entoa o mea culpa: “É neste momento que meu erro original contaminou diretamente meus sete filhos e minha esposa”. Mas Pujol não teve tempo, em 34 anos, para expiar seu pecado original?

“Lamentavelmente, não se encontrou nunca o momento adequado para regularizar esta herança, como outras pessoas puderam, de fato, fazer” graças às três regularizações extraordinárias aprovadas pelos sucessivos Governos. A última delas, a anistia fiscal aprovada em 2012 por Mariano Rajoy, que pretendia fazer vir à tona 25 bilhões de euros (cerca de 56 bilhões de reais) sonegados à Fazenda. Os Pujols não chegaram a tempo de se ampararem na anistia, por isso apresentaram declarações adicionais admitindo rendimentos obscuros no exterior.

Como fez o pai de Messi –que assumiu toda a responsabilidade na suposta fraude fiscal que afeta o astro argentino–, Pujol também pretende assumir as culpas para blindar os filhos. “Dos fatos descritos e de todas as suas consequências sou o único responsável, e quero manifestar isso de forma pública”. O ex-presidente catalão enfatiza seu “compromisso absoluto de comparecer perante as autoridades tributárias ou, se lhes convier, ante instâncias judiciais, para testemunhar sobre estes fatos e dessa forma acabar com as insinuações e os comentários”.

O comunicado surge, de fato, como uma resposta “às informações surgidas há quase dois anos relacionadas aos membros de minha família mais direta” e “às insinuações escritas sobre a origem de seus meios econômicos”. Victoria Álvarez, ex-namorada de Jordi Pujol Ferrusola (o primogênito) foi quem pôs o foco sobre o clã. Álvarez denunciou que o filho mais velho levava bolsas com notas de 500 euros a Andorra. A Audiência Nacional investiga seus movimentos bancários em paraísos fiscais.

O exlíder de CiU pede “perdão” e assume toda a culpa para  proteger a seus filhos

O que começa como uma argumentação termina, no entanto, como uma confissão como se deve. “Exponho tudo isto com muita dor, pelo que significa para a minha família e para mim mesmo.” Pujol pede “perdão” “às pessoas de boa vontade que possam sentir-se enganadas em sua confiança”. E lhes pede, também, que “saibam diferenciar as falhas de uma pessoa e que esta declaração seja reparadora no que for possível do mal e de expiação para mim mesmo”.

A confissão de Pujol representa uma mudança radical de estratégia. Até então o fundador da Convergência Democrática vinha negando de modo taxativo a existência de contas no exterior. E tinha insinuado que as acusações eram um ataque à Catalunha, ao partido e ao processo de soberania, promovido pelas entranhas do Estado. Essa foi sua reação, por exemplo, quando El Mundo publicou, em novembro de 2012, que o clã Pujol dispõe de 137 milhões de euros em contas na Suíça. Mais tarde, o mesmo jornal publicou que diferentes membros da família tinham depositado até 3,4 milhões em um banco de Andorra em 2011.

A fortuna no exterior não é a única herança que Pujol recebeu do pai. Outra iniciativa de Florenci Pujol –Banca Catalana– esteve a ponto de o mandar para o banco dos réus e acabar, prematuramente, com sua carreira política. Nos anos 80, a procuradoria apresentou queixa contra Pujol pelo desvio de 500 milhões de pesetas da instituição bancária –que acabou sob intervenção do Banco da Espanha–, mas o caso foi arquivado.

Mas: "É um assunto pessoal"

MAIOL ROGER

A confissão do ex-presidente Jordi Pujol surpreendeu toda a classe política catalã. O presidente da Generalitat, Artur Mas, pediu que se separe a herança não declarada de Pujol de sua vida política: “O que hoje explicou o ex-presidente Pujol é um assunto pessoal seu: nada a ver nem com o CDC nem com o Governo”, disse. A Convergência, partido do qual Pujol é presidente fundador, desconhecia a confissão antes que fosse feita e insiste se tratar de assunto particular da família Pujol. O argumento da CDC motivou queixas no Twitter do deputado do PSC Germán Rodríguez: “Quando saía nos jornais eram ataques à Catalunha. Agora que Pujol reconhece as contas no exterior é um assunto pessoal”.

O ERC evitou dar valor à confissão de Pujol. A direção do partido considera que aos supostos delitos da família Pujol se soma ao interesse do Estado para que aflorem em pleno processo para obtenção da soberania.

A Iniciativa considerou insuficientes as explicações de Pujol e considerou que sua carta constitui “um triplo insulto: às pessoas que o estimam e também têm incertezas na vida; a quem defendeu o país de verdade e nem por isso guardou o dinheiro no exterior; e um insulto à inteligência ao dizer que em 30 anos não encontrou um momento para regularizar isso”, disse a ecosocialista Dolors Camats.

O PP catalão também achou as explicações “confusas”. Seu porta-voz, Enric Millo, considerou que a confissão de Pujol representa “o reconhecimento de enganar a todos os catalães, que durou tempo demais”. Matias Alonso, de Ciutadans, afirmou que os fatos “põem em dúvida a trajetória do patriarca da CDC durante todo o seu período como presidente”.

Por sua vez, David Fernández, da Candidatura d'Unitat Popular, relembrou um lema dos punks nos anos 80: "Que Pujol pague".