Tribuna
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Rumo ao feminismo especulativo

Diferentes autoras ultrapassam as fronteiras dos gêneros para explorar a violência, física e discursiva, nas mulheres

Um grupo de mulheres em uma ilustração medieval.
Um grupo de mulheres em uma ilustração medieval.Historical Picture Archive / CORBIS/ Getty

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Há dois anos, o aumento de sua presença tem sido notado nas prateleiras das livrarias: reescritas, reboots de mitos, lendas e contos clássicos, assim como a apropriação de gêneros pop como o terror, a distopia a ficção científica, o pastiche e a metaficção pós-moderna. Com uma perspectiva de gênero e por meio de um giro sugestivo e eclético em gêneros não realistas, o feminismo especulativo veio para ficar. Mas quais são suas referências? E o que é o feminismo especulativo?

Esquecido por décadas e agora resgatada na Espanha graças ao trabalho das editoras Sexto Piso e Impedimenta, a britânica Angela Carter reescreveu alguns contos clássicos nem A Câmara Sangrenta e Outras Histórias (1979), talvez seu livro mais acessível. Com seu singular estilo barroco e erudito, nestes irreverentes reboots de Barba Azul e A Bela e a Fera, entre outros clássicos, não só propôs reinterpretações feministas onde nenhuma princesa é salva por um príncipe, mas, influenciada pela psicanálise e o fascínio por Sade e Bataille, exibiu o anverso obscuro do erotismo e da crueldade. Nesta linha de reeboots dos clássicos, embora filtrados por sua propensão à metaficção pós-moderna e seu legado cultural iorubá, podem ser lidos os dois romances da anglo-nigeriana Helen Oyeyemi, Mr. Fox e Boy, Snow, Bird. Nesse rumo vai também a norte-americana Kelly Link no conto Travels with The Snow Queen uma reescrita do conto clássico da Rainha da Neve, investigando a sanha dos contos populares com os pés como símbolo da independência de suas personagens femininas. Neste ponto deve-se acrescentar a elogiada estreia de Carmen Maria Machado com Su Corpo y Otras Fiestas (Anagrama, 2018), em que apresenta vários tipos de violência social e simbólica exercidas contra o corpo das mulheres. Como na hilariante nouvelle Especialmente Atroz. 272 Episódios de Ley y Orden: Unidade de Vítimas, onde o famoso programa de televisão norte-americano é apresentado por meio de breves sinopses de episódios surreais que satirizam a maneira como a violência sexual é exposta nos horários nobres da TV.

Mas nem tudo é reescrita e pastiches pós-modernos, porque nesta série podem ser incluídos dois livros impactantes que evocam o poder redentor do fogo e a distopia. Por um lado, o multipremiado Las Cosas que Perdimos en el Fuego (Anagrama, 2016), de Mariana Enríquez, invoca, no conto de mesmo nome, o poder emancipatório das chamas, com uma história impactante de bruxas contemporâneos que explora a violência de gênero na linha da distopia social, no estilo de James G. Ballard. Finalmente, The Book of Joan, Lidia Yuknavitch propõe uma fábula estranha de inspiração medieval, na qual sua principal narradora personifica uma homenagem a Christine de Pizan, protofeminista e a primeira escritora profissional no Ocidente, e sua heroína, Joana d'Arc, reencarnada em Joan de Dirt, uma jovem combatente com habilidades semelhantes às da mítica donzela de Orleans.

O denominador comum de todas essas autoras talvez pudesse ser entendido a partir dos últimos desdobramentos teóricos de Donna Haraway. Com base em uma rede de conceitos emprestados de outras filósofas e cientistas, a renomada teórica norte-americana fez confluir em seu último livro (Staying with the Trouble. Making Kin in the Chthulucene, 2015) um mapa conceitual eclético no rumo do reino da ficção. De uma forma lúdica, Haraway nos convida a "especular", no sentido de imaginar e criar novas comunidades possíveis. Sua proposta parte das múltiplas combinações da contração "SF", uma metáfora de como deveríamos encarnar as histórias que contamos a nós mesmos neste planeta que esmorece: "Science Fiction", "Speculative Fiction", “Science Fabulation”, “Speculative Feminism”.

Este último conceito é útil para compreender a emergência, a releitura e o resgate do esquecimento (como no caso de Angela Carter) dessas escritoras que, por meio do livre curso à especulação, em seu duplo sentido de reflexão e conjectura, fazem experiências com os gêneros e campos literários como o horror, a ficção científica, o fantástico, o surrealismo, o pastiche e o humor, acrescentando profundidade e realismo psicológico às suas narrativas. É assim que essas diferentes autoras ultrapassam as fronteiras dos gêneros para explorar a violência, tanto física como discursiva, nos corpos das mulheres. E fazem isso de uma forma marcante e inventiva que também questiona o realismo como o padrão da qualidade literária. Desse modo, essas escritoras demonstram uma grande capacidade de compartilhar histórias comunitárias, explorando as raízes profundas na experiência das mulheres durante séculos e evidenciando a necessidade de recontar histórias, em um eterno retorno da lenda, do mito, dos contos clássicos e da história, que, felizmente, não continua significando a mesma coisa.

Ana Llurba é escritora, autora de livros como ‘La Puerta del Cielo’ (Aristas Martínez, 2018) e ‘Este es el Momento Exacto en que el Tiempo Empieza a Correr’ (La Isla de Siltolá, 2015).

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