Eu também sou um “menino da favela”

Um jovem artista conta como se livrou do clichê da favela e narra a enorme distância social que ainda as separa do asfalto

O artista Ângelo Campos no Rio.
O artista Ângelo Campos no Rio.j.a.

Ângelo Campos se aproxima do banco da estação de metrô onde eu o espero e tira seus gigantescos óculos escuros. Veste bermuda e camiseta larga, usa uma corrente no pescoço, e seu braço esquerdo é verde-tatuagem. Contrasta com sua pele negra. “Bom dia. ¿Qué tal? How are you?”— com isso deixa claro três vezes seus modos e suas aptidões. Não é o que muita gente da zona nobre da cidade espera dele.

O Brasil, mais que Brasil, são brasis. Em um país cuja superfície quase se iguala à da Europa inteira e cuja população (200 milhões de pessoas) humilha as concentrações de toda a América Latina, seria absurdo tentar encerrar sua essência numa só definição.

Existe o Brasil branco, ao sul, o Brasil negro, ao norte. Na maioria das cidades se lida em pequena escala com a mesma divisão. Existe o Brasil dos muito ricos e o Brasil dos muito pobres. E agora também o Brasil daqueles que começam a se equilibrar entre essas duas realidades. Existe um Brasil onde vivem as mais ortodoxas populações indígenas do continente. E também um Brasil tão cheio de arranha-céus que poderia deixar um nova-iorquino boquiaberto. Brasil de mar e Brasil de terra. Brasil-selva, Brasil-escritório. Existe um Brasil beato e um Brasil de carnaval. Samba, violência, gentileza, perigo. O maior Cristo do mundo e epiléticas cerimônias espíritas. Tanga para todos, topless para ninguém. Camponeses. Mercedes. O Brasil é produção agrária, chinelo de dedo, petróleo e cachaça. Turismo, barracos erguidos com sucata e condomínios cinco-estrelas. Apenas um recém-nascido entre os mercados e, ao mesmo tempo, um temido gigante internacional. Futebol milionário e futebol sem chuteiras. O Brasil é mais do que futebol. A Ângelo, artista de 31 anos, coube ser do Brasil da favela, que para alguns de seus compatriotas não é um Brasil a ser levado em conta.

Suas favelas no Rio de Janeiro são duas: Vila Cruzeiro (20.000 habitantes), onde nasceu e continua vivendo com sua mulher, o filho e uma avó, numa pequena casa de cimento, metal e nenhum luxo, e o Complexo do Alemão, um dos dois maiores núcleos de favelas da cidade (composto por 16 delas, com 65.000 habitantes, localizado na Zona Norte), onde trabalha pintando e vendendo camisetas. Até pouco tempo era considerado uma das maiores e mais perigosas comunidades carentes do mundo.

“Hoje, vou levar você para dar uma volta por aqui”, me diz depois que descemos do novo teleférico que chega até o morro mais alto deste macropovoado de casinhas amontoadas. Dentro da favela também existem hierarquias: os mais pobres, na parte mais alta. “Há quatro anos teria sido impossível vir com você, porque era uma área muito violenta. Muitos tiroteios, mortos.” Ângelo desenha em palavras esse recente período no qual quem mandava passeava com seus fuzis pela rua (como ainda acontece em outros bairros degradados).

Visitar favelas de São Paulo, Rio de Janeiro ou Salvador significa atravessar milhares de quilômetros de rodovias entre as cidades e um abismo social que diminui em alguns de seus flancos, enquanto se agrava em outros. A “pacificação” que o Governo de Sérgio Cabral (PMDB) – aliado do governo do Partido dos Trabalhadores, do então presidente Lula – começou a realizar em 2007 em muitos dos subúrbios do Rio de Janeiro obteve repercussão internacional tanto por sua suposta eficácia quanto pela “brutalidade com que foi feita”, nas palavras de Ângelo, testemunha direta. “Foram abertas as portas de alguns desses bairros fechados, nos quais antes os criminosos mandavam e a polícia não podia entrar. Mas isso não quer dizer que tenham dado melhores oportunidades a nos, que moramos nesses bairros”, diz Ângelo.

O jovem artista cumprimenta os moradores que andam entre o emaranhado de escadas, fios cruzados, tijolos, burros e grafites que compõe o Alemão. “Filho, como você está?”, lhe pergunta um velho que carrega dois pesados baldes de água que precisa para sua casa. O ancião sobe a duras penas as ruas carcomidas e inclinadas do complexo. Quatro crianças com chinelos puídos se aproximam para bater o punho conosco.

“Eles continuam sem ter muitas oportunidades”, diz o pintor depois de se despedir deles. “É verdade que há menos violência, mas não é verdade que nas favelas agora se viva bem, como nossos governantes gostam de fazer acreditar porque estão chegando os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo”.

Ele é “igual a esses moleques”, diz. É muito consciente daquilo que a sociedade da opulência pensa de gente como eles. Nos jornais, esses são os garotos que organizam os rolezinhos (encontros multitudinários de jovens convocados pelas redes sociais, que incomodam clientes e proprietários dos shoppings centers) e que tatuam com suas pichações o rosto elegante de São Paulo. A classe baixa chamando a atenção dos seus compatriotas de cima, segundo especialistas como Rosana Pinheiro Machado, professora brasileira de antropologia na Universidade de Oxford. Para outra parte da sociedade, são simplesmente “bandidos”. O próprio Ângelo, que tem boas relações com pessoas de todos os lugares do Rio depois de ter pintado por encomenda (e de forma legal) mais de 200 murais em todos os cantos da cidade, garante que ainda precisa enfrentar o estigma com que o sentenciaram desde o berço.

Sua vida se encaixa no clichê. Pouco antes de nascer, teve o pai assassinado por seus próprios amigos. “Era um criminoso comum e o liquidaram por algum ajuste de contas.” Com apenas 12 dias de vida, sua mãe o abandonou na rua em frente à porta da sua avó.

O que ele lembra da sua infância no bairro, onde o tráfico e a violência foram duas constantes, “são tiros, negócios obscuros e mortos”. Conta que sua pobre avó “mal tinha para sobreviver”, e que por isso, desde que completou cinco anos, percebeu que tinha de fazer alguma coisa para dar uma mão à sua família ao seu futuro.

Esboçou um caminho. Desde pequeno lidava com os lápis de cores, e aos sete fez seu primeiro grafite. “As pessoas gostavam do meu estilo, me davam os parabéns, então eu disse para mim mesmo: talvez eu possa tirar alguma coisa disso”. E começou a pintar em camisetas os desenhos que lhe pediam. Embora não tirasse muito, era uma ajuda para casa. “Acreditava na minha capacidade”, reconhece, mas conforme os anos foram passando sentiu falta do empurrão que precisava para tornar realidade seu sonho de prosperar sem precisar se sujar com drogas e pólvora. “Um empurrão que nunca chegava.”

A decepção com o entorno e a falta de confiança externa, sensações comuns entre os meninos destes bairros, se transformam hoje, uma geração depois da de Ângelo, em uma motivação para reivindicar igualdade de tratamento e de oportunidades. Segundo o escritor Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, “o debate público na periferia do Brasil é muito grande. Desde os anos 90 a música, a literatura, a poesia e o rap são muito políticos, e esses jovens se conectam assim com a política, escutam as pessoas falarem, debaterem… Os políticos não estão percebendo que a periferia está mudando, que não aceita mais os desmandos políticos. Hoje, você conversa com um jovem de 15 anos da periferia e ele sabe tudo o que está acontecendo, tem as mesmas ideias que um jovem do centro da cidade”.

Ângelo, dadas as suas perspectivas, decidiu deixar a arte de lado e, como muitos outros jovens dos subúrbios, se dedicar ao transporte e venda de drogas no varejo. Uma vida de riscos que, no entanto, prometia mais rentabilidade. Mas, “coisas da vida”, foram afinal os próprios traficantes que o impediram de se alistar nas suas fileiras. Ele ainda se lembra das palavras que lhe disse o chefe da sua favela no dia em que foi solicitar o perigoso cargo: “Você tem talento, menino, não vai ficar aqui”.

Ângelo ficou sem o delituoso emprego e sem renda, mas com muito mais ânimo de continuar pintando. Camiseta após camiseta, muro após muro, coloriu tudo o que apareceu na sua frente, apesar de não tirar grande proveito disso. Até que um dia, há cinco anos, alguém se aproximou e lhe disse: “Que bonito o mural que você está pintando no bairro”. “Eu?”, estranhou.

Foi ver de onde brotava o rumor e se deparou com dois holandeses, Jeroen Koolhaas e Dre Urhahn (Haas & Hahn), fazendo na Vila Cruzeiro um desenho que ia muito além de um mero grafite. Essa dupla de artistas tinha chegado ao Brasil com um projeto solidário chamado Favela Painting, uma iniciativa particular e altruísta de inclusão social que busca, através da arte comunitária, corrigir a escassez da iniciativa social do Estado nas favelas.

“Eles usam a arte urbana como medida social que integra, mobiliza e propõe uma saída para a população das favelas”, diz. Um só dia bastou para que os europeus vissem em Ângelo o candidato perfeito para manter acesa essa chama: “Continue”, disseram eles, segundo Ângelo, “mantenha o nosso projeto com suas próprias ideias, se encarregue de propor planos artísticos para o seu pessoal. Você é quem realmente pode ajudar”.

“Aprendi que a arte podia ser minha forma de ajudar e também meu trabalho.” Ele era um artista, um autodidata profissional do desenho, que queria se sobressair além do rótulo de grafiteiro que lhe era previamente atribuído.

Acabaram-se os desenhos clandestinos. Agora, além de ter conseguido tirar um bom punhado de jovens do mau caminho, mantém a sua família com o que recebe por seus trabalhos. Escolas, edifícios públicos, fábricas e muitas ruas do Rio do Janeiro ostentam os mais de 200 desenhos assinados por ele. Vai se tornando um artista conhecido. “Não estão mal pagos”, garante, e diz que trabalha grátis quando quem lhe pede para decorar uma parede é uma pessoa sem recursos.

Ângelo me leva até o morro de Santa Marta, onde Haas & Hahn realizaram uma das transformações urbanas mais conhecidas do Rio do Janeiro, e também onde começou o Plano de Pacificação desta cidade.

A aposta do governo consistiu (especialmente no princípio) em realizar ações contundentes (frequentemente muito violentas) que amedrontassem os senhores destes subúrbios e deixassem, depois da intervenção, uma presença permanente das UPPs (Unidades de Pacificação Policial). Depois de sete anos de execução, quase 40 favelas do Rio do Janeiro foram alvo de intervenção e pacificação, uma cifra modesta, tendo em conta que existem mais de 900 favelas no Rio, segundo o Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP). Além disso, as torturas e o assassinato de um morador da favela da Rocinha no ano passado, além de recentes tiroteios motivados pelo tráfico de drogas no Alemão, puseram novamente em dúvida a eficácia do sistema, o que levou à suspensão temporária da criação de novas unidades da UPP depois destes fatos.

“No Alemão a intervenção policial foi sangrenta”, relata Ângelo. “Chegaram a atirar nas pessoas só porque elas andavam pela rua durante a ocupação policial.” Segundo esse rapaz na casa dos 30 anos, “agora de fato a favela está calma e que até os turistas podem vir. Mas não era esse o principal problema dos nossos bairros, e sim a falta de oportunidades, e disso os governantes se esquecem. A pacificação não é tudo. Há muitos projetos, mas são só isso, projetos, não acontecem. E é preciso ver o que vai acontecer com eles depois da Copa e da Olimpíada”.

Ângelo não abandonou seu negócio de pintar camisetas, e agora, além disso, passa os dias pensando em novos projetos para realizar em áreas carentes. Esse viciado em superação pessoal, que precisou aprender a ler por conta própria, pouco a pouco, também se defende em inglês e espanhol para poder se comunicar com artistas estrangeiros que chegam por aqui. “Precisamos contribuir, fazer coisas”, repete, apontando alguns jovens da Vila Cruzeiro que brincam de chutar uma garrafa de plástico.

O pintor volta a colocar os óculos e mexe na corrente metálica do pescoço. “A pacificação não se faz com armas, e sim com isto”, diz, apontando com a cabeça. “As pessoas das favelas seriam iguais ao resto dos brasileiros, e seriam tão respeitadas quanto o resto dos brasileiros se fossem avaliadas pelo que são e pelo que fazem, em vez do lugar de onde elas vêm. Eu pinto, e muitos me respeitam pela minha arte. Alguns só me conhecem por isso. E eu também sou um menino da favela.”

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