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O dia seguinte de Trump

O movimento que atacou o Capitólio precisa das redes sociais para manter-se vivo e proliferar. E é nesse ponto que o mundo passa a ser um quintal da coragem de Biden-Harris para regular as redes sociais

Apoiadores de Trump acompanham seu discurso final como presidente, na base Andrews, na quarta.
Apoiadores de Trump acompanham seu discurso final como presidente, na base Andrews, na quarta.CARLOS BARRIA / Reuters

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Há esperança na política americana. A imagem de Kamala Harris no poder é um alento para quem espera novas formas de fazer política —foram as líderes mulheres mundiais que mais corretamente responderam às necessidades impostas pela pandemia de covid-19. Na lista de decretos assinados por presidente Biden no primeiro dia está o retorno dos Estados Unidos à Organização Mundial da Saúde. A lista é variada e é conhecida como “Biden bold day one”, algo como o “dia da ousadia”: vai da suspensão da construção do muro a 100 dias de desafio para uso de máscara e distanciamento social por oficiais do Governo. Há questões de política mundial e humanitária, como o retorno ao Acordo de Paris e a garantia de proteção de direitos migratórios aos dreamers, jovens indocumentados nos Estados Unidos. Tristemente, na lista ousada de Biden e Harris não esteve nenhuma pista se pretendem regular a mentira e a maldade pelas redes sociais e seus efeitos para a vida comum.

Nossa intenção não é ampliar o coro dos que criticam em dias de esperança. Houve muita coragem para o primeiro dia e há promessas de que outras perversidades do ex-presidente Trump serão revogadas em breve, como a terrível “Lei da Mordaça” (Global Gag Rule), uma política imperialista de violação dos direitos sexuais e reprodutivos de mulheres e meninas do Sul Global. No entanto, para quem vive do lado sul do império americano, há um longo dia seguinte no que Trump descreveu no último discurso público como “um movimento que estaria apenas começando”. Sabemos que movimento é esse e os episódios mais recentes de invasão à Casa Branca nos mostraram a extensão da ousadia e virulência: um contágio de ódio e ressentimento entre homens e valores da branquitude, fanatismo evangélico religioso, racismo, misoginia, homofobia, armamentismo e xenofobia.

Se há esperança na política americana de que o movimento de Trump seja controlado pelo retorno à governabilidade razoável, o mesmo não pode ser dito para os países latino-americanos onde sua fraternidade entranhou-se no poder. Não há exemplo mais perverso que o presidente Bolsonaro no Brasil, um líder que seguiu os passos de Trump no contágio do ódio e no uso das redes sociais como plataforma de desinformação, agregando-lhe tons típicos ao Sul Global, como o autoritarismo militar ou o mandonismo da casa grande. O movimento que Trump convoca no plural necessita das redes sociais para manter-se vivo e proliferar. E é nesse ponto que o mundo passa a ser um quintal da coragem de Biden-Harris para regular as redes sociais e não apenas celebrar quando as próprias empresas definem o que seria o “interesse público” para restringir ou não a publicação e circulação de informação de líderes políticos.

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Trump foi banido do Twitter depois dos ataques de 6 de janeiro. A sentença de silêncio veio depois de doze horas de castigo por incitar a multidão à desordem. A decisão de outras plataformas foi semelhante, como Facebook, Snapchat, Twitch e junto com Trump mais de 70.000 contas que divulgavam a teoria da conspiração QAnon desapareceram. Uma onda de debates teve início no espaço público sobre quem deve regular o tolerável ou não no espaço público digital? Os valores do liberalismo político de liberdade de expressão ou sinceridade das crenças moveram-se de um lado a outro da controvérsia, com vozes importantes ao debate internacional, como a chanceler Angela Merkel, expressando suas reservas ao poder de empresas privadas para regular a participação política. Merkel não questionava o conteúdo inapropriado de Trump e tampouco a responsabilidade das redes na amplificação do ódio na política —sua pergunta era sobre a quem deve caber o poder de regulação da palavra política em uma democracia: “Pode haver interferência neste direito fundamental, mas de acordo com a lei e com os marcos definidos pelos legisladores —não de acordo com a decisão de donos das plataformas de mídias sociais”.

Os dados sobre regulação internacional das redes sociais são frágeis —um levantamento de 2019 mostrou pouco mais de 40 países com alguma iniciativa de enfrentamento à desinformação, mas iam desde grupos de trabalho, campanhas ou projetos de alfabetização digital e midiática. A União Europeia, por sua vez, tem adotado um caminho de construção de consensos e adesão voluntária a códigos de conduta e políticas de controle à desinformação online. Infelizmente, não parece ser suficiente a autorregulação ou o controle pelas próprias empresas que lucram com a circulação da informação. Mesmo quando são líderes odiosos inflamando a multidão à desordem, a atuação bem-intencionada das plataformas é seletiva a quem é posto em risco: países como Mianmar, Índia, Sri Lanka, Filipinas e Brasil já viveram episódios semelhantes aos incitados por Trump, e a sentença do silêncio em nome da proteção ao “interesse público” não foi decretada. Ativistas argumentam que as plataformas tendem a levar suas próprias regras civilizatórias a sério a depender do poder dos mercados afetados: ou seja, a ética segue o lucro e não necessariamente valores democráticos para o bem comum.

Como disse presidente Biden na cerimônia de posse, “a democracia é frágil”. Como latinas, sabemos que sua fragilidade pode levar a regimes autoritários e duradouros, pois nem sempre em nossa região a “democracia prevaleceu”. Nós somos o longo dia seguinte do movimento de Trump, cujo contágio se organiza pelas redes sociais em um meio a uma pandemia. Entre os atos de coragem, o governo Biden-Harris precisa assumir que o capitalismo não se autorregula nunca, muito menos para a conformação do espaço político nas redes de modo transparente e democrático. É preciso uma articulação global entre líderes democráticos para criar uma justa regulação do ódio nas redes e impedir que o espaço público das redes não desmorone as frágeis democracias do Sul Global.

Debora Diniz é brasileira, antropóloga, pesquisadora da Universidade de Brown.

Giselle  Carino  é argentina, cientista política, diretora da IPPF/WHR.

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