Partido Comunista chinês eleva Xi Jinping à estatura de Mao Tsé-Tung e garante líder no poder pelo menos até 2027

Atual dirigente conseguiu “feitos históricos” e transformou o país “em uma nação forte”, segundo a resolução do Comitê Central, que também o comparou a Deng Xiaoping

O presidente da China, Xi Jinping, participa da Sexta Plenária do Comitê Central do Partido Comunista, encerrada nesta quinta-feira em Pequim.
O presidente da China, Xi Jinping, participa da Sexta Plenária do Comitê Central do Partido Comunista, encerrada nesta quinta-feira em Pequim.Xie Huanch (Europa Press)

XI Jinping já entrou oficialmente para a história e se garante por tempo indeterminado como o máximo líder chinês. É o que diz uma resolução do Partido Comunista da China (PCC) aprovada nesta quinta-feira na sexta reunião plenária do seu Comitê Central e que o situou no mesmo nível que os dois grandes líderes do passado da República Popular, Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping. O documento anuncia o início de uma nova era de feitos e grandeza. A mensagem é que, se Mao fundou a República Popular e Deng a tornou próspera, Xi a fará forte e gloriosa.

A resolução encerra quatro dias de reuniões dos quase 370 membros (entre permanentes e suplentes) do Comitê Central, o órgão equivalente ao Parlamento do PCC, em um hotel da zona noroeste de Pequim. É o penúltimo encontro, e o mais importante, antes do 20º Congresso do partido, previsto para outubro ou novembro do ano que vem, no qual ele deve ser confirmado como presidente da China pelo menos durante os cinco anos seguintes, até 2027, e possivelmente mais. A julgar pelo tom do comunicado oficial da reunião, distribuído pela agência estatal Xinhua, não há hipótese de que Xi não seja reencaminhado para mais um mandato.

Os últimos 100 anos da China —justamente o século de existência do partido— foram “a época mais magnífica na história da nação chinesa em milhares de anos”, afirma a resolução aprovada nesta quinta-feira. Uma glória similar, dá a entender o texto, chegará durante a nova era de Xi. Sob o comando do secretário-geral do partido, chefe de Estado e presidente da Comissão Militar Central, a China obteve “feitos históricos e passou por uma transformação histórica”. Primeiro com Mao, depois com Deng, e agora graças a Xi, o país conseguiu “a imensa transformação de ficar de pé, tornar-se próspero e virar uma nação forte”, afirma o comunicado, o primeiro resumo oficial. O conteúdo da resolução completa será divulgado em entrevista coletiva nesta sexta-feira.

“Essência” e “núcleo”

Xi “apresentou uma série de ideias, pensamentos e estratégias novas e originais sobre a governança nacional, em torno das principais questões dos nossos tempos”, declara o comunicado oficial. Sua ideologia é parte da “essência” cultural do país; o presidente da nação e “núcleo” do partido também demonstra “grande coragem política e um grande senso de responsabilidade”, acrescenta o texto. Ao todo, o nome do presidente é mencionado em 17 ocasiões; Mao, o Grande Timoneiro e líder por excelência na história recente a China, é mencionado 7 vezes. Deng Xiaoping, o homem que estabeleceu as bases para a modernização do país, 5. Os predecessores imediatos de Xi, Jiang Zemin e Hu Jintao, são citados apenas uma vez.

Segundo a tradição criada nas três últimas décadas, o atual presidente deveria se afastar do cargo durante o Congresso do próximo ano, após cumprir dois mandatos de cinco anos. Se essa tradição fosse seguida, ele deveria transmitir seus cargos a um sucessor que estaria sendo formado à sua sombra. Mas nos círculos próximos ao presidente não há nenhum herdeiro aparente, e desde o Congresso anterior, em 2017, Xi foi dando passos para se manter à frente do país. Isso incluiu a abolição formal, naquela reunião, dos limites de mandatos à frente da chefia de Estado.

“O Comitê Central convoca todo o partido, todo o Exército e as pessoas de todos os grupos étnicos a se unirem ao redor do Comitê Central com o camarada Xi Jinping como seu núcleo, para pôr em marcha a nova era de socialismo com características chinesas”, afirma o texto. “Estamos convencidos de que o Partido Comunista e o povo chinês ampliarão as grandes glórias e vitórias dos últimos cem anos com glórias e vitórias ainda maiores na nova jornada que nos espera na nova era”, conclui o comunicado, de 15 páginas.

A resolução sobre os “grandes feitos e a experiência histórica da centenária luta do partido” é apenas a terceira nos 100 anos de história do PCC. A autoridade que este tipo de documentos tem dentro da hierarquia comunista é máxima, e seu conteúdo tem quase caráter de escritura sagrada. Apenas Mao, que a utilizou para neutralizar seus rivais na liderança do partido, e Deng, que com a sua declaração deu por encerrada a era maoísta, tinham conseguido aprovar uma declaração deste tipo até agora.

Como a nova resolução eleva Xi Jinping a um patamar mais elevado, o atual líder fica protegido de futuras críticas de possíveis rivais ou sucessores. Suas ideias ficaram consagradas como parte da narrativa e ideologia oficial do partido. O documento “será uma ferramenta importante para que Xi rebata seus críticos e qualquer possível oponente que possa pôr em dúvida sua autoridade e suas políticas”, observa Valarie Tan, do think tank Merics.

"Campanha eleitoral" até o ano que vem

A reunião encerrada nesta quinta-feira abre agora um período similar ao de uma campanha eleitoral em que, nos bastidores, os dirigentes do PCC começarão a se posicionar para o Congresso do ano que vem. Nessa reunião quinquenal, será nomeado não só o líder dos próximos cinco anos –que previsivelmente será o mesmo dos últimos 10– como também se renovará o Comitê Permanente, máximo órgão de direção dentro do PCC e atualmente com sete membros, o Politburo, de 25 membros, e o próprio Comitê Central.
Os desafios dessa nova legislatura não serão poucos. A China da nova era de Xi Jinping deverá enfrentar um crescimento econômico menor, um envelhecimento galopante da população e uma rivalidade crescente com os Estados Unidos. Também deverá decidir como resolver as atuais tensões com Taiwan, a ilha autogovernada que considera ser parte do seu território, e o futuro de Hong Kong, entre outras questões.

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