Análise
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Valores antidemocráticos afetam as bases dos partidos brasileiros

Pesquisa mostra que os ataques a instituições democráticas feitos por Bolsonaro e apoiadores ampliam risco de contaminação em certas camadas da sociedade por discursos autoritários

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro protestam em Brasília no domingo, 14 de junho.
Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro protestam em Brasília no domingo, 14 de junho.SERGIO LIMA / AFP
Pedro Floriano Ribeiro / Vinícius Silva Alves

O desgaste na imagem dos partidos políticos perante a sociedade não é fenômeno novo ou exclusivo do Brasil. Nos últimos anos, a ascensão de candidatos de extrema direita ao redor do mundo, o Brasil incluso, intensificou a desconfiança das pessoas em relação a instituições democráticas, sobretudo diante dos ataques promovidos por presidentes e outros agentes políticos. Se é verdade que existem desafios à democratização dos partidos e grandes obstáculos para a maior presença e representatividade de alguns grupos, é importante reconhecer que os partidos foram e continuam sendo elementos centrais para o funcionamento e estabilidade das democracias.

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Dado esse panorama, é importante examinar como os partidos têm sido impactados pelo cenário de radicalização que vivemos no Brasil e em outros países, especialmente acentuado por influência de lideranças de extrema direita. Como os ataques a instituições democráticas, que se tornaram rotineiros com a ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência, reverberam no interior dos partidos brasileiros? Atitudes e valores abertamente antidemocráticos possuem alguma ressonância entre as pessoas que fazem o cotidiano da política no Brasil?

Uma pesquisa de opinião inédita realizada junto a filiados e dirigentes partidários buscou responder a essas e diversas outras questões. A pesquisa contou com a participação de 2.514 filiados de todos os partidos brasileiros, em todos os Estados da federação. Eles preencheram um questionário com cerca de 50 perguntas enviado por e-mail, entre março e maio de 2020. Enquanto pesquisas desse tipo são comuns nas democracias mais tradicionais, o conhecimento sobre o perfil, valores e padrões de comportamento desses indivíduos ainda é praticamente nulo no Brasil.

Na etapa experimental da pesquisa, dividimos os entrevistados aleatoriamente em dois grupos com o objetivo de investigar como os ataques às instituições democráticas são recebidos entre os filiados. Valendo-se de escalas do tipo concordo-discordo, parte dos entrevistados (grupo de controle) indicou, espontaneamente, em que medida concordava com afirmações relativas à legitimidade do STF para arbitrar conflitos políticos no país; à democracia como melhor forma de governo; e quanto à legitimidade das negociações entre o presidente da República e os partidos representados no Congresso visando a governabilidade.

Para o outro grupo de entrevistados (grupo de tratamento), apresentamos vinhetas que reproduziam declarações proferidas por Bolsonaro e seu núcleo mais próximo de apoiadores, situadas imediatamente antes das questões concordo-discordo resumidas acima. O objetivo das vinhetas era identificar como o discurso de ódio e os ataques a instituições podem influenciar a percepção e a adesão dos filiados a valores democráticos. O texto das vinhetas continha ataques ao STF, à democracia como meio mais adequado para melhorar a vida das pessoas, e uma frase que contestava negociações e coalizões entre partidos como componente legítimo da política democrática.

Os achados iniciais apontam para o impacto dessas falas radicalizadas sobre a percepção dos filiados a respeito de instituições democráticas. Em especial, a adesão à democracia como valor universal, desvinculado dos resultados de curto e médio prazo dos governos, sofre um golpe importante quando confrontada com colocações de cunho antidemocrático ―o que sugere a fragilidade de enraizamento dos valores democráticos mesmo entre aqueles que fazem o cotidiano dos partidos políticos.

Quando provocados pela afirmação de que “por vias democráticas, as transformações que o Brasil quer não acontecerão na velocidade que desejamos”, houve um aumento de 51% na proporção dos entrevistados que acreditam que a democracia nem sempre é a melhor forma de governo. Nesse cenário, a proporção de entrevistados que passam a discordar da democracia como melhor forma de governo salta de 20% para 30,3% dos filiados. Quando receberam mensagens com ataques à atuação de deputados e senadores ―acusados de cooperar com o presidente apenas em troca de recursos e cargos―, os filiados reagiram de modo inverso ao esperado, aumentando sua concordância em relação à lógica de coalizões (em 13%). O resultado sugere que os entrevistados não ignoram a necessidade de construção de pontes entre Executivo e Legislativo, e entendem a relevância que os recursos estatais (como emendas parlamentares e cargos na administração pública) possuem para o funcionamento das próprias estruturas partidárias e a sobrevivência de seus membros. A única vinheta que não apresentou efeito significativo foi a de ataques ao STF. De maneira geral, as afrontas não foram capazes de mudar a percepção espontânea dos filiados sobre a legitimidade do órgão de cúpula do Judiciário brasileiro. No entanto, vale destacar que a rejeição espontânea ao STF é relativamente alta entre os filiados, atingindo aproximadamente um terço dos entrevistados. A tabela abaixo resume esses resultados.

Com o objetivo de identificar como os ataques às instituições democráticas são recebidos entre filiados de acordo com seu posicionamento ideológico, dividimos os entrevistados em três grupos ―direita, centro e esquerda―, a partir de sua autodeclaração no questionário. Os resultados indicam que, à medida que caminhamos para a direita do espectro ideológico, elevam-se as proporções de filiados que aderem a valores antidemocráticos, questionando a legitimidade do STF, das coalizões partidárias, e da própria democracia como melhor forma de governo. Mais importante, no entanto, é a constatação de que as mensagens antidemocráticas afetam os filiados dos três grupos ideológicos.

Na tabela 2, a proporção de entrevistados que espontaneamente questionam a legitimidade do STF como elemento fundamental da democracia brasileira pode ser observada na primeira coluna (controle). A proporção dos que discordam da legitimidade do STF aumenta bastante conforme avançamos da esquerda em direção ao centro e direita. Na coluna seguinte (tratamento), é possível notar que os filiados de esquerda e direita reagem de maneiras distintas diante do ataque ao STF, sendo que os filiados de direita o repelem. Ainda assim, o percentual dos filiados que rejeitam a legitimidade democrática do órgão permanece bem maior à direita (43%), seguida do centro (33%) e, por último, dos entrevistados localizados à esquerda do espectro ideológico (25,8%).

Quando analisamos a percepção dos filiados sobre a afirmação da democracia como melhor forma de governo (tabela 3), nota-se que o ataque contido na vinheta reverbera entre os três grupos no mesmo sentido, aumentando as proporções de filiados que questionam os métodos democráticos. Os percentuais seguem o mesmo padrão ao longo da escala esquerda-centro-direita, tanto para o grupo em que realizamos a avaliação espontânea (respectivamente, 12,8%, 17,9% e 25%) quanto para o grupo que recebeu o estímulo que veicula um ataque à democracia (24,3%, 31,1% e 36,7%). Assim, os ataques afetam a adesão à democracia entre os membros dos partidos de modo generalizado.

Por fim, os filiados de esquerda são os que menos discordam da lógica de coalizões partidárias que orienta o sistema político brasileiro, com percentuais em torno de 38% nos grupos de controle e tratamento (tabela 4). De outro lado, 56,6% dos filiados de centro e 65,4% dos entrevistados de direita espontaneamente rejeitam as coalizões partidárias. Nesse quesito, é importante salientar que os entrevistados que se posicionaram ao centro e à direita não recebem bem a vinheta que acusa deputados e senadores de cooperar com o presidente apenas quando há liberação de recursos. Os dois grupos repelem o ataque, diminuindo as proporções de entrevistados que discordam da lógica de coalizões; ainda assim, as proporções permanecem elevadas, e acima da verificada para os filiados de esquerda.

Esses resultados iniciais ―principalmente os relativos à corrosão do apoio à democracia― acendem um sinal de alerta sobre os impactos da radicalização e polarização entre as bases da política no Brasil, sensivelmente influenciadas pelo conturbado ambiente político que marcou a ascensão de uma liderança de extrema direita à Presidência da República. Em um cenário de acirramento e polarização crescentes entre os Poderes e agentes políticos, no qual intervenções, rupturas e golpes passam a frequentar o cardápio cotidiano de soluções para divergências; e frente a uma severa depressão econômica que se avizinha, que tende a polarizar e a acirrar os ânimos também ao nível do eleitorado, os sinais que vêm dos partidos são preocupantes. Se filiados e dirigentes das legendas, que fazem parte de um dos esteios da democracia representativa, questionam a própria legitimidade do regime em meio a um cenário difícil, o que esperar de outros atores menos envolvidos com as instituições e práticas democráticas?

O risco de contaminação de certas camadas da sociedade por discursos autoritários existe, e não deve ser subestimado. Isso mostra a importância de cortar pela raiz qualquer tipo de flerte irresponsável com saídas autoritárias, de recusar a normalização de mensagens proto-fascistas, e de evitar a adoção de improvisos institucionais (como a mudança do sistema de governo) como ferramenta de solução de impasses de curto prazo. Nenhuma democracia é capaz de sobreviver sem estabilidade nas regras do jogo, e sem a construção de soluções negociadas entre os atores políticos responsáveis e comprometidos com a saúde das instituições democráticas.

Pedro Floriano Ribeiro é professor de Ciência Política na Universidade Federal de São Carlos, e ex-professor visitante na Universidade de Cambridge e no Kellogg Institute da Universidade de Notre Dame (EUA).

Vinícius Silva Alves é doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília, ex-pesquisador visitante na Universidade da Califórnia, San Diego (EUA), e pesquisador de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFSCar (bolsista CAPES).

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