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Achada vala comum com 150 civis assassinados no terceiro dia da Guerra Civil Espanhola

Partidários de Franco fuzilaram 400 pessoas nessa aldeia de Aragão, em grupos de 20, conforme reconheceu um miliciano detido pelos republicanos em 1937

Uma equipe arqueológica trabalha há um mês na vala comum achada no cemitério de Belchite, no norte da Espanha.
Uma equipe arqueológica trabalha há um mês na vala comum achada no cemitério de Belchite, no norte da Espanha.Carlos Gil-Roig
Vicente G. Olaya

Um rio chamado Aguasvivas passa, ironicamente, bem perto do lugar onde se ocultam as mortes mais cruéis. A Associação Mariano Castillo Carrasco promoveu a abertura das valas comuns onde estavam sepultadas pelo menos 150 pessoas fuziladas no cemitério de Belchite (região de Aragão, norte da Espanha) em 20 de julho de 1936, entre as 22h e 0h, pelas mãos de uma centena de membros locais da Falange, a milícia de inspiração fascista que lutou contra a República na Guerra Civil Espanhola (1936-39). O horror provocado pelo massacre – calcula-se que haja outros 200 corpos nos muros externos do cemitério – levou as próprias tropas franquistas, ao retomarem o município ao final da guerra, a se escandalizarem com atos tão desumanos. Os primeiros corpos achados, a poucos centímetros da superfície, são de homens e mulheres indistintamente, todos descalços e alguns, inclusive, com os pés e as mãos atados às costas. A maioria apresenta perfurações de bala no crânio. Junto com seus restos mortais, pequenos objetos da vida cotidiana como botões, fivelas e até um humilde lápis. “Desconhecemos a extensão da vala, mas as duas prospecções que fizemos [separadas por 20 metros] deixam ver a poucos centímetros da terra os ossos dos executados. As testemunhas de tudo aquilo disseram a verdade”, afirma o arqueólogo Gonzalo García Vegas, codiretor das escavações.

Dois dias depois do golpe de Estado de 18 de julho de 1936, tropas falangistas entraram em Belchite e depuseram o prefeito da localidade, o socialista Mariano Castillo, além de deter sua esposa e seu filho. Castillo se suicidou na cela onde foi encarcerado, mas essa decisão desesperada não evitou que seus dois familiares fossem fuzilados sem piedade. Entretanto, não foram as últimas vítimas inocentes.

Um ano depois, em agosto de 1937, os republicanos atacaram este município, então com 3.800 habitantes, na sua tentativa de cercar Zaragoza, que fica perto daqui. Por isso foram travados duríssimos combates que terminaram na destruição total do povoado. Lutou-se rua a rua, casa a casa, porta a porta. Atualmente há um itinerário chamado Rastros da Guerra Civil que indica as trincheiras, refúgios e construções militares, tanto de ataque como de defesa, desta batalha que se prolongou por 13 dias e terminou com a tomada da localidade pelos republicanos.

Um dos cadáveres que aparecem com os pés e as mãos atados às costas.
Um dos cadáveres que aparecem com os pés e as mãos atados às costas. Carlos Gil-Roig

Em um dos combates, Constantino Lafoz Garcés, um camponês de 35 anos que se filiou à Falange no mesmo dia em que a milícia entrou no povoado, foi detido pelos partidários da República e interrogado em 7 de setembro de 1937. Seu depoimento, guardado no Arquivo Geral de Simancas, é horripilante. Informa que 200 pessoas foram fuziladas no interior do cemitério – e outras 200 fora dele –, todos civis, sendo que ele mesmo matou 50 homens e cinco mulheres, conforme lhe ordenaram os chefes da Falange. Lafoz detalhou que as tropas que defendiam o vilarejo incluíam 100 falangistas, 150 membros da Ação Cidadã e uma centena de requetés, como eram conhecidos os integrantes de uma milícia ultraconservadora que atuava no período. Seus chefes se chamavam Miguel Salas, don Antonio (tabelião imobiliário) e o requeté Narciso Garreta.

Acabada a guerra, e após a destruição completa do povoado, o ditador Francisco Franco ordenou que, em vez de reconstruí-lo, outra vila fosse erguida ao lado. Um manto de silêncio cobriu assim a localidade durante a ditadura. Os recursos do projeto Memória Democrática, com contribuições do Executivo nacional, da Secretaria de Estado da Memória Democrática e do Governo de Aragão, serviram para que há um mês a equipe do antropólogo forense Ignacio Lorenzo Lizalde, os arqueólogos Hugo Chautón, Gonzalo García Vegas, Sergio Ibarz, a restauradora Eva Sanmartín e um grupo de colaboradores tentem recuperar os corpos dos assassinados.

Portão do cemitério de Belchite, onde foi achada a vala comum.
Portão do cemitério de Belchite, onde foi achada a vala comum. Carlos Gil-Roig

“Quase todas as vítimas do massacre eram moradores de Belchite ou de algum povoado próximo”, explica o codiretor Hugo Chautón. “Por isso, sob a coordenação de Ignacio Lorenzo, serão feitos exames de DNA nas vítimas exumadas, para comparar com seus familiares vivos e incorporá-las à base de dados do Governo de Aragão. Assim poderemos determinar quem era quem.”

A escavação arqueológica em curso atualmente ocupa 80 metros quadrados e é adjacente à zona de nichos, embora haja outra menor, a 20 metros de distância. Ao abrir a terra foi achada, a menos de meio metro de profundidade, uma dúzia de corpos humanos, alguns dos quais presos nos tijolos dos nichos, já que esta parte do cemitério é posterior à chacina. Não se sabe se sob estes corpos entrelaçados há outros, mas não se descarta.

Um dos restos, pertencente a um homem de mais de 1,80 metro, apareceu de barriga para baixo, com mãos e pés amarrados às costas. “Possivelmente”, explica García Vegas, “por sua grande corpulência, resistiu mais e o amarraram antes de assassiná-lo. Jogaram-no à vala sem contemplações.”

E quem eram? O depoimento de Constantino Lafoz não deixa lugar a dúvidas. Cita nomes e apelidos das vítimas e relata que fuzilaram, em grupos de 20 pessoas, os irmãos Sargantana, o Funileiro, o Capataz, o Sapateiro, o Sopa, Carruela, Simón Pedro Juan e a uma filha dele, a Pascualota, e as Bonecas... Antes, segundo Lafoz, foram açoitados “para arrancar declarações deles”.

Em 1940, Franco decidiu não reconstruir no mesmo lugar o devastado povoadode Belchite, deixando as ruínas como mostra da coragem dos seus defensores. Morreram mais de 2.000 soldados do lado franquista, dos 7.000 que resistiam no povoado, e 2.500 invasores republicanos, em um exército composto por 25.000 soldados. O número de moradores da localidade caiu de cerca de 3.500 antes da guerra para menos da metade. “Eu lhes juro que sobre estas ruínas de Belchite se edificará uma cidade bonita e ampla, como homenagem ao seu heroísmo sem igual”, afirmou o ditador. O que se esqueceu, entretanto, foi de mencionar que sob a terra do cemitério, assim como junto a seus muros, amontoados, se ocultavam ignominiosamente os restos de centenas de inocentes, muito perto do rio Aguasvivas.

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