Opinião
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A Belo Horizonte rica e planejada tampouco está a salvo das chuvas 

Capital mineira é um exemplo da ocupação que parte do pressuposto de dominação da natureza. Um dos motivos para a escolha do local era a abundância de nascentes e córregos, mas eles foram ignorados pelo projeto urbano

Chuvas inundaram bairros de Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte.
Chuvas inundaram bairros de Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte.DOUGLAS MAGNO / AFP
Roberto Andrés

As chuvas intensas deste verão resultaram em uma série de tragédias no Estado de Minas Gerais. Foram 53 mortos em 5 dias, graças a deslizamento de encostas e transbordamento de rios e córregos. É hora de oferecer amplo apoio às famílias das vítimas e àquelas que ficaram sem casa.

Evitar esses problemas no futuro demandará esforço bem maior.

O padrão histórico de formação das cidades brasileiras é de investimentos públicos nos centros urbanos e desleixo com as periferias. A expulsão da população pobre das áreas centrais faz parte da fórmula, de Pereira Passos às recentes obras para megaeventos.

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Assim, formaram-se duas cidades. De um lado, as cidades formais, construídas para a parte alta da pirâmide social, seguindo regras de zoneamento e ocupação do solo. De outro, as periferias “informais”, em que a atuação do Estado é seletiva, muitas delas instaladas em áreas de risco.

Evidentemente, a maior parte das vítimas das tragédias está na cidade informal. A Prefeitura de Belo Horizonte, nas últimas duas décadas, avançou em políticas de proteção de áreas de risco, mas as tragédias recentes mostram que ainda há muito a ser feito.

Ocorre que a cidade oficial, feita com planejamento de engenheiros e arquitetos, tampouco está a salvo. Nos centros urbanos estão grande parte dos fundos de vale onde transbordam os rios.

Belo Horizonte é um exemplo muito ilustrativo desse modo de ocupar o território que parte do pressuposto de dominação da natureza. Um dos motivos para a escolha do local da nova capital era a abundância de nascentes e córregos, mas eles foram ignorados pelo projeto urbano.

O traçado geométrico das ruas fez dos cursos d’agua seres alienígenas, que passavam pelo meio dos lotes, expondo as moradias às enchentes. O desmatamento das cabeceiras desprotegidas minou nascentes que pouco antes eram fartas.

O resultado é que, 10 anos após a inauguração, já começava a faltar água na desabitada capital mineira. Córregos que corriam limpos e com peixes no antigo arraial estavam poluídos.

Longos debates travaram os engenheiros da comissão construtora sobre o sistema de esgoto, para, ao final, optarem pela separação das águas fluviais e do esgoto. Decisão inócua, pois na pressa da inauguração, os esgotos foram jogados nos cursos d’água mesmo, o que ocorre até hoje em boa parte da cidade.

Estas histórias são contadas em detalhe no livro Rios Invisíveis da Metrópole Mineira, de Alessandro Borsagli, para quem Belo Horizonte não se origina de um plano urbano, mas político. E a relação do poder público com as águas também, sempre obedecendo à lógica das inaugurações apressadas, da ausência de um pensamento sistêmico e da repetição de erros de longo prazo que oferecem sucesso no curto prazo.

O livro evidencia que as supostas soluções para os “problemas das águas urbanas” nunca solucionaram nada – ao contrário, agravaram os problemas. A canalização dos córregos impede a absorção da água pelo solo e acelera a chegada nos fundos dos vales. A cada nova administração, a promessa de uma nova obra era sucedida por uma enchente maior e mais danosa.

O caso de Belo Horizonte não é exceção. Ao contrário, apenas explicita um paradigma de ocupação do território que ignora os elementos naturais e inviabiliza em longo prazo a vida em diálogo com eles. Ao fim das contas, trata-se de uma versão microterritorial do stress dos limites planetários.

Com o aquecimento global, eventos climáticos extremos como os desta semana serão cada vez mais recorrentes. As cidades estão nas duas pontas: nelas são geradas a maior parte das emissões e nelas são sentidas a maior parte dos efeitos da crise climática. A mudança de paradigma é para anteontem.

Roberto Andrés é arquiteto e urbanista, professor na UFMG e editor da revista Piseagrama. Atualmente é doutorando na USP e revisor do Journal of Public Spaces.

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