Opinião
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Muito do que vai acontecer no 7 de Setembro já aconteceu

Apenas predizer que “não vai ter golpe” é tão estéril quanto os discursos relativizadores que servem a acalmar a opinião pública sobre a robusteza de nossa democracia desde que Jair Bolsonaro se candidatou e assumiu a presidência

Carolina Botelho
MAURO PIMENTEL / AFP

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Nos últimos dias ganharam fôlego dúvidas sobre o que acontecerá no 7 de Setembro, dia no qual se comemora a Independência do Brasil e que consta no calendário nacional de feriados da nossa República. Os jornais seguem com cada vez mais afinco monitorando a escalada de acontecimentos em direção ao feriado. Especialistas passam a seguir com mais frequência grupos em apoio ao presidente que, camuflados de democratas, ameaçam ir às ruas dispostos a impor um simulacro de liberdade a qualquer preço. O cidadão comum faz o supermercado para poder se resguardar em casa, protegendo-se de qualquer tipo de violência que possa vir a acontecer. Enquanto isso, a capital do país, em pleno feriadão, tem seus hotéis lotados, assim como pipocam notícias e boatos de caravanas de ônibus que rumam com patriotas em defesa do discurso pró-golpe de quem apoia a invasão do Supremo e do Congresso.

O que vai acontecer no dia 7? A esta hora, pouco importa, pois é uma retórica sobre a qual não devíamos perder tempo. Já aconteceu, este é o ponto. Seria mais producente se perguntar em que outro 7 de setembro das últimas décadas desde a redemocratização ocorreu um debate parecido com que há hoje? Posso adiantar a resposta: em nenhum. Sendo assim, se vai ter ou não ter golpe, o que se tem já é muito.

Apenas predizer que “não vai ter golpe” é tão estéril quanto os discursos relativizadores que servem a acalmar a opinião pública sobre a robustez de nossa democracia desde que Jair Bolsonaro se candidatou e assumiu a presidência. É irrelevante também. Não deveria ser mais necessário listar todos os dias os motivos pelos quais devamos nos preocupar com o que atravessamos, como têm feito os incansáveis analistas políticos. Ignorar o “eu sou a Constituição”, “o meu exército”, “dia 7 de setembro será um ultimato”, ignorar o engavetamento de processos por autoridades públicas em favor do presidente, deixar de levar em conta as manifestações políticas cada vez menos tímidas de comandantes de quartéis e o silêncio em dos militares do alto comando das Forças Armadas são erros inadmissíveis que não poderiam ocorrer em um país cuja história possui o passado autoritário que o Brasil tem. Fingir que isso não é importante é o negacionismo da ciência política. Veem-se todas as evidências, mas em nome de uma fé inabalável, diz-se que nada vai acontecer com a democracia. Já aconteceu.

As pesquisas de opinião pública, aquelas cujos crivos são aprovados pela entidade de pesquisa que regula os institutos e não pelas tias e tios do zap, dão que de 20 a 25% do eleitorado brasileiro apoia o presidente da República. Dentre os quais, é possível apontar um tipo de perfil: homens, evangélicos, de cidades do interior, “empresários” (novos empreendedores?), com renda média entre 2 e 5 salários-mínimos e muito pouco escolarizados. Aliás, hoje, e ao contrário de 2018, quanto mais escolarizado, menos chance há em apoiar o presidente. Se explorarmos mais ainda, conseguiremos observar que dentro deste grupo há um de característica mais específica e que tem se dedicado a apoiar qualquer iniciativa do presidente da república. Quando digo qualquer, refiro-me a rezar para a caixa de cloroquina ou bradar que a vacina vem com chip, como se cientistas fossem gastar horas de trabalho para desenvolver em tempo recorde vacinas com microchips para monitorar logo quem.

Esse grupo é representado por mais ou menos 10% a 15% dos entrevistados das pesquisas. A identificação desses grupos está longe de ser infalível, mas parte de toda análise é mesmo intuitiva. Entretanto, podem ser facilitadas com perguntas do tipo que a Genial Quaest Consultoria e Pesquisa tem feito, como “pensando na economia do país como um todo, você diria que no último ano a economia do Brasil (...)”, “qual é seu nível de preocupação com a pandemia da COVID-19?” e monitoramentos como “movimento feminista é exagerado”, “demonstrações de gays/lésbicas incomodam” e “compras/acesso de armas facilitado”. Em todo caso, este não é um percentual irrelevante numa população de quase 148 milhões de eleitores.

Ainda mais quando são insuflados e atiçados a todo tempo pelo próprio presidente e seus filhos. Assim, para um apoiador do presidente, invadir o Congresso, o Supremo, apoiar a prisão de um ministro de uma alta corte por ele estar fazendo o trabalho de defender a Constituição, também é “democrático” e faz parte da tão desgastada noção de “liberdade de pensamento e de expressão”, completamente deslocada da realidade e disfuncional. Portanto, perguntar a eles se querem viver sob uma ditadura ou se prezam a democracia não é suficiente para responder ao desafio deste momento.

O fato é que já foi inoculado em parte da sociedade a possibilidade de golpe e de abuso autoritário. Assim como já avançaram sobre o tecido social a desconfiança e o medo sobre o que está ocorrendo. Essas variáveis, embora intangíveis, são reais e possíveis de mensurar. A prova disso é a quantidade de pesquisas e sondagens com o objetivo de captar essas percepções das pessoas, nas quais volta a ser um indicador de monitoramento a pergunta sobre viver em democracia.

Teremos muito trabalho a fazer para reconstruir políticas públicas dos últimos 30 anos e oferecer mínimos de dignidade a uma população carente. Serão necessários também esforços para recuperar os flancos que fizeram em nossa democracia. O próximo governo será para começar esse trabalho. E vai durar mais do que um. Quem não vê seriedade nisso está por fora.

Carolina Botelho é doutora em ciência política, pesquisadora do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social/Mackenzie e associada do Doxa/Iesp/UERJ.

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