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Rejeição à vacina mostra que a xenofobia contra a China chegou para ficar

Bolsonaro não será o último político brasileiro a fomentar um sentimento anti-China entre seus seguidores

Manifestante bolsonarista caminha sobre cartaz durante protesto em frente ao consulado chinês no Rio de Janeiro contra uma suposta conspiração do país asiático para espalhar a covid-19 pelo mundo
Manifestante bolsonarista caminha sobre cartaz durante protesto em frente ao consulado chinês no Rio de Janeiro contra uma suposta conspiração do país asiático para espalhar a covid-19 pelo mundoPILAR OLIVARES (Reuters)

A oposição de Jair Bolsonaro à aquisição da vacina desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, questionando a credibilidade do imunizante “pela sua origem”, simboliza a transformação irreversível da relação bilateral entre o Brasil e o gigante asiático.

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Até recentemente, a China ―o maior parceiro comercial do Brasil há mais de uma década ―vinha conseguindo evitar a politização de sua crescente presença no país. Apostando em um perfil discreto, os diplomatas chineses ficavam longe dos assuntos internos e eram hábeis em se manter fora do radar do debate público brasileiro ―uma estratégia facilitada pela constante superexposição dos Estados Unidos na discussão local.

A situação mudou em 2018, quando um político brasileiro com projeção nacional farejou a oportunidade de pintar a ascensão chinesa como uma ameaça a fim de mobilizar seus seguidores. Em março daquele ano, o então presidenciável Jair Bolsonaro visitou Taiwan e tuitou que suas recentes viagens internacionais deixaram “cada vez mais claro o norte que queremos para o nosso Brasil, algo bem diferente do que foram os governos anteriores, simpáticos a regimes comunistas (...)”. Acusou a China de querer “comprar o Brasil” e escolheu Ernesto Araújo como chanceler, que alertou para os perigos da “China maoísta” e de seus planos de dominação mundial.

A ideia de atiçar o sentimento antichinês está longe de ser inovadora: é um velho truque, usado antes mesmo do país se tornar comunista. Em 1882, por exemplo, o China Exclusion Act proibiu a imigração de cidadãos chineses para os Estados Unidos em meio a uma onda de sinofobia na Califórnia, que envolveu frequentes ataques contra os recém-chegados. Apesar de surtir pouco efeito, a medida foi popular entre americanos que temiam a concorrência de imigrantes chineses. Mais de cem anos depois, a sinofobia foi central para a vitória de Donald Trump em 2016. Na África, populistas em busca de um bicho-papão usam esse mesmo roteiro há anos. Em 2006, o candidato populista à presidência da Zâmbia Michael Sata atacou a China de maneira tão feroz que o então embaixador chinês ameaçou cortar laços diplomáticos caso ele vencesse. Em seus discursos, Sata prometia se aproximar de Taiwan e chamava os investidores chineses de “infestadores”. Ele foi derrotado em 2006, mas acabou chegando ao poder em 2011.

Nos primeiros meses do governo Bolsonaro, Hamilton Mourão e Tereza Cristina conseguiram a duras penas remendar o estrago do presidente. Juntos, o vice-presidente e a ministra da Agricultura se tornaram a Guarda Pretoriana da relação bilateral. Mas a diplomacia chinesa nunca se iludiu com a eficácia desses panos quentes. Mesmo no auge dessa aparente harmonia, quando o presidente Xi Jinping veio a Brasília para a décima-primeira cúpula dos Brics, era evidente que o bolsonarismo continuava fomentando um discurso anti-China entre seus seguidores e trabalhando para enraizar a sinofobia na política nacional.

Após as tentativas de Eduardo Bolsonaro e do então ministro da Educação Abraham Weintraub de culparem a China pela pandemia, em abril deste ano, Pequim deixou as sutilezas diplomáticas para trás e partiu para o contra-ataque. Os comentários daquelas duas figuras centrais do governo foram o primeiro passo da estratégia para eximir Bolsonaro das responsabilidades pela crise econômica que já chegou e ainda deve se aprofundar.

Em artigo para o jornal O Globo, endereçado ao filho do presidente, o cônsul-geral chinês perguntou se o deputado tinha recebido “uma lavagem cerebral dos Estados Unidos”, chamou-o de “ignorante” e ameaçou: “Se algum país insistir em ser inimigo da China, nós seremos o seu inimigo mais qualificado!”. Mais tarde, o ministro-conselheiro Qu Yuhui acusou Bolsonaro e Weintraub de terem feito “declarações irresponsáveis” relacionando seu país ao novo coronavírus e de terem jogado “gasolina na fogueira da xenofobia”.

Se os laços econômicos e políticos com os Estados Unidos já têm um longo histórico de politização, a relação com a China estava à salvo dessa interferência até pouco tempo. Enquanto acordos com Washington sempre renderam a pecha de entreguismo por parte de alguns opositores, negociar com a China costumavam representar um risco menor. O bolsonarismo encerrou essa fase. Basta lembrar do modo como Olavo de Carvalho atacou uma comitiva de parlamentares do PSL por ter visitado a sede da empresa chinesa Huawei, em janeiro de 2019. Do mesmo modo, Hamilton Mourão é rotineiramente chamado de “comunista” por bolsonaristas radicais desde que tentou salvar as relações com Pequim.

Como ocorre há muitos anos com o antiamericanismo, a sinofobia será uma ferramenta de mobilização atraente demais para que populistas a deixem de lado. Essa projeção de ameaças reais ou imaginárias complicará as decisões estratégicas que os governos brasileiros terão de tomar no futuro próximo, afetando questões práticas como a construção da rede de telecomunicação 5G.

Neste novo cenário, sempre haverá um risco político em qualquer articulação com a potência asiática. A decisão inesperada de Bolsonaro em relação à vacina é um exemplo brutal de um fenômeno que ainda deve se repetir muitas vezes.

Políticos e empresários brasileiros e chineses terão de levar essa nova realidade em consideração. A tendência trará complicações adicionais a casos como o da Embraer, por exemplo, que busca um parceiro alternativo na China após o fracasso da fusão com a Boeing. O aumento da influência econômica chinesa na América Latina e as tensões cada vez mais agudas entre Washington e Pequim devem agravar esse quadro nos próximos anos.

Em abril, Pequim aprendeu que respostas duras aos ataques do governo brasileiro dificilmente resolverão o problema. Pelo contrário: para ministros do governo brasileiro, falar mal da China tornou-se uma espécie de prova de lealdade ao bolsonarismo radical, e procurar briga com o país pode até ajudar ministros em apuros a manterem seus cargos. Assim como atacar os Estados Unidos já foi a melhor forma de galgar posições no governo chavista da Venezuela, provocar a China tem sido a primeira tentativa de figuras como Weintraub quando estão prestes a perder apoio.

Muito mais do que uma aberração, a recente politização das relações com a China é o novo normal. Esta semana, o monstro despertado por Bolsonaro pressionou o presidente pelo cancelamento da vacina. A franja lunática que compõe parte importante de sua base gostou da moda sinofóbica e já não se deixa controlar nem pelo presidente, nem pela pandemia. Mesmo se Bolsonaro optasse por parar de demonizar o país asiático, já não haveria volta.

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