julgamentos de Nuremberg
Tribuna
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As vozes anônimas dos processos de Nuremberg, que condenaram nazistas

Sem as pessoas que atuaram como intérpretes naquele tribunal militar, todo o julgamento teria durado pelo menos três anos. É por isso que Göring, um dos artífices do Reich, disse: “os intérpretes estão encurtando nossas vidas”

Os julgamentos de Nuremberg na sessão de 30 de setembro de 1946. A partir da esquerda, Hermann Göring (com óculos pretos), Rudolf Hess, Joachim von Ribbentrop, Wilhelm Keitel, Ernst Kaltelbruner e Alfred Rosenberg
Os julgamentos de Nuremberg na sessão de 30 de setembro de 1946. A partir da esquerda, Hermann Göring (com óculos pretos), Rudolf Hess, Joachim von Ribbentrop, Wilhelm Keitel, Ernst Kaltelbruner e Alfred RosenbergFred Ramage (Getty Images)
JESÚS BAIGORRI JALÓN

Neste dia 1º de outubro de 2021 completa-se o 75º aniversário da leitura das sentenças dos criminosos de guerra nazistas nos Julgamentos de Nuremberg, que ocorreram ao longo dos dez meses que duraram as sessões do Tribunal Militar Internacional, organizado pelos países aliados, vencedores da guerra. Os julgamentos contra muitos outros criminosos nazistas continuariam por vários anos em casos específicos que levaram a processos de juízes, médicos..., mas o efeito principal daquela justiça criminal internacional inusitada já havia ocorrido então em tempo realmente recorde, se considerarmos o enorme quantidade de documentos que precisaram ser fornecidos, o desdobramento das audiências orais e as deliberações entre juízes e promotores de diferentes países (Estados Unidos, Reino Unido, União Soviética e França), como também de diferentes tradições jurídicas (a do direito romano, em vigor no continente europeu, incluindo no país a que pertenciam os processados), e a do direito dos países anglo-saxões.

Um fator que imediatamente salta à vista e que se refletiu em parte em filmes como Julgamento em Nuremberg (Stanley Kramer, 1961) é que os acusados e os representantes das potências aliadas falavam idiomas diferentes e não podiam entender-se diretamente, muito menos deliberar sobre questões criminais intrincadas em torno de conceitos jurídicos e jurisdicionais que iam sendo definidos durante o desdobramento do processo. Por isso, quero destacar aqui o papel desempenhado pelos homens e mulheres que atuaram como intérpretes nesse processo, sem os quais a compreensão linguística não teria sido possível.

Betty Stark, secretária do coronel Telford Taylor, com um dos aparelhos para ouvir a tradução das sessões de julgamento.
Betty Stark, secretária do coronel Telford Taylor, com um dos aparelhos para ouvir a tradução das sessões de julgamento. ARCHIVO BETTMANN (Bettmann Archive)

Três foram os principais desafios enfrentados por essas pessoas, geralmente esquecidas nos livros de história, que serviram de elos linguísticos e culturais, trabalhando pela primeira vez nessa escala como intérpretes de forma simultânea. O primeiro desafio foi o dos conhecimentos linguísticos e culturais suficientes para traduzir a complexa terminologia, com equivalências difíceis, senão impossíveis, em um ambiente tão imponente como um tribunal militar, em meio aos destroços ainda fumegantes da guerra. Essa complexidade às vezes decorria de uma questão tão simples como ter em mente que, conforme recomendado pelo supervisor dos intérpretes, Ernst Peter Uiberall, a palavra “ja” em alemão não deveria ser imediatamente traduzida por “sim” nas outras três línguas (inglês, francês e russo), em resposta a uma pergunta da promotoria, porque os interrogados usavam essa expressão para dar a entender que tinham compreendido o que lhes era perguntado, não para declarar a sua culpabilidade no tema que o procurador da vez os questionava.

Uma coisa era conhecer muito bem os idiomas —cada intérprete normalmente trabalhava apenas entre duas línguas, não mais— e outra era estar à altura de entender registros muito diferentes, que podiam oscilar de raciocínios jurídicos tortuosos construídos em um a linguagem rebuscada a expressões grosseiras de um chefe de campo de concentração. Também às vezes era complicado decifrar sotaques muito distantes dos usados nas escolas, como aconteceu com a intérprete Marie-France Skuncke ao não entender a pronúncia do juiz britânico Lawrence quando ele disse em latim “Tu quoque, fili mi?” (“Você também, meu filho?”).

O segundo desafio derivava de um dos princípios básicos da profissão de intérprete tal como é entendida hoje —para cuja definição e posterior consolidação o processo de Nuremberg contribuiu de modo decisivo—, ou seja, a neutralidade na transmissão oral das intervenções ou de textos que eram traduzidos no exato momento de sua apresentação. Não era fácil interpretar em meio à tensão que se respirava naquele palácio da justiça, não só entre os réus (amparados por seus advogados) e os promotores ou juízes das potências que acabavam de travar a guerra contra eles, como também entre os aliados, entre os quais já se sentia o despontar do espectro da Guerra Fria.

Os intérpretes soviéticos prestavam contas diretamente a suas autoridades, e qualquer deslize que comprometesse a ortodoxia stalinista poderia ter graves consequências para quem o cometesse. No grupo de intérpretes dos aliados havia pessoas, como Peter Less e Armand Jacoubovitch, que haviam perdido boa parte de sua família por culpa dos acusados, cujas palavras tinham que traduzir oralmente. A intérprete Genia Rosoff havia deixado fazia pouco tempo o campo de concentração de Ravensbrück. Manter a integridade e o equilíbrio diante dos responsáveis pelas atrocidades que tão brutalmente transtornaram suas vidas não estava ao alcance de todos que assumiram aquela tarefa. E nem todos conseguiram aguentar essa prova.

O terceiro desafio era o da preparação profissional, que incluía a prática de traduzir oralmente entre idiomas e também fazer isso na modalidade simultânea. Muito poucos dos que atuaram como intérpretes tinham formação para isso. É verdade que alguns acabavam de passar pela Escola de Tradutores e Intérpretes de Genebra, onde então era ministrada apenas a interpretação consecutiva, modalidade dominante nas instituições com sede nessa cidade, na Liga das Nações e na Organização Internacional do Trabalho. Mas havia ainda menos intérpretes com alguma experiência de interpretação e quase nenhum havia praticado a modalidade simultânea. Foi o coronel franco-norte-americano Léon Dostert quem convenceu o promotor Jackson, dos EUA, de que o experimento da simultânea iria funcionar. Isso permitiria processar o mais rapidamente possível os acusados, sempre obedecendo o devido processo, para que a ação judicial tivesse uma eficácia que teria sido bem reduzida se tivessem feito a opção pela modalidade consecutiva, ou seja, a de interpretar os discursos de modo sucessivo, e não simultâneo.

Quando Göring disse que os intérpretes estavam encurtando sua vida, sabia o que estava dizendo porque, se o processo tivesse ocorrido pela consecutiva, teria durado pelo menos três anos e não os 10 meses que durou. O experimento requereu a montagem de equipamentos de som e a contratação, contra o relógio, de intérpretes capazes de trabalhar naquele ambiente tão pesado, de forma simultânea e sob os holofotes de todos os usuários de seus serviços, que incluíam não apenas os participantes diretos do processo —réus, defesa, promotoria, testemunhas, juízes, estenógrafos, técnicos ...—, como também a opinião pública internacional, que acompanhava por meio de correspondentes e noticiários dos julgamentos: milhões de pessoas ouviram as sentenças proferidas pelo Juiz Lawrence em inglês, mas os destinatários delas as escutaram em alemão na voz do intérprete Wolfe Frank, que em 1937 teve que fugir da Alemanha, daqueles cujas condenações estava pronunciando.

Ernst Peter Uiberall me disse há quase 25 anos: “Sem nós o processo não teria sido possível e, no entanto, praticamente não somos citados nas atas nem nas publicações sobre o processo”. Aqui, quis mencioná-los para que não esqueçam que o marco que Nuremberg representou na história da justiça penal internacional não poderia ter ocorrido sem a participação daqueles e daquelas intérpretes.

Jesús Baigorri Jalón é um ex-intérprete das Nações Unidas e autor do livro La interpretación de conferencias: el nacimiento de una profesión. De París a Nuremberg’ (Editora Comares).

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