Inquérito sobre fake news

PF faz busca e apreensão na casa de aliados de Bolsonaro em investigação sobre notícias falsas

Esquema, turbinado por robôs, seria seria financiado por empresários próximos ao presidente. Donos da Havan e da Smart Fit estão entre os alvos e tiveram celulares e computadores apreendidos

O blogueiro Allan dos Santos, do site 'Terça Livre', ao lado de policias federais, que cumpriram mandados de busca e apreensão em seu endereço, nesta quarta, como parte de uma ação que investiga notícias falsas, conduzida pelo STF.
O blogueiro Allan dos Santos, do site 'Terça Livre', ao lado de policias federais, que cumpriram mandados de busca e apreensão em seu endereço, nesta quarta, como parte de uma ação que investiga notícias falsas, conduzida pelo STF.ADRIANO MACHADO / Reuters

Aliados do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tiveram seus endereços vasculhados na manhã desta quarta-feira, durante uma ação da Polícia Federal, que cumpria ordens judiciais determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, como parte da investigação sobre as fake news (inquérito 4.781). Foram 29 mandados de busca e apreensão em endereços no Distrito Federal, Rio de Janeiro, em São Paulo, Mato Grosso, no Paraná e em Santa Catarina. Entre os que foram visitados por policiais federais estão o blogueiro Allan dos Santos, do site de ultradireita Terça Livre, o ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-SP), o empresário Luciano Hang, dono da Havan, e a ativista bolsonarista Sara Winter.

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Segundo a decisão proferida por Moraes, o objetivo do inquérito é investigar “notícias fraudulentas, falsas comunicações de crimes, denunciações caluniosas, ameaças e demais infrações revestidas que atingem a honorabilidade e a segurança do Supremo Tribunal Federal". A justificativa também menciona o vazamento de informações sigilosas para insinuar a prática de atos ilícitos na Corte e a verificação da existência de “esquemas de financiamento e divulgação em massa nas redes sociais, com o intuito de lesar a independência do Poder Judiciário".

O documento traz depoimentos de deputados que fizeram parte da base de apoio ao Governo mas a deixaram nos últimos meses, como Alexandre Frota e Joice Hasselmann. “Os documentos e informações juntados até o momento aos autos fornecem sérios indícios da prática de crimes”, diz o documento, mencionando os investigados Allan dos Santos, Bernardo Kuster, Sara Winter, Filipe Barros, Leandro Ruschel, Douglas Garcia e outros donos de perfis bolsonaristas, como @carteiroreaca e @Bolsoneas. Ainda são apresentados diversos posts e conversas de WhatsApp que “apontam para a real possibilidade de existência de uma associação criminosa, denominada nos depoimentos dos parlamentares como ‘Gabinete do Ódio’, dedicada a disseminação de notícias falsas, ataques ofensivos a diversas pessoas, às autoridades e às Instituições”. Carla Zambelli, Bia Kicis e Luiz Philippe de Orleans e Bragança, deputados que alegaram não terem recebido os agentes federais, devem ser ouvidos pelo inquérito nos próximos 10 dias.

A conclusão de Moraes é que o chamado “Gabinete do Ódio” está sendo financiado “aparentemente por um grupo de empresários que atuaria de maneira velada fornecendo recursos (das mais variadas formas), para os integrantes dessa organização”. Entraram, portanto, na mira da Polícia Federal os empresários Luciano Hang e Edgard Corona, proprietários respectivos de Havan e Smart Fit, como possíveis mecenas bolsonaristas das fake news e demais discursos de ódio.

Ativista bolsonarista e líder do grupo paramilitar de apoio ao Governo federal ―“Os 300 do Brasil”―, Sara Winter foi uma das primeiras a se pronunciar nas redes sociais. Ela disse que os agentes federais estiveram em sua casa por volta das 6h e levaram seu celular e notebook. “Moraes, seu covarde, você não vai me calar!”, publicou ela em referência ao ministro que conduz as investigações. Mais tarde, Winter ameaçou o ministro em vídeo chamando-o de “filha da puta” e “arrombado”, entre outros palavrões. “A gente vai infernizar a tua vida, vai descobrir os lugares que o senhor frequenta, a gente vai descobrir quem são as empregadas domésticas que trabalham para o senhor... até o senhor pedir para sair”, exclamou a ativista “pró-vida”.

Outro alvo que postou uma foto do mandado de busca e apreensão no Twitter foi o político Roberto Jefferson, que teve “computadores e armas”, segundo ele, apreendidos pela PF. “Atitude soez, covarde, canalha e intimidatória, determinada pelo mais desqualificado Ministro da Corte. CENSURA”, escreveu. Deputado federal e filho do presidente, Eduardo Bolsonaro usou um artigo publicado no jornal Gazeta do Povo para defender que o inquérito conduzido pelo STF é inconstitucional. Seu aliado em São Paulo, o deputado estadual Douglas Garcia foi um dos alvos da investigação que apura a disseminação de notícias falsas. Garcia se defendeu por meio de um vídeo publicado em suas redes, no qual diz que “esse nível de investigação apequena a Polícia Federal”.

As deputadas federais Carla Zambelli e Bia Kicis, aliadas de Bolsonaro, também usaram o Twitter para se manifestar contra o inquérito. Zambelli criticou a Polícia Federal e chamou a investigação de “ilegal e inconstitucional” um dia após elogiar a instituição e defender que não há interferência no órgão, que realizou nesta terça-feira mandados de busca e apreensão para investigar superfaturamento de equipamentos hospitalares na residência oficial do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. A deputada chegou a ser acusada de vazamento por citar a investigação um dia antes dela acontecer. Na terça, quando se referiu ao caso de Witzel, Zambelli disse que “o governador deveria se preocupar mais com o processo do que com uma deputada de baixo clero”. Nesta quarta-feira, a bolsonarista mudou o tom: “Se você aplaude a ação ilegal contra seu adversário, não adianta reclamar quando ela se voltar contra você”.

Outro deputado federal bolsonarista, Filipe Barros foi mais direto: “Vivemos a ditadura do STF. Só o povo na rua pode detê-la”, convocou o congressista que também foi um dos alvos da PF. Luciano Hang, proprietário da Havan, recebeu a visita dos agentes federais, mas adotou um tom mais ameno que outros bolsonaristas. Através de nota e vídeo, Hang se defendeu das acusações, disse que jamais atentou com fake news "contra ministros do Supremo Tribunal Federal ou contra a instituição” e “disponibilizou” celulares e computadores às autoridades.

Uma das figuras mais populares nas redes sociais da direita radical, o blogueiro Allan dos Santos, do site Terça Livre, foi um dos últimos a se manifestar sobre o mandado de busca e apreensão. “A instituição STF sofreu, hoje, seu maior ataque", escreveu ele em seu Twitter, onde também levantou a possibilidade de uma intervenção militar. “Sozinho, Alexandre de Moraes desmoralizou toda a Suprema Corte. Ou os ministros do STF param Alexandre, ou apenas o Art 142 [o que responsabiliza as forças armadas pela garantia dos poderes constitucionais] pode pará-los”. Outro que foi visitado pela Polícia Federal a mando do STF é o humorista Rey Biannchi, que ainda não se defendeu das acusações.

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