Pandemia do coronavírus

“O número de infecções é agora um dado menos importante que o de internações”

A cientista por trás da vacina de Oxford e da AstraZeneca, Sarah Gilbert, prevê que as novas variantes serão mais contagiosas, mas com efeitos menos graves

A professora Sarah Gilbert em uma foto de junho.
A professora Sarah Gilbert em uma foto de junho.Steve Parsons - PA Images / PA Images via Getty Images

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No final de junho, o público que assistia à abertura do torneio de tênis de Wimbledon se levantou e aplaudiu longamente Sarah Gilbert (Kettering, Reino Unido, 59 anos). A cientista, de caráter rígido, não esperava por isso, e deixou escapar suas emoções. Ela vive um momento de colheita de frutos depois de um longo ano de trabalho intenso. A responsável pelo desenvolvimento da vacina da Universidade de Oxford, produzida posteriormente em colaboração com a farmacêutica AstraZeneca, foi homenageada este ano, juntamente com seus colegas criadores de outras vacinas, com o Prêmio Princesa de Astúrias de Pesquisa Científica. Nesta semana, conversou com a aliança LENA, que reúne destacados jornais europeus, entre eles o EL PAÍS. Obcecada por dados e evidências científicas, Gilbert não foge da polêmica e critica aqueles que, segundo ela, esgrimiram no debate público informações pouco fundamentadas “que custaram vidas”. A cientista sugere, diante dos temores provocados pela nova variante delta do vírus, que agora é mais conveniente prestar atenção no número de novas internações do que no de contágios.

Pergunta. O que podemos esperar no futuro imediato? Qual deve ser o grau de preocupação com a variante delta?

Resposta. A variante delta não está causando uma doença mais grave que a do vírus original. Mas é verdade que é altamente transmissível. Em termos de evolução, a mutação não costuma levar a uma maior virulência. O próprio vírus não tem interesse nisso. Ele não obtém nenhuma vantagem se os infectados sofrem patologias mais sérias. Quanto mais doentes graves houver, mais se isolarão das outras pessoas e deixarão de transmiti-lo. É do interesse dele aumentar sua transmissibilidade e provocar efeitos mais brandos. A lógica nos leva a esperar novos vírus muito contagiosos, mas que provoquem uma doença cada vez menos grave.

P. Em vários países europeus o número de casos está subindo, fala-se de uma nova onda.

R. Mas confio em que os índices de vacinação continuem subindo. É evidente que a variante delta será a dominante e as infecções aumentarão. Cada país deverá decidir como responder. O número de infecções, em certo sentido, será menos importante que o de hospitalizações. Sabemos que, uma vez vacinada, a pessoa pode ser contagiada, mas sua doença é mais branda, e o normal é que transmita menos o vírus. Atualmente, o número de casos que levam à internação não é o mesmo de um ano atrás. A situação mudou.

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P. As crianças deveriam começar a ser vacinadas?

R. O que estamos obtendo com a vacinação é o que pretendíamos: proteger os sistemas públicos de saúde e evitar hospitalizações e mortes. Algo que, exceto em casos raros, não ocorre com as crianças. No momento atual, o número de vacinas ainda é muito limitado para alcançar todos os países. E deve ser dada prioridade à imunização dos profissionais de saúde e dos idosos nos lugares aonde a vacina ainda não chegou. Não devemos esquecer aquele propósito inicial segundo o qual “ninguém estará a salvo até que todos estejamos a salvo”.

P. A Universidade de Oxford queria evitar o “nacionalismo das vacinas”, e exigiu que a AstraZeneca fizesse uma distribuição regional homogênea. Mas dá a sensação de que a “guerra” acabou sendo inevitável.

R. Nossa vacina é usada em 172 países, com resultados muito bons. Não é perfeita, concordo, mas responde por 80% das doses distribuídas pelo Covax [o fundo de acesso global a vacinas contra a covid-19, promovido pela Organização Mundial da Saúde para os países de menos recursos]. Nada mal, não?

P. Certo, mas os Estados Unidos não a reconhecem, e a União Europeia pensa em prescindir dela no futuro.

R. Se um país tem doses suficientes e eficazes e ele não precisa da nossa, não me preocupo. Mas existem muitos outros países que precisam dela e não têm a logística de armazenamento e conservação exigida por outras vacinas. Não se trata de que cheguem até o aeroporto. Têm de chegar às pessoas. A AstraZeneca fez um trabalho fantástico na hora de instalar novas unidades de produção pelo mundo todo. Não podemos depender exclusivamente de umas poucas fábricas se queremos imunizar todo o mundo.

O público de Wimbledon aplaude Sarah Gilbert em 28 de junho.
O público de Wimbledon aplaude Sarah Gilbert em 28 de junho. AELTC/Joe Toth / Getty Images

P. Os casos raros de trombose detectados em alguns pacientes levaram vários países a prescindir da vacina da AstraZeneca para a segunda dose. Isso faz sentido?

R. Decisões desse tipo devem estar baseadas sempre em dados e evidências científicas. Ainda há estudos em andamento sobre a eficácia de possíveis combinações. Não se trata tanto de saber se é possível fazer isso, mas se é necessário. A tendência de alguns países ou empresas de recomendar novas pautas de vacinação sem o respaldo dos dados me preocupa. Por exemplo, o Public Health England [órgão encarregado de gerir a saúde pública inglesa] já publicou informações que sustentam que a trombose não é um problema na segunda dose da AstraZeneca. Nesse caso, substituir essa segunda injeção por uma vacina diferente não faz nenhum sentido.

P. Na solidão de seu laboratório, a senhora ficou magoada com as críticas e os ataques à vacina Oxford-AstraZeneca? A senhora foi particularmente combativa em suas declarações.

R. Meus colegas e eu tentamos constantemente comunicar qual era a ciência que estava por trás da vacina. Cada novo resultado dos estudos era publicado, com um cuidado especial para não lançar hipóteses ou interpretar exageradamente os dados. Era frustrante que se desse o mesmo peso e relevância às nossas afirmações e às declarações de políticos ou jornalistas sem nenhuma base científica. Não deveriam ter o mesmo peso.

P. A senhora chegou a afirmar que as informações dos veículos de comunicação alemães que estimavam em apenas 8% a eficácia da vacina nos idosos “custaram vidas”. Esses veículos são responsáveis pela morte de pessoas?

R. Sim. É muito importante comunicar corretamente os dados. Não só pelas informações fornecidas aos governantes de um país, mas também aos cidadãos. As pessoas leem alguma coisa que não é correta e tomam suas decisões com base nisso.

P. Seu livro recém-lançado, Vaxxers, é acima de tudo um esforço para combater os negacionistas das vacinas.

R. O argumento que mais ouvimos é que as vacinas não são algo natural. O que quer dizer natural? Se você sofre uma infecção viral, um vírus invade as células de seu corpo e as usa para se replicar e se espalhar. Ao vacinar, colocamos um fragmento de RNA do vírus em um número reduzido de células para fabricar uma proteína que promove a resposta imunológica e evita que o vírus se espalhe pelo organismo. Eu me preocuparia muito mais com uma infecção viral descontrolada pelo corpo todo do que com uma vacina controlada e limitada em seus efeitos. As pessoas precisam entender melhor como as vacinas funcionam, para acabar com essa ideia de que não são algo natural.

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