Pandemia de coronavírus
Coluna
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Melô da quarentena: Plunct Plact Zum, não vai a lugar nenhum

Toca Raul Seixas por obediência ao isolamento social, é o mínimo, até as crianças sabem, o resto é risco ou extrema necessidade

Crianças brincam nas ruas de Madri no primeiro dia em que puderam deixar suas casas durante a pandemia de coronavírus, no dia 26 de abril.
Crianças brincam nas ruas de Madri no primeiro dia em que puderam deixar suas casas durante a pandemia de coronavírus, no dia 26 de abril.©Jaime Villanueva (EL PAÍS)

“Que saudade da rua, né, meu pé”, diz Irene, 3 anos e 3 meses, no embalo do papai & mamãe que repetem memes e parodias inspirados no Dr. Dráuzio —que saudade disso e daquilo, né, minha filha.

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Irene, óbvio, com mais free jazz na alma, não tem a mesma nostalgia precoce despertada pela quarentena nos adultos da casa, é bem mais original e prática. “Quando a gente sair de novo, a bota da poça de lama ainda vai caber em mim?” , pergunta sobre a galocha vermelha, depois de uma hora de lisergia com a Peppa Pig.

Ela não calça sapato há 47 dias e sente o pé crescendo, livremente. Depois de três dias sem pisar nem mesmo no corredor do prédio, ela já havia feito da rede cearense o balanço e instalado um parque de diversões na cabeça.

Em 72 horas detestava essa ideia de saudade herdada do nosso sebastianismo atávico. Fora a vovó, fugia de qualquer conferência virtual, que saco. Até fizera uma palhaçadinha ou outra para a Maju, Lelê e Tomás, coleguinhas de escola, mas balbuciou algo como “chega de zoom, eu gosto é de me sujar na areia com eles”. Ainda sobre o mesmo assunto, pronunciou, pela primeiríssima vez, contra vento e maré, a educativa e edificante interjeição “porra”. Riu muito, acho que foi algo libertador, ficou devendo apenas o prefixo “eita” para o acento ficar um pouco mais nordestino.

O papai rasgou as cartilhas de Piaget e Montessori —nem sei se os teóricos da educação condenaram o palavrão infantil— sem culpa. Na quarentena, como diz a mamãe Larissa, em seu mantra do trancamento, só não pode fumar e beber, o resto vale. Tim Maia, paixão da Irene (“Eu só quero chocolate/ Só quero chocolate”) é o guia espiritual, sempre na vitrola.

Depois de Tim Maia, mas muito depois, só Raul Seixas do “Plunct Plact Zum/ Não vai a lugar nenhum”. E do mesmo vinil, essa faixa da Gang 90 & Absurdetes: “Estamos perdidos na mata.../ Um elefante aspira fundo,/ Uma hiena doida dá risada./ Chame, chame, chame... Tarzan/ Chame, chame, chame... Tarzan/ Chame, chame, chame... Tarzan/ Krig-Ah! Bandolo! Na Mata Vai ver que o King-Kong é macaca!”

São velhas canções, mas Irene escuta como se fossem do aqui e agora, como o tic-tac, tic-tac noite dia do Walter Franco (A Arca de Noé de Vinícius de Moraes), apenas viajando nos LPs do acervo paterno & materno. Irene só dança e sente os pés crescendo na quarentena, não alimenta esse sentimento dos nossos fados tropicais da saudade. De nada. Em um metro quadrado, ela constrói um terreno que vai da poça da Peppa Pig a uma aventura com o cachorro Carlos do livro do China que viaja de São Paulo a Pernambuco, um mundão de estrada na contramão do retirante.

E seguimos com os desenhos de Doutora Brinquedo, Charlie, Lola e Lota, simbora —pai de quarentena não tem direito à sagrada ressaca—, passando por Milly & Molly... Com soninho, dança no ombro “O filho do seu menino”, com Jair Rodrigues e Luciana Mello (sua filha), do disco “Gente Miúda II”. Óbvio que choro ouvindo essa desde o 2 de fevereiro de 2017 do seu nascimento. “Eita, na virada do tempo/ Um pai tira versos de amor...”

Teo, 12, o irmão, segura o resto da onda das brincadeiras com a irmã, nos intervalos das maratonas do Fortnite e das construções, bloco por bloco numa parede lógica, do Minecraft. O mais absoluto privilégio desse matuto que, mesmo sem sobras, pode ficar em casa com a família nessa República das desigualdades.

No WhatsApp, acompanho e tento ajudar no drama de parentes de SP e do Nordeste na fila do auxílio de emergência —quem dera virasse a renda básica universal da luta sem fim de caras como Eduardo Suplicy (PT-SP), é com propostas desse tipo que se reconstrói um país, um planeta, depois de guerras ou pandemias. Quem dera! Um zilhão do orçamento público para o SUS e o resto, mais zilhões ainda, para sustentar as famílias nas suas necessidades respaldadas pela Constituição brasileira e pelos direitos universais de ser gente.

P.S. E se foi esta semana, por decorrência do coronavírus, a bisavô de Irene, dona Sara Zylbersztajn, 93, da Lituânia para o bairro do Bom Retiro (SP), via Porto Alegre, a quem dedico esta crônica.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Big Jato” (Companhia das Letras), entre outros livros. Comentarista do programa “Redação Sportv”.

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