Ex-líder da Catalunha confessa que manteve fortuna oculta no exterior

Jordi Pujol Soley, ex-presidente da Generalitat catalã por 23 anos, admite que regularizou há alguns dias” os valores escondidos por três décadas

Jordi Pujol Soley, o homem que presidiu a Generalitat catalã durante 23 anos, fez ontem um ato de contrição e confessou que sua família mantinha fora da Espanha, e sem declarar, uma herança milionária. Em um comunicado sem precedentes, Pujol admite que os valores acumulados no exterior por sua mulher, Marta Ferrusola, e seus sete filhos só foram regularizados “nos últimos dias”, de modo que permaneceram ocultos durante mais de 30 anos.

O dinheiro –cuja quantia não é especificada– procede de uma herança de seu pai, o empresário Florenci Pujol. O ex-presidente catalão afirma que seu pai “dispôs como última vontade específica que o dinheiro localizado no estrangeiro”, que não figurava no testamento, “fosse destinado a meus sete filhos e milha mulher”. Pujol não foi designado herdeiro porque o pai, sempre segundo o comunicado, “considerava errada e de futuro incerto a minha opção pela política, em lugar de seguir no mundo da atividade econômica”. Seu pai, acrescenta a confissão, viveu “a época difícil” da Guerra Civil e do pós-guerra e “tinha medo do que poderia acontecer”, em especial “a um político muito comprometido”.

Pujol, de 84 anos, diz que o dinheiro que seu pai possuía no exterior procedia “do rendimento de uma atividade econômica sobre a qual já se escreveu e comentou”, embora não especifique qual seja. Em 1959, o Diário Oficial do Estado publicou uma lista de 872 pessoas que tinham sonegado importantes somas de dinheiro por intermédio de um banco suíço. Nela figuravam os nomes de Florenci Pujol e de David Tennenbaum, um sócio com o qual tinha dirigido um negócio relacionado a bolsa de valores e câmbio. Sua aparição nessa lista os obrigou a utilizar testas de ferro para comprar o embrião do que mais tarde seria a Banca Catalana.

O empresário morreu em setembro de 1980, apenas cinco meses antes do filho tomar posse como segundo presidente da Generalitat, depois da ditadura. Sua fortuna “não estava regularizada” nesse momento e os filhos de Pujol eram menores de dezoito anos. Por esse motivo, Pujol decidiu “encarregar da gestão e regularização (da herança) uma pessoa de confiança máxima de meu pai e minha também”, cujo nome ele também não revela. O ex-presidente admite que ignorou o assunto: “Não quis saber nunca do menor detalhe, até que quando meus filhos chegaram todos à maioridade ficou decidido que essa pessoa cederia a gestão a um deles”. Uma vez mais a carta não diz qual.

Um longo escândalo

Dezembro de 2012. O empresário Javier de la Rosa denuncia supostas contas de toda a família Pujol na Suíça e Andorra. O juiz Pablo Ruz rejeita a denúncia.

Fevereiro de 2013. O grampo da conversa entre Alicia Sánchez-Camacho, líder do PP na Catalunha, e uma ex-namorada de Jordi Pujol Ferrusola leva o juiz Ruz a investigar se Pujol se amparou na anistia fiscal do Governo do PP.

Abril de 2013. O juiz Ruz investiga movimentos bancários de até 32,4 milhões de euros em 13 países, realizados por Jordi Pujol Ferrusola.

Março de 2014. O juiz Ruz indicia a ex-mulher de Jordi Pujol Ferrusola por lavagem de dinheiro. No auto, além de mencionar os 11 carros esportivos de luxo que Pujol possui, o juiz denuncia que as empresas recebiam de prestadores de serviços para a Generalitat.

Julho de 2014. O juiz Ruz investiga os 15 milhões que Pujol Ferrusola e sua ex-mulher desembolsaram em diversas operações empresariais em apenas cinco dias.

Numa tentativa de proteger a família dos procedimentos judiciais que pairam sobre ala –relacionados, na maior parte, com a movimentação e grandes somas de dinheiro em contas no exterior–, Pujol entoa o mea culpa: “É neste momento que meu erro original contaminou diretamente meus sete filhos e minha esposa”. Mas Pujol não teve tempo, em 34 anos, para expiar seu pecado original?

“Lamentavelmente, não se encontrou nunca o momento adequado para regularizar esta herança, como outras pessoas puderam, de fato, fazer” graças às três regularizações extraordinárias aprovadas pelos sucessivos Governos. A última delas, a anistia fiscal aprovada em 2012 por Mariano Rajoy, que pretendia fazer vir à tona 25 bilhões de euros (cerca de 56 bilhões de reais) sonegados à Fazenda. Os Pujols não chegaram a tempo de se ampararem na anistia, por isso apresentaram declarações adicionais admitindo rendimentos obscuros no exterior.

Como fez o pai de Messi –que assumiu toda a responsabilidade na suposta fraude fiscal que afeta o astro argentino–, Pujol também pretende assumir as culpas para blindar os filhos. “Dos fatos descritos e de todas as suas consequências sou o único responsável, e quero manifestar isso de forma pública”. O ex-presidente catalão enfatiza seu “compromisso absoluto de comparecer perante as autoridades tributárias ou, se lhes convier, ante instâncias judiciais, para testemunhar sobre estes fatos e dessa forma acabar com as insinuações e os comentários”.

O comunicado surge, de fato, como uma resposta “às informações surgidas há quase dois anos relacionadas aos membros de minha família mais direta” e “às insinuações escritas sobre a origem de seus meios econômicos”. Victoria Álvarez, ex-namorada de Jordi Pujol Ferrusola (o primogênito) foi quem pôs o foco sobre o clã. Álvarez denunciou que o filho mais velho levava bolsas com notas de 500 euros a Andorra. A Audiência Nacional investiga seus movimentos bancários em paraísos fiscais.

O exlíder de CiU pede “perdão” e assume toda a culpa para  proteger a seus filhos

O que começa como uma argumentação termina, no entanto, como uma confissão como se deve. “Exponho tudo isto com muita dor, pelo que significa para a minha família e para mim mesmo.” Pujol pede “perdão” “às pessoas de boa vontade que possam sentir-se enganadas em sua confiança”. E lhes pede, também, que “saibam diferenciar as falhas de uma pessoa e que esta declaração seja reparadora no que for possível do mal e de expiação para mim mesmo”.

A confissão de Pujol representa uma mudança radical de estratégia. Até então o fundador da Convergência Democrática vinha negando de modo taxativo a existência de contas no exterior. E tinha insinuado que as acusações eram um ataque à Catalunha, ao partido e ao processo de soberania, promovido pelas entranhas do Estado. Essa foi sua reação, por exemplo, quando El Mundo publicou, em novembro de 2012, que o clã Pujol dispõe de 137 milhões de euros em contas na Suíça. Mais tarde, o mesmo jornal publicou que diferentes membros da família tinham depositado até 3,4 milhões em um banco de Andorra em 2011.

A fortuna no exterior não é a única herança que Pujol recebeu do pai. Outra iniciativa de Florenci Pujol –Banca Catalana– esteve a ponto de o mandar para o banco dos réus e acabar, prematuramente, com sua carreira política. Nos anos 80, a procuradoria apresentou queixa contra Pujol pelo desvio de 500 milhões de pesetas da instituição bancária –que acabou sob intervenção do Banco da Espanha–, mas o caso foi arquivado.

Mas: "É um assunto pessoal"

MAIOL ROGER

A confissão do ex-presidente Jordi Pujol surpreendeu toda a classe política catalã. O presidente da Generalitat, Artur Mas, pediu que se separe a herança não declarada de Pujol de sua vida política: “O que hoje explicou o ex-presidente Pujol é um assunto pessoal seu: nada a ver nem com o CDC nem com o Governo”, disse. A Convergência, partido do qual Pujol é presidente fundador, desconhecia a confissão antes que fosse feita e insiste se tratar de assunto particular da família Pujol. O argumento da CDC motivou queixas no Twitter do deputado do PSC Germán Rodríguez: “Quando saía nos jornais eram ataques à Catalunha. Agora que Pujol reconhece as contas no exterior é um assunto pessoal”.

O ERC evitou dar valor à confissão de Pujol. A direção do partido considera que aos supostos delitos da família Pujol se soma ao interesse do Estado para que aflorem em pleno processo para obtenção da soberania.

A Iniciativa considerou insuficientes as explicações de Pujol e considerou que sua carta constitui “um triplo insulto: às pessoas que o estimam e também têm incertezas na vida; a quem defendeu o país de verdade e nem por isso guardou o dinheiro no exterior; e um insulto à inteligência ao dizer que em 30 anos não encontrou um momento para regularizar isso”, disse a ecosocialista Dolors Camats.

O PP catalão também achou as explicações “confusas”. Seu porta-voz, Enric Millo, considerou que a confissão de Pujol representa “o reconhecimento de enganar a todos os catalães, que durou tempo demais”. Matias Alonso, de Ciutadans, afirmou que os fatos “põem em dúvida a trajetória do patriarca da CDC durante todo o seu período como presidente”.

Por sua vez, David Fernández, da Candidatura d'Unitat Popular, relembrou um lema dos punks nos anos 80: "Que Pujol pague".

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