Tribuna
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Vida e morte da Grande Fortaleza

Por todo lado, há jovens confiantes e animados. Eles são a pulsão de vida que combate a tragédia e a morte que parece habitar cada esquina

Coletivo Carnaval no Inferno, de Fortaleza.
Coletivo Carnaval no Inferno, de Fortaleza.Camila de Almeida

Há mais ou menos 45 dias voltei a morar em Fortaleza, depois de uma temporada de 15 anos estudando e trabalhando como arquiteto e professor em São Paulo. Analista, amigos e eu mesmo comentávamos: você mudou, a cidade também, Fortaleza é outra. Gostaria de falar dessa nova cidade a partir da mescla de dois olhares. Uma Fortaleza mais pessoal relacionada ao que performo socialmente (sou branco, cisgênero, homossexual, professor efetivo na Universidade Federal do Ceará) e a cidade dos dados e relatórios oficiais, nem sempre tão explícita. Um re-conhecimento que tento processar acreditando naquilo que é bom, mas que não consegue ficar indiferente a uma série de flagelos sociais e urbanos.

Fortaleza é hoje uma cidade mais atenta às pessoas LGBTQ+. Na Prefeitura, há a Coordenadoria de Políticas para a Diversidade Sexual e o Centro de Referência Janaína Dutra, coletivo responsável, por exemplo, por grupos de estudos e levantamentos atualizados das violências sofridas por essa população. Os bairros do Benfica e a Praia dos Crush são territórios jovens de visibilidade bicha, periférica, preta, clubber e monster, com destaque para a cena noturna da rua Instituto do Ceará, um “sertão” bem mais inclusivo com o corpo transexual que o litoral. São conquistas importantes os abrigos Casa Transformar, criado pela cantora Nik Hot no Bairro do Siqueira, e o Thadeu Nascimento, voltado a homens trans, no centro.

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O Centro de Humanidades da UFC, localizado no mesmo Benfica, atrai para ali ainda vários tipos dissidentes, de imigrantes, refugiados, tardo-hippies, vegetarianos, veganos, militantes de esquerda, ciristas, artistas, cineastas, boêmios a cacuras (homens gays velhos). Por outro lado, o bairro, espécie de oásis horizontal repleto de vilas e casinhas populares do início do século XX, sofre com o aumento do barulho das festas e com a assustadora guerra das facções e do trafico de drogas que assola a cidade há algum tempo. No começo do mês o jornal Folha de São Paulo denunciou o extermínio de jovens meninas ligadas a esse duelo.

Há resistências várias no campo do urbano, como as várias ciclovias ou o movimento de luta pela manutenção da Vila Vicentina, uma quadra ameaçada pela especulação imobiliária transformada em ZEIS (Zona Especial de Interesse Social) na Aldeota, principal bairro das elites tradicionais fortalezenses. No Bom Jardim, bairro pobre e estigmatizado onde a travesti Dandara dos Santos foi morta a tiros e pedradas em 2017, há o Centro Cultural de mesmo nome, com programação de dança, teatro e pequenas exposições que, não fosse o baixo orçamento do Governo do Estado, acolheria ainda mais jovens daquela localidade. Ainda ali, com a participação da UFC, ONGs e movimentos de moradia, foi finalizado um Plano Popular para o desenvolvimento do bairro cujos desdobramentos devem se iniciar agora. A Rede Cuca, formada por pequenos centros culturais e esportivos, é outro equipamento que melhora a cidade. Depois da Barra do Ceará, Mondubim e Jangurussu, esse último um bairro pobre onde até o final dos anos 1990 funcionava um enorme lixão, o circuito vem se ampliando e a próxima área contemplada é a ZEIS do Pici, comunidade limítrofe ao principal campus da UFC. Com quinze anos de cotas, essa também mudou. É menos elitista e de melhor qualidade, com discussões cada vez mais próximas da sociedade civil.

A cidade também estabeleceu em 2018 uma Cartilha de Políticas Públicas para a População em Situação de Rua. Comparada a São Paulo, essa população em Fortaleza é bem menor, mas ela faz par imagético com um processo de decadência do bairro da Aldeota. Embora ainda seja um lugar extremamente privilegiado, não são poucos os imóveis, residenciais e comerciais, abandonados. Com pesar, é um bairro que dorme às oito da noite. Trechos enormes sem passar por outro pedestre. A causa mais provável do início desse declínio é a mudança no eixo de crescimento da cidade para o setor sudeste, com todos os elementos do new urbanism americano, modelo catastrófico de vida urbana com altos custos para as relações humanas, segurança e meio ambiente. Para completar o quadro, essa área é uma espécie de Mesopotâmia local situada entre as fozes dos Rios Cocó e Pacoti. Deveria, pois, ter ocupação mais sensível.

A privilegiada Aldeota é um bairro que, com pesar, dorme às 8 da noite

Assim como os condomínios fechados, os veículos também se multiplicaram. De 2006 para cá, eles mais que duplicaram. São mais ou menos 1,1 milhão, incluindo aí motos, carros e caminhões. Inclusão pelo consumo com um terço da população ganhando até meio salário mínimo e vivendo nas suas mais de 600 favelas, em dados ainda de 2013. Shoppings grandes e pequenos, chiques ou populares pululam, enquanto a cidade registra apenas 13,2% de suas vias urbanizadas (com presença de bueiro, calçada, pavimentação e meio-fio adequados). Ainda permanece uma visão governamental calcada na construção de grandes obras viárias e viadutos, esses alienígenas que não resolvem o problema na sua raiz e que só degradam o já sofrido espaço público. Tais obras, combinadas à valorização imobiliária e aos megaeventos como a Copa do Mundo foram importantes atores nos processos de remoção habitacional em Fortaleza. Só entre 2009 e 2017, vinte e três mil famílias foram ameaçadas ou efetivamente removidas de suas casas.

Investimentos mais pesados em transporte até vem sendo feitos, mas as obras são lentas e não acompanham a dinâmica do trabalho e do lazer na cidade. A construção do metrô nos vetores leste e sudeste já leva anos e os ramais já existentes funcionam com intervalos entre trens de mais ou menos vinte minutos. O VLT, importante articulação nodal para o sistema inteiro, resolve pouco, pois fora dos horários de pico o intervalo pode ser de até três horas. Nos domingos, inclusive, não há metrô.

O IDH teve aumento significativo em 15 anos, mas, ainda há, mesmo na cidade formal, 2.500 domicílios sem banheiro

O IDH, nesses 15 anos, teve um aumento significativo de mais ou menos 50%, mas ele não livrou a cidade de mais de 1.000 rampas de lixo que se formam nas calçadas, nem pressionou a Prefeitura o suficiente para garantir a coleta seletiva e a reciclagem dos resíduos sólidos. O mesmo bom IDH não dá conta de escancarar que ainda há, mesmo na cidade formal, 2.500 domicílios sem banheiro. Ou que a cidade é extremamente desigual, nos quesitos classe e raça. São apenas 360 pessoas negras ganhando mais de 10 salários mínimos em Fortaleza, contra 33.000 pessoas brancas na mesma situação, em uma população estimada de 2,6 milhões de habitantes.

Sei que ainda vi pouco, que preciso circular muito mais, principalmente pelos setores sul e oeste da cidade, lugares populosos e carentes, mas também cheios de jovens confiantes e animados em quem devemos apostar todas as fichas. Eles são nossa melhor matéria, a pulsão de vida que combate a tragédia e a morte que também parece habitar cada esquina.

Clevio Rabelo é arquiteto e professor adjunto do Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Design da Universidade Federal do Ceará.

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