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Com vacina, europeus voltam a planejar futuro e ocupar ruas

Variante Delta surge como nuvem negra sobre a reabertura da sociedade, mas vida literalmente da sinais de restabelecer seus ritos, cerimônias e objetivos

Pessoas caminham sem máscara pela orla da praia de La Manga, na região da Múrcia, na Espanha.
Pessoas caminham sem máscara pela orla da praia de La Manga, na região da Múrcia, na Espanha.Edu Botella / Europa Press

Nas arquibancadas do estádio de Copenhague, a imagem é de uma realidade distante para dezenas de países pelo mundo: gente vibrando com gols, pintadas com as cores de seu pais e festejando. Em muitos aspectos, a Euro 2020 é o espelho de uma reabertura de uma sociedade que passou mais de oito meses fechada. Ritos voltaram a ser estabelecidos. Cerimônias ganharam novos significados, como o mero encontro entre amigos, ainda sob o impacto de milhões de casos graves da doença e de imagens que pareciam fazer apenas parte do passado de caixões acumulados.

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Isso tudo numa sociedade que iniciou 2021 com uma campanha de vacinação que começa a dar resultados, ainda que os apelos sejam pela prudência e os temores de mais uma onda continuem a afetar o continente.

O verão no hemisfério chegou ao mesmo tempo que os índices de vacinação atingiram taxas elevadas, protegendo a maioria dos adultos mais vulneráveis. Há duas semanas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, indicou que mais de 50% da população do continente tinha recebido pelo menos uma dose.

As temperaturas elevadas também chegaram com a reabertura de parques, de concertos ao ar livre, da volta dos bares e restaurantes e, em breve, das discotecas. Para milhares de pessoas, algo que era proibido fora de casa desde março de 2020 voltou a ocorrer: dar abraços sem a já tradicional pergunta: “posso?”.

Para autoridades nacionais e para a OMS, o entusiasmo está à beira da irresponsabilidade e pedem que populações continuem a manter a cautela. Com alguns sinais de um aumento de casos, regiões como Lisboa voltaram a implementar medidas de controle e, em certas regiões, reaberturas mais amplas foram adiadas.

Mesmo assim, os números são reveladores do efeito da combinação de oito meses de medidas sociais e vacinação. Na semana entre 14 e 20 de junho, o continente registrou 250.000 novos casos da covid-19, um forte contrasta com os mais de 1,6 milhão de casos em apenas uma semana de março. A taxa atual também é metade do que se vê no Brasil.

Em termos de mortes, a Europa somou 4.000 em sete dias, o menor nível desde outubro de 2020 e distante dos 26.000 por semana em abril.

Ainda assim, nos discursos oficiais, nenhum sinal de “missão cumprida” e alertas constantes sobre os riscos relativos à proliferação da variante Delta, que volta assustar e promove uma corrida com a vacina.

Mas mesmo o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, admite que a vacinação na Europa está tendo um impacto real na vida da sociedade. “As pessoas estão felizes”, constatou, na última sexta-feira.

Em Genebra, com pequenos concertos de música à beira do lago, nem mesmo as tempestades de chuva do final do dia parecem desanimar a população que ri até de estar encharcada. Ao percorrer o calçadão à beira da água transparente repleto de famílias, pequenos jogos de futebol improvisados e sorvete na mãos de crianças é impossível não fazer a comparação com a crise sanitária brasileira.

Um sentimento de saudades do futuro, como se ele tivesse sido uma vez mais adiado no caso do Brasil.

Pela Europa, churrascos, festas, encontros entre amigos para ver as partidas da Euro e até a volta da cultura marcam a nova agenda das famílias, ansiosas para redescobrir o contato social e planejar o futuro.

Para a classe mais rica, o momento é o da volta dos gastos. Agentes imobiliários que atuam na luxuosa do lago Genebra constatam que os preços de residências não param de subir. E que seus clientes estão cada vez mais dispostos a abrir o bolso. Nos hotéis cinco estrelas das grandes capitais, já não há espaço para os principais fins de semana da temporada de verão.

Baby boom?

Tanto na Europa como nos EUA, os primeiros sinais literalmente de vida também começam a aparecer, com a volta de casais em busca de filhos. Ou pelo menos voltando a falar sobre o assunto.

Se alguns mais otimistas acreditaram que haveria um aumento de nascimentos nove meses depois do primeiro lockdown, os números revelaram exatamente o oposto. O número de casamentos que chegaram ao final explodiu. Só no Reino Unido entre julho e outubro de 2020, o escritório de advocacia Stewarts registrou um aumento de 122% em reuniões com indivíduos iniciando consultas sobre possíveis divórcios.

Uma pesquisa na França e Alemanha em meados do ano passado indicou que 50% dos casais adiariam gravidezes. Nos EUA, os números de queda começaram a aparecer de forma importante a partir de dezembro de 2020, nove meses depois da eclosão da crise. Segundo o CDC, a queda foi de 8% nos nascimentos no últimos mês do ano passado, uma tendência mantida em janeiro e fevereiro.

Na Itália, a queda foi ainda maior, de 21%, contra 20% de redução na Espanha para o mês de dezembro. Já a França teve dezembro e janeiro com indices de natalidade mais baixos em 20 anos.

Agora, os planos podem voltar a ser feitos. O Instituto Max Planck Institute Pesquisa Demográfica na Alemanha constata que a busca no Google por termos relativos à gravidez deram um salto nas últimas semanas. Mas uma retomada real poderia vir apenas depois de agosto.

Nem tudo é festa

A história não é apenas de festas. Economistas alertam que, com a reabertura, o risco é de que modelos de proteção social comecem a ser retirados. Para a UE, governos entrarão em uma era da austeridade para começar a pagar pela dívida acumulada dos últimos dois anos. E o impacto social pode ser profundo.

Durante a pandemia, a UE destinou 2,3 trilhões de euros em medidas de apoio para garantir a liquidez das economias. Isso impediu uma onda de falências e, de fato, os números de empresas fechadas foi o menor desde 1999.

De acordo com a UE, sem esse dinheiro, 25% de todas as empresas do bloco teriam fechado suas portas ao final de 2020, após exaurir seus caixas.

Mas essa aparente estabilidade pode não durar. No mercado, o temor é de que “empresas zombis” ―que de fato não tinham mais atividade― comecem a fechar. “Muitas insolvências foram adiadas, e não impedidas”, alertou a francesa Coface SA, uma empresa de seguro de crédito.

Já a Euler Hermes, também do setor de créditos, acredita que falências em 2021 podem ser 13% superiores às taxas de 2019. Para 2022, a onda seria ainda maior, com aumento de 27%.

Pelo continente, muitos já se adaptam. Em Genebra, um tradicional restaurante português continua a cobrar o mesmo preço. Mas o tamanho do prato foi cortado pela metade. A tendência de “austeridade” deve marcar também outros setores. Das 1.600 discotecas existentes na França, 100 nunca voltarão a abrir suas portas, com milhares de postos de trabalho fechados.

Já nas clínicas e hospitais, a onda de pacientes de covid-19 começa a ser substituída por outra: a de pessoas com sinais de depressão, stress e casos psiquiátricos, um legado da pandemia que especialistas já tinham alertado.

Apartheid

Se a situação europeia entra em uma nova fase, a OMS, Banco Mundial e a ONU alertam que essa não é nem de perto a realidade do restante do mundo, principalmente nas economias mais pobres. De acordo com o Programa Mundial de Alimentação, o planeta somou 41 milhões de novos famintos, revertendo anos de progresso no combate contra fome. São 200 milhões de novos pobres e um salto inédito em desemprego em dezenas de países.

Se a taxa de natalidade despencou nos países europeus e entre a população mais rica, a ONU alerta que a pandemia causou a gravidez indesejada em 1,4 milhão de mulheres. 12 milhões delas perderam o acesso a serviços de planejamento familiar. Só na Indonésia, a pandemia deverá levar a um aumento de 500 mil novos partos em comparação aos anos anteriores.

Parte da explicação tem um nome: vacina. Enquanto a imunização avança com ritmo elevado desde maio na Europa, a África conta com apenas 1,5% de sua população protegida. O apartheid de vacinas é mais uma nova camada de desigualdade num planeta que tem sua história entrelaçada com a própria injustiça social.

A desigualdade, porém, também corre o risco de ser interna, inclusive nos países mais ricos. Historiadores insistem que, em diferentes momentos nos últimos séculos, o período pós-pandemia foi marcado por uma dualidade: para uma parcela, a volta da cultura e de “anos loucos”.

Mas, para milhões de pessoas, esse período também foi de tensão social. Basta ver a instabilidade política que se instalou na França depois da onda de cólera nos anos 1830. Ou a fermentação da insatisfação popular que fez germinar o fascismo nos anos 20, depois da Gripe Espanhola.

Não é por acaso, portanto, que o FMI rasgou todas suas cartilhas e princípios e fez um apelo solene aos países: gastem o que tiverem e o que não tiverem para proteger seus cidadãos. Caso contrário, aguardem por uma eclosão social nos próximos anos.

Ainda assim, para uma parcela da população do Velho Continente que neste início de verão no hemisfério norte se protege com creme solar e vacina, o resto do mundo ―e mesmo sua periferia― parecem cada vez mais distantes.

A festa, o sol e a brisa seriam apenas temporárias?

Jamil Chade é correspondente na Europa desde 2000, mestre em relações internacionais pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra e autor do romance O Caminho de Abraão (Planeta) e outros cinco livros.

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