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Pamonhas, pamonhas, pamonhas; fake news, fake news, fake news

Mais que um gabinete do ódio, a Odiobrás é uma firma de economia mista, público-privada, que sustenta o bolsonarismo

Protesto de apoiadores do Governo Bolsonaro, que culpam a China pela crise da covid-19, em frente ao Consulado chinês no Rio, em 17 de maio.
Protesto de apoiadores do Governo Bolsonaro, que culpam a China pela crise da covid-19, em frente ao Consulado chinês no Rio, em 17 de maio.PILAR OLIVARES / Reuters

O som é abafado e tem a mesma rouquidão do carro da “pamonhas, pamonhas, pamonhas, pamonhas de Piracicaba”. Em vez da iguaria de milho, porém, o alto-falante do patriota e cristão ―como o homem se define― prega o uso da cloroquina, convoca as pessoas às ruas contra o isolamento social e xinga STF, governadores, comunistas, petistas, maconheiros e vagabundos. Diante de qualquer reação, aplica um “vai pra China” em vez do clássico “vai pra Cuba”.

O carro da pamonha fascista atravessa a avenida Alfonso Bovero, do Sumarezinho à vila Pompéia (SP), umas três vezes por semana, entre 19h e 20h. Em algumas ocasiões, recebe um panelaço de troco ―e amplifica o seu ódio. Nada do que você já não tenha ouvido antes em um vídeo de uma reunião ministerial no Palácio do Planalto.

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Essa é uma versão de bairro, algo pueril, raiz, digamos assim, do esquema de negacionismo e da propagação do ódio como política de rua. Em Brasília, esse mesmo sentimento vai além de um gabinete de notória especialização em infâmias. Funciona, na prática, que me permitam a alegoria, como uma Odiobrás, uma sociedade de economia mista do ódio, com participação da máquina federal e de particulares. O elenco reunido no inquérito das Fake News revela a dimensão dessa rede formada por fascistoides avulsos, parlamentares e empresários bolsonaristas.

A Odiobrás conta também com uma linha de montagem de robôs que trabalham 24 horas com a eficiência de levantar hashtags nas redes sociais e abastecer bovinamente o WhatsApp da família brasileira com notícias falsas. E daí, qual a novidade? Zero. Tudo funciona desde sempre como o pregoeiro e o bordão pamonha, pamonha, pamonha pelos bairros da Pauliceia.

A diferença agora é que o STF, via ministro Alexandre de Moraes, e a CPI do Congresso, mesmo em ritmo de quarentena, devem fechar o cerco sobre a turma orientada pelo vereador federal Carlos Bolsonaro, acusado de Pinóquio-mor do esquema. O novo presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, também prometeu colocar em pauta no tribunal a ação que votará o pedido para cassar a chapa Bolsonaro/Mourão, o que resultaria em novas eleições diretas.

Pode ser apenas um sonho de uma noite de quarentena, mas Barroso anda com uma prosa sobre choque de iluminismo ―aquela onda da ciência e da razão, escola dos europeus do século 18. Que haja pelo menos um choque de lampiões e candeeiros, para ficar nas luzes brasileiras contra as trevas medievais dos trópicos.

Pamonhas, pamonhas, pamonhas, pamonhas de Piracicaba; mentiras, mentiras, mentiras, mentiras do gabinete do ódio. O puro creme da fake news da Odiobrás. Que me desculpe o vendedor original da deliciosa iguaria caipira, clássico desta província de Piratininga, mas o alto-falante que espalha bolsonarismo pelas ruas a essa altura me lembra muito, talvez por ter copiado o ritmo da prosódia pamonheira, o seu modo de venda.

A diferença é que a última vez que a pamonha ideológica foi bem-vendida nessa área, em 2018, o produto ainda exibia o rótulo Bolsodória colado na palha do milharal que enganou muita gente. Foi apenas uma magia eleitoreira. Passou. Todo cuidado é pouco com as pamonhas bem-embaladas.

Prefira, sempre, as de Piracicaba.

Xico Sá, escritor, jornalista, autor de “Big Jato” (editora Companhia das Letras), entre outros livros, e comentarista do programa “Redação” (Sportv).

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