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Entre o golpe e o fiasco, o processo contínuo de governar pelo medo e a ameaça

Eventos como o desta terça são parte de um ‘continuum’ de mobilização e devem ser encarados como um processo. Isso não significa dar mais importância aos atos do que eles têm: eles são um fator de mobilização e corrosão democrática. Têm poder capital para desembocar em 2022

Jair Bolsonaro durante ato em São Paulo.
Jair Bolsonaro durante ato em São Paulo.DPA vía Europa Press / Europa Press

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Na oposição, as reações às manifestações bolsonaristas do 7 de Setembro foram divididas entre aqueles que temiam que o evento poderia marcar o início de (mais) um golpe de Estado e os que apostavam que o evento “flopou” — para usar a expressão das redes sociais. Ambas as teses antagônicas deixam de lado tudo que estava no meio do caminho entre o golpe e o fiasco. As manifestações tiveram um papel fundamental na continuidade de um processo que é marcado pela produção permanente do medo, da ameaça e na corrosão democrática que se intensifica desde o dia em que Bolsonaro assumiu a presidência.

Aqui o importante não é analisar um possível golpe ou um único evento de uma data específica, mas a capacidade de Bolsonaro de continuar zombando das instituições democráticas deste país. Ele age na produção permanente do terror autoritário. Ele não tem medo de punição ou investigação. Desde as manifestações do início da pandemia, ele desafia as instituições e pouco teme que algo vá lhe barrar. Os efeitos disso no processo de redemocratização do país é um enorme passo atrás na confiança democrática.

Mais uma vez, em plena crise econômica e sanitária, Bolsonaro conseguiu mobilizar toda a imprensa e a oposição por dias antes ― e seguirá pautando por muitos dias ainda, mantendo-se em estado permanente de campanha presidencial ― e espalhando o terror do golpe. Sádico como é, o bravateiro deve se divertir fazendo isso.

Um outro ponto importante a se notar é o próprio discurso conferido em Brasília em que Bolsonaro afirma que, dentro dos princípios da Constituição, enquadrará o Supremo. Isso nos leva a dois pontos importantes.O primeiro é a capacidade que a extrema-direita global tem de se apropriar de certos conceitos e pautas e esvaziá-los, deixando apenas a carcaça, desviando seus significados e, assim, despolitizando-os. É assim quando a ministra Damares diz que defende os direitos humanos. É assim quando o ex ministro Ernesto Araújo fala em soberania. É assim quando Ricardo Salles falava de sustentabilidade ou bioeconomia. E é também assim quando Bolsonaro fala em Constituição em um discurso golpista baixo e cheio de ambiguidade. Mais grave do que isso, é quando ele se apropria da expressão “presos políticos” para questionar as recentes prisões de pessoas como Roberto Jefferson, que é acusado de cometer crimes digitais e atos antidemocráticos.

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A médio prazo, o poder desse tipo de contra narrativa é devastador, pois esvazia e distorce pautas e valores consolidados pela luta da ação coletiva ao longo de décadas. Isso também gera uma legião de seguidores que, mesmo que carregue faixas golpistas, procura se apagar em algum verniz humanista para justificar sua violência e autoritarismo.

O segundo ponto é que, também a médio prazo, estamos diante de algo inédito, que é a popularização da desconfiança e o ódio ao Supremo Tribunal Federal ― ao menos na sua extensão. E como brincou recentemente o professor de Relações Internacionais da UFMG, Dawison Belem Lopes ― em um live comigo―, hoje todo mundo sabe o nome de muitos ministros do Supremo e podem até fazer apostas com as decisões de cada um. Isso era impensável há poucos anos. Assim como se aumenta a consciência sobre o trabalho do STF, cresce a hostilidade contra ele, transformando o Supremo no novo inimigo comum da nação: o espantalho contra o qual se jogam todas as frustrações e culpas de um governo fracassado.

Cabe a Bolsonaro, em sua infindável incompetência, continuar jogando a culpa no STF e seguir na bravata ameaçadora para não se passar por um fracote fracassado que se curvaria a uma suposta tirania do Supremo. Se os tolos soldados invadirem algum Poder numa possível derrota eleitoral, ele já tem o seu casulo (i)moral pronto para se refugiar.

No curto prazo, a organização desses eventos é também uma forma de produção incessante de política em movimento. Os comboios e organização de categorias profissionais em torno do bolsonarismo forma redes e conecta pessoas ao longo do processo. E não é pouca coisa. Formam novos líderes, sindicalistas e vereadores justamente na escala em que o bolsonarismo atua melhor: na capilaridade de sua ação pequena e municipal. Sabemos que, ainda que Bolsonaro se desidrate nas pesquisas eleitorais, é o policial militar, é o sindicalista rural, é o grileiro, é o dono da pequena propriedade e é o pastor que pode jogar o terror ― de forma silenciosa e longe dos holofotes ― nas comunidades em que atuam na hora da eleição.

Eventos como o desta terça são parte de um continuum de mobilização e devem ser encarados como um processo ― e não um ato isolado. Isso não significa dar mais importância aos atos do que eles têm: eles são um fator de mobilização e corrosão democrática. Por mais autoritárias ou ridículas que sejam algumas imagens, talvez o ponto não seja ir do golpe ao fisco, mas se manter atento ao poder capital que a sua base pode desempenhar em 2022. Isso se torna fundamental para que não tenhamos surpresas no ano que vem e que este 7 de Setembro seja página virada de nossa história o mais rápido possível.

Rosana Pinheiro-Machado é antropóloga e professora de desenvolvimento internacional da Universidade de Bath, no Reino Unido. É autora de ‘Amanhã vai ser maior’ (Planeta).

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