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Em meio às cinzas, a ideia de um Brasil que vale a pena

Por alguns momentos, saímos do sufoco com um delírio de brasilidade nas Olimpíadas de Tóquio

Rebeca Andrade exibe a medalha de ouro, dias após fazer história com a prata.
Rebeca Andrade exibe a medalha de ouro, dias após fazer história com a prata.LOIC VENANCE / AFP

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A unanimidade pode ser burra, mas alguns minutos de consenso têm feito um bem danado aos brasileiros que madrugam para acompanhar os Jogos Olímpicos de Tóquio.

Por terra, mar e ar, as conquistas de Rebeca Andrade (ginástica artística), Ítalo Ferreira (surf) e Rayssa Leal (skate) fizeram muita gente ver um pouco o que nos liga e suspender —nem que seja durante as competições— a raiva e o ressentimento que arrastam ao terreno baldio das tretas. É um êxtase coletivo provisório, mas desafoga, descarrega, sai, zica!

Corta para a cidade de Brotas de Macaúbas, na Bahia, onde um filho ilustre da terra, o geógrafo Milton Santos (1926-2001), dá uma aula magna em praça pública: “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une”.

A barra está pesada, professor. O projeto de Governo é na linha “não verás país nenhum”. Das florestas aos acervos culturais, tudo vira fuligem e pó. Agora mesmo avisto a fumaça que restou do arquivo da Cinemateca Brasileira. Lá se foi uma memória que nos unia em tantos filmes e programas de tevê. Você lembra do Canal 100, que a gente via antes dos filmes, nas sessões de cinema? Que bonito é... Vem a trilha musical do futebol na cabeça. Já era. O fogo levou para o cemitério da era Bolsonaro.

Por isso nos apegamos, velho Milton, aos heróis improváveis de Baía Formosa (RN), Imperatriz (MA) e Guarulhos (SP), para seguir o raciocínio na companhia de Ítalo, Rayssa e Rebeca. E não se trata de pachecada —termo que vem de Pacheco, personagem do torcedor mala, pé-frio, patriota e fanático da campanha publicitária da Gillete na Copa do Mundo de 1982. A liga é a brasilidade, apesar do Brasil, este projeto oficial de estado-nação excludente, segundo os dizeres e as flechadas do historiador carioca Luiz Antonio Simas.

Poderíamos listar outros exemplos olímpicos. Esse trio, porém, representa os momentos de mais adrenalina, os palavrões do desafogo na janela, os gritos que acordaram o prédio sem broncas do síndico —ele também estava no raro consenso do coro dos contentes da madruga.

Algumas derrotas mais emblemáticas, como a eliminação da equipe feminina de futebol, no drama das penalidades, também nos emendam de alguma maneira. Parece que juntamos, coletivamente, os tais caquinhos. Doloroso ver o time de Marta e Formiga sair sem medalhas dos jogos olímpicos. Dá um aperto. Coisa que muitos brasileiros não sentimos mais diante da seleção profissional da CBF. Seja na vitória ou na derrota, como ocorreu na finalíssima da Copa América contra os argentinos.

Ao lembrar da comoção de judocas eliminadas nas competições de Tóquio, como Maria Portela, o psicanalista Christian Dunker, em seu blog, dá pistas para entender a nossa frieza com os jogadores canarinhos: “Compare isso com aquela declaração vazia e indiferente dos grandes craques de futebol que parecem estar lendo um “teleprompter” depois de uma derrota, ou pior, de uma vitória maiúscula...”.

A barra está pesada, professor. Que o desafogo do êxtase coletivo —reexperimentado nas madrugadas olímpicas— nos junte mais ainda. Quem sabe a vitória democrática na modalidade do impeachment? Não podemos desprezar essa ideia de arrebatamento. Solta o funk, DJ, que a gente acredita nos deuses e deusas que dançam.

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