Pandemia de coronavírus

Vacina de Oxford e AstraZeneca tem eficácia média de 70% contra a covid-19, anuncia laboratório

Dependendo do esquema de dosagem, eficiência pode chegar a chegar a 90%. Produto pode ser armazenado e transportado a uma temperatura de 2 a 8 graus e conservado por até seis meses

Cientista processa o soro da vacina nos laboratórios da Universidade de Oxford, no Reino Unido, em junho de 2020.
Cientista processa o soro da vacina nos laboratórios da Universidade de Oxford, no Reino Unido, em junho de 2020.OXFORD UNIVERSITY / JOHN CAIRNS / EFE

Aviso aos leitores: o EL PAÍS mantém abertas as informações essenciais sobre o coronavírus durante a crise. Se você quer apoiar nosso jornalismo, clique aqui para assinar.

“Temos uma vacina para o mundo”, disse o pesquisador Andrew Pollard, da Universidade de Oxford, em entrevista coletiva nesta segunda-feira. Sua vacina experimental contra covid-19 tem eficácia média de 70%, podendo chegar a 90% dependendo do esquema de dosagem, segundo resultados preliminares apresentados pela instituição britânica. “Não temos casos graves ou hospitalizados entre os vacinados. Esta é uma notícia muito boa “, disse Sarah Gilbert, um dos líderes da pesquisa de vacinas experimentais.

Mais informações

Cientistas de Oxford e da farmacêutica britânica AstraZeneca estão realizando um ensaio clínico com cerca de 24.000 pessoas no Reino Unido, Brasil e África do Sul. A primeira análise de seus dados, após a detecção de 131 casos de covid-19, sugere uma eficácia de 62% quando duas doses da vacina experimental são administradas. A inoculação de meia primeira dose, e um mês depois, de uma dose completa demonstrou uma eficácia de 90%. O laboratório afirma que a eficácia de 70% foi calculada ao se combinarem os resultados das duas maneiras de administrar a vacina. Os pesquisadores ainda estão fazendo experimentos para entender esse fenômeno.

A vacina experimental da Oxford é uma das mais avançadas do mundo, junto com as das empresas americanas Pfizer e Moderna, que já anunciaram eficiências preliminares em torno de 95%. A Comissão Europeia assinou em agosto um acordo com a AstraZeneca para comprar 300 milhões de doses da vacina Oxford ― com opção de mais 100 milhões ― a serem distribuídas em países europeus de acordo com sua população.

O Governo brasileiro anunciou em agosto a abertura de um crédito extraordinário de 1,9 bilhão de reais para a produção e aquisição de 100 milhões de doses da vacina Oxford-AstraZeneca. A medida também prevê a transferência de tecnologia ao país caso a vacina se mostre eficaz e segura, informou o Ministério da Saúde. A absorção da tecnologia será feita pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o processamento da vacina pela Bio-Manguinhos. A previsão é que a produção da vacina no Brasil tenha início a partir de dezembro deste ano. Segundo a expectativa do Governo, uma campanha de vacinação para públicos prioritários ― idosos, pessoas com comorbidades, profissionais de saúde e segurança e indígenas ―, deve começar já no início de 2021.

Em outubro, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que coordena os estudos clínicos com a vacina no Brasil, informou a morte de um voluntário brasileiro que participava dos testes. O voluntário João Pedro Feitosa, que faleceu por complicações da covid-19, tinha 28 anos, era médico recém-formado e morador do Rio de Janeiro. Não foi divulgado se ele tomou a vacina ou o placebo, e os testes da vacina continuaram. “É importante ressaltar que, com base nos compromissos de confidencialidade ética previstos no protocolo, as agências reguladoras envolvidas recebem dados parciais referentes à investigação realizada por esse comitê, que sugeriu pelo prosseguimento do estudo. Assim, o processo permanece em avaliação”, disse a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em nota.

A Anvisa, no entanto, optou por suspender os testes do estudo clínico da Coronavac ―a vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan―, após o anúncio de um “evento adverso grave”, no caso, a morte de um voluntário. O presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que o “evento” observado não teve relação com o imunizante e que Anvisa foi devidamente notificada no dia 6 de novembro. A agência, por outro lado, alegou que não havia recebido informações suficientes.

A suspensão durou apenas dois dias mas abriu uma crise institucional que chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Ricardo Lewandowski determinou que agência prestasse informações em 48 horas sobre os estudos de vacina no país. A agência negou “contaminação política” na decisão, após o presidente Jair Bolsonaro comemorar a suspensão. “Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o [governador de São Paulo, João] Doria queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, escreveu o mandatário no Facebook, sem apresentar nenhuma prova de suas afirmações. Na semana passada, o Ministério da Saúde abriu uma série de diálogos com farmacêuticas para criar um possível cronograma de compra e vacinação. Neste primeiro momento, a Coronavac não está no planos de aquisição.

Vacina sem fins lucrativos

Oxford e AstraZeneca se comprometeram a fornecer a vacina sem fins lucrativos durante a pandemia, uma decisão que permaneceria para sempre em países com poucos recursos. A farmacêutica já fechou acordos para vender 3 bilhões de doses em todo o mundo, segundo seus números. O preço de cada dose previsto é de cerca de 3 euros, contra 21 euros da vacina da Moderna.

Os pesquisadores não observaram quaisquer efeitos adversos graves entre os 24.000 participantes do ensaio clínico, alguns deles vacinados em abril. Agora, a equipe está recrutando mais voluntários nos Estados Unidos, Quênia, Japão e Índia e espera atingir 60.000 pessoas até o final do ano. Os cientistas anunciaram que publicarão uma análise completa de seus resultados preliminares em uma revista científica de impacto nos próximos dias. Em seguida, serão esclarecidas as principais incógnitas sobre da vacina experimental, como o nível de proteção dos idosos e em que medida a transmissão assintomática do vírus é evitada.

A vacina experimental Oxford é feita a partir de uma versão enfraquecida de um adenovírus do resfriado comum de chimpanzé, modificado com informações genéticas do novo coronavírus para treinar as defesas do corpo humano sem o risco da covid-19. Pesquisadores da universidade britânica destacaram que sua vacina pode ser mantida na geladeira, em temperaturas entre 2 e 8 graus Celsius, como numa geladeira doméstica e conservado durante seis meses nessas condições, o que facilita sua distribuição para todo o mundo. Já existem 10 países fabricando a vacina em grande escala, segundo nota de Oxford. Já as vacinas da Moderna e Pfizer precisam ser guardadas em temperaturas bem abaixo de zero.

“O ensaio ainda não foi concluído, mas esses resultados preliminares indicam eficácia promissora”, diz a virologista Isabel Sola, codiretora de outra vacina experimental contra covid-19 do Centro Nacional de Biotecnologia de Madri. A pesquisadora destaca que entre os vacinados com a injeção da Oxford, além da ausência de pacientes gravemente enfermos, observa-se uma redução dos casos assintomáticos, o que sugere que a vacina pode prevenir a transmissão do vírus entre pessoas, não apenas prevenir sintomas mais graves.

Siga a cobertura em tempo real da crise da covid-19 e acompanhe a evolução da pandemia no Brasil. Assine nossa newsletter diária para receber as últimas notícias e análises no e-mail.

Colaborou Regiane Oliveira, de São Paulo.

Arquivado Em:

Mais informações

Pode te interessar

O mais visto em ...

Top 50