A década em que as mulheres tomaram as ruas das metrópoles brasileiras

As mulheres brasileiras da década de 1950 conquistaram o espaço público, mas continuavam a ser vistas como as responsáveis pelos cuidados com seus lares

Cena de 'Coisa mais linda', série brasileira da Netflix.
Cena de 'Coisa mais linda', série brasileira da Netflix.Divulgação

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Em março, estreou na Netflix a série brasileira Coisa mais linda com uma trama que gira em torno de quatro mulheres na cidade do Rio de Janeiro: Malu, Adélia, Thereza e Lígia. Não são quaisquer mulheres, nem qualquer cidade. Mas quatro personagens que tentam fugir dos padrões e estereótipos do que se espera para uma mulher no lugar que era ainda a capital federal. Este texto não se trata de uma crítica à produção artística, mas um exercício de, por meio dela, abordar questões históricas que tem efeitos políticos contemporâneos: os limites da liberdade feminina em meados do século passado. Dentro do quadro político atual, onde se restringem as cores dos gêneros, as atribuições de mulheres e homens no campo profissional e os papéis dos membros das famílias, a série tem a qualidade de nos lembrar a condição a que as mulheres estavam submetidas há um pouco mais de cinquenta anos. Com poucas escolhas de vida, reprimidas em padrões de moral e comportamentos que se repetiam há várias gerações, sujeitas à agressões físicas, humilhações e abandonos no caso de buscarem alternativas.

A narrativa se passa em 1959, momento da construção de Brasília, quando a Bossa Nova estava ganhando os lares e os bares do mundo e um otimismo pairava no ar. Nesse momento, a ideia sobre modernidade estava presente com frequência no cotidiano. Especificamente a arquitetura moderna brasileira ganhava as capas de revistas e transformava a paisagem urbana. Mas o que dizer das mulheres modernas ou as novas mulheres que também ganhavam as ruas das cidades neste período?

O termo “nova mulher” (new woman) surge nos Estados Unidos e representa aquelas inseridas neste contexto de intensas transformações. Cunhado no século XIX, ressurgiu na década de 1920 associado à ideia de modernidade e de liberdade, refletido e divulgado pelas propagandas e pelo cinema norte-americano. Elas são resultado de novas oportunidades de escolarização e aumento do número de mulheres nos ambientes de trabalho e na esfera pública das metrópoles. A expressão se desloca para a Europa, ganhando força especialmente na Alemanha de Weimar, onde essa nova mulher representa o novo espírito da época. Ela educa-se, profissionaliza-se e ocupa o espaço público em busca de lazer, arte e cultura. Ela tenta conquistar sua liberdade sexual e tem consciência do seu corpo, que se apresenta mais de acordo com os ideais do esporte e inventa moda com seus cabelos curtos e vestidos menos cinturados.

No Brasil, segundo o historiador Nicolau Sevcenko, “o vocábulo ‘moderno’ vai condensando assim conotações que se sobrepõem em camadas sucessivas e cumulativas, as quais lhe dão uma força expressiva ímpar, muito intensificada por esses três amplos contextos: a revolução tecnológica, a passagem do século e o pós-guerra”. É neste momento que as novidades invadiram o cotidiano das pessoas, seja por intermédio de aparatos tecnológicos (televisão, geladeira, aspirador em pó, entre outros) ou novos hábitos (ida ao cinema e às galerias de arte, práticas de esportes). Enquanto crônicas, colunas de aconselhamento e anúncios em diversos periódicos reforçam a expressão “mulher moderna” que vem relacionado diretamente à liberdade feminina.

Diversas autoras (Margareth Rago, Maria Odila Dias, Carmen Rial, entre outras) apontam que nos anos 1930 as mulheres das camadas médias e altas começam a ganhar as ruas, espaço que desde o século XIX era restrito às operárias que precisavam se deslocar para as fábricas ou às mulheres que tinham empregos informais, como empregadas domésticas, lavadeiras, doceiras, floristas, artistas ou meretrizes. No fim do dia, as ruas das metrópoles brasileiras são tomadas pela multidão agora marcada pela presença feminina que se desloca em busca de lazer e de serviços, como também de cursos de formação e trabalhos assalariados. Essas mulheres reivindicam não somente a possibilidade de circular pela cidade, mas também desejam o aumento das possibilidades de capacitação profissional, melhor remuneração e acesso à educação de qualidade, ideias apresentadas na série.

As mulheres brasileiras de meados do século XX conquistam o espaço público, elas trabalhavam, circulavam pelas calçadas, praças e galerias da região central, mas continuavam a ser vistas como as responsáveis pelos cuidados com a família e com seus lares. Uma pesquisa sobre o termo “mulher moderna” nos anúncios e nas crônicas do jornal O Estado de S.Paulo entre as décadas de 1930 e 1960 aponta a dicotomia entre atividades domésticas e a formação dessas mulheres. Os textos reforçam que a opção por ser solteira ou por não ter filhos está associada à infelicidade e degradação da vida moderna. Assim como o excesso de liberdade pode afastar daquilo que se considerava escolhas mais saudáveis e seguras para as mulheres.

Se o sociólogo Marshall Berman afirma que a modernidade ameaça destruir os padrões existentes, no caso da mulher moderna brasileira, a ideia de um modo de vida novo, sedutor e perigoso não atinge o ambiente doméstico, onde as transformações se restringem aos modelos construtivos e aparatos tecnológicos, deixando a mulher ainda com pouca liberdade ou novidade em relação às rotinas domésticas e às obrigações familiares. A mesma “mulher moderna” que se interessa pelos lançamentos do cinema, por passear ou por buscar emprego nos novos edifícios é frequentemente informada que deve focar suas atenções para os cuidados do lar. Nesse ambiente, estaria sua segurança e sua realização para exercer sua verdadeira vocação, a de dona de casa.

Entre Malus e Adelias, mulheres que lutam para ter a opção de trabalhar ou para sobreviver, ainda há muito a ser enfrentado. Episódios de assédios e machismos são cotidianos na vida das mulheres fora das novelas e séries. Especialmente nas classes mais baixas, a vida exige uma dinâmica com as atividades e turnos que sacrificam momentos de lazer e cuidados com a saúde em nome de jornadas longas de trabalho para o sustento da família e cuidado dos filhos. Assim, mostra-se importante lembrar das conquistas realizadas para saber que não foram fáceis, nem irrelevantes, e que se corre o risco de perdê-las. A força que as vozes femininas nas ruas assumiram nos últimos tempos aponta para uma resistência aos retrocessos das nossas conquistas, no entanto, a luta pelos direitos de liberdade e de escolha se mostra cotidianamente necessária, uma vez que só a passagem do tempo não garante sua permanência.

Sabrina Fontenele é arquiteta e urbanista, doutora pela FAU-USP, pós-doutora pela Unicamp com pesquisa sobre gênero, arquitetura moderna e preservação.