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O mito do policial invencível criado pela fictícia guerra às drogas

Policiais que se outorgam um poder especial, como Da Cunha, servem à conveniente criação de mitos heroicos, usados por chefes de Estado e superiores hierárquicos que muitas vezes agem com objetivos não muito transparentes

Operação policial na Cracolândia no Centro de São Paulo (SP)/Willian Moreira/Futura Press/Folhapress)
Operação policial na Cracolândia no Centro de São Paulo (SP)/Willian Moreira/Futura Press/Folhapress)
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AME6340. BRASILIA (BRASIL), 17/02/2021.- Fotografía de archivo fechada el 26 de noviembre de 2020 que muestra al diputado brasileño Daniel Silveira, que integra la base aliada del presidente Jair Bolsonaro, mientras habla. Silveira, que integra la base aliada del presidente Jair Bolsonaro, fue preso este martes después de divulgar un vídeo en sus redes sociales en los que insulta con palabras de grueso calibre a varios magistrados de la Corte Suprema del país. Por determinación del magistrado Alexandre de Moraes, que ordenó la detención inmediata del congresista, independiente del horario, Silveira fue arrestado poco antes de la medianoche por agentes de la Policía Federal en la ciudad de Petrópolis, en la región serrana de Río de Janeiro. EFE/ Joédson Alves ARCHIVO
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O ideal de policial Rambo - forte, ameaçador, invencível e quase que com poderes mágicos - é ficção científica. Mas isso não é tão óbvio quanto deveria e essa ficção é explorada à exaustão por quem quer lucrar com ela. Há policiais que vestem o personagem e fazem disso plataforma política, como o soldado youtuber, Gabriel Monteiro, eleito como o terceiro vereador mais bem votado do Rio de Janeiro. Isso, apesar de ter a extensa ficha - 70 faltas disciplinares em menos de quatro anos - , exposta no Twitter pela própria PM.

Esta semana veio à tona a notícia de que a Polícia Civil de São Paulo investiga o delegado influencer Da Cunha. Com milhões de seguidores no Instagram, o policial deflagrou, sozinho e durante as férias, uma “operação” na região da Cracolândia. Agora, ele é investigado por isso e responde a outros sete procedimentos internos. A questão é para que uns se elejam e lucrem individualmente, policiais, sociedade e políticas públicas pagam o pato.

Uma das críticas dos pares policiais à ação à la Stallone de Da Cunha é que isso coloca em “risco não só o próprio delegado mas também os usuários de drogas da região, muitas vezes usados como escudo humano por parte de traficantes”. Após a “operação Rambo”, a Polícia retirou armas e distintivo de Da Cunha e o afastou de atividades externas. Em vídeo para suas redes, o delegado diz que está sendo perseguido e assediado. Apesar de fazerem carreira como valentões contra os direitos humanos e o “mimimi”, apelar para a perseguição também é um modus operandi comum entre os Rambos quando repreendidos. Gabriel Monteiro e Daniel da Silveira, outro PM com carreira política preso por ataques ao Supremo Tribunal Federal e a ministros da Corte, se dizem perseguidos.

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São muitos Monteiros e Da Cunhas. Um dos efeitos diretos da fictícia guerra às drogas é a criação desses mitos. E eles são vitais para a manutenção do mito maior, a tal “guerra”. Se retroalimentam. Somado a isso, a imprensa e redes sociais amplificam muito a voz dessas pessoas ao dar a elas espaços gratuitos de publicidade. Bolsonaro, com suas aparições grotescas semanais em programas televisivos e afins, é o maior caso de sucesso do país. E isso não mudou após sua eleição. Jornalistas seguem exercendo o duvidoso jornalismo declaratório, quando apenas reverberam o dito por estas figuras, sem nenhum contraponto. O dito é falado exatamente para que vire manchete. E vira.

Eles ganham, mas a sociedade perde.

Herói não existe. Existem funcionários públicos que são usados por chefes de Estado e superiores hierárquicos que muitas vezes agem com objetivos não muito transparentes. Agentes públicos sem plano de carreira definido, com salários defasados, condições de trabalho muitas vezes precárias e que se suicidam muito mais que cidadãos comuns. O discurso do herói é conveniente para que os responsáveis se eximam de suas responsabilidades.

Responsabilidades inclusive sobre a morte.

Nos últimos dias três grandes organizações divulgaram dados preocupantes sobre agentes de segurança pública. O Instituto Fogo Cruzado mostrou que entre 2017 e 2021, 433 agentes de segurança foram mortos, e 766 ficaram feridos no Grande Rio. A grande maioria - 335 mortos e 312 feridos - foram baleados fora de serviço. Estes dados são reiterados pelo Observatório de Segurança que também mostram que eles são maioria durante a folga e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que revela que essa é a realidade de 7 em cada 10 policiais no Brasil. Isso nos mostra que herói, só em quadrinhos mesmo. Os policiais morrem menos em ação e mais quando estão “sendo civis”. A maior parte deles é vítima de homicídios e morre em tentativa de assaltos.

No Rio de Janeiro, a suspensão de operações policiais não urgentes - medida imposta pelo Supremo Tribunal Federal e conhecida como ADPF das Favelas ou APDF 635 - poupou também a vida de agentes públicos de segurança. O número de policiais mortos chegou a cair quase 30%, mas com o desrespeito à medida, o número de vítimas voltou a subir.

No fim, o herói é palanque. E vem dando muito certo assim. Certo para quem não se importa com o sacrifício da vida dos outros.

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