O drama depois da lava do vulcão nas Canárias: “É muito duro, as casas somem diante dos nossos olhos”

Autoridades da ilha de La Palma e dos dois municípios espanhóis mais afetados trabalham para mitigar os efeitos de uma erupção que já engoliu quase 200 moradias

Moradora da localidade de Todoque recolhe alguns pertences da sua casa ao ser desalojada pela erupção do vulcão. Em vídeo, os moradores do Todoque fogem da lava.ARTURO RODRÍGUEZ / VÍDEO: EPV
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“A situação é demais… Isto é muito grave, muito, muito duro.” A prefeita de Los Llanos de Aridane, na Espanha, viu nesta terça-feira como a língua de lava do vulcão Cumbre Vieja, que entrou em erupção no domingo, penetrava na localidade de Todoque (1.300 habitantes) em seu lento e inexorável avanço em direção ao mar. “Estamos sobrecarregados”, disse a prefeita. À tarde a situação piorou e a chuva de cinza se intensificou em todo o município. Ao fundo, sempre presentes, as contínuas deflagrações e o rugido do vulcão.

“A situação é de zona catastrófica no Vale de Aridane”, confirma o presidente do Cabildo (administração insular), Mariano Hernández Zapata. “É muito duro, muito complexo o que estamos vivendo, as casas literalmente somem diante dos nossos olhos.” E afirma: “Estamos profundamente angustiados, impotentes perante o que está acontecendo”.

Os desalojamentos se tornaram uma situação comum em boa parte das localidades de Llanos de Aridane, por cujo território corre um rio de lava que ameaça moradias e comércios. A inquietação também continua em El Paso, onde a erupção aconteceu. “Vivemos em um nervosismo contínuo”, afirma um grupo de moradores do município, reunidos no campo de futebol —um terreno que no domingo passado serviu para concentrar os primeiros desabrigados, e que agora é usado como centro de distribuição de alimentos às vítimas.

Sergio Rodríguez, prefeito de El Paso, no campo de futebol dessa localidade, na ilha de La Palma.
Sergio Rodríguez, prefeito de El Paso, no campo de futebol dessa localidade, na ilha de La Palma. Samuel Sánchez

O prefeito Sergio Rodríguez descreve a incerteza de seus moradores. “O vulcão continua lançando material, a lava continua se expandindo, e por isso é impossível fazer um diagnóstico. Hoje mesmo já não vi uma casa que ontem ainda estava de pé.” Ao todo, calcula Rodríguez, o número de casas devoradas pelo vulcão chega a quase 200, e o presidente do Cabildo não descarta que a cifra final suba a meio milhar quando a lava chegar ao mar.

A desocupação de Todoque foi a mais chamativa ao longo da terça-feira. Mas não a única. As ruas cortadas se multiplicam em povoados de toda a ilha, com a Polícia Nacional, a Guarda Civil e agentes municipais controlando todos os acessos.

No final da tarde desta terça-feira, as forças de segurança permitiram que os moradores voltassem às suas casas em Puerto Naos e La Laguna —mas só durante um tempo mínimo, até as 19h em ponto, para recolher o que fosse imprescindível, e sempre acompanhados. “São ordens superiores”, afirma Pedro Cuesta, inspetor-chefe da Polícia Nacional e coordenador da 10ª Unidade de Intervenção Policial.

É o caso de Manuela e Francisco, um casal octogenário de La Laguna, que, sob uma garoa de cinzas, foi acompanhado de agentes da Defesa Civil até o seu imóvel. “Toda a nossa vida está aí dentro”, dizem chorando aos agentes, que lhes repetem, em tom empático, que só podem pegar o indispensável.

“Continuamos em situação de emergência”, afirmou nesta terça-feira o presidente do Governo (primeiro-ministro) espanhol, Pedro Sánchez. O diretor-técnico do Plano de Emergências Vulcânicas das Canárias (Pevolca), Miguel Ángel Morcuende, confirmou a situação à agência Europa Press. O comitê científico calcula que a lava avance a 120 metros por hora, e não a 700, como estimado inicialmente. O material corre por duas línguas, uma das quais, situada em Las Manchas, a sudoeste, tem “um movimento mínimo”, apenas cerca de dois metros por hora, e o comitê científico do Pevolca acha improvável que se reative.

A outra língua é a que avança inexoravelmente morro abaixo e entrou nesta terça-feira em Todoque, tocando sua igreja pela tarde. Essa torrente de lava é alimentada, além disso, pela nova boca que se abriu na noite desta segunda-feira e que obrigou ao desalojamento dos moradores de Tacande, em El Paso.

Inés Galindo, pesquisadora do Instituto Geológico e Minerador da Espanha, observa que essas explosões não são necessariamente um sintoma de uma maior violência do vulcão. Na sua opinião, o Cumbre Vieja está registrando episódios de atividade stromboliana (explosiva) intensa, “o que é completamente normal”, e durante a maior parte do tempo permanece “estável”. Os vulcanismos strombolianos se caracterizam por erupções explosivas separadas por períodos de calma com duração variável.

Ajuda europeia

O presidente (governador) das ilhas Canárias, Ángel Víctor Torres, buscou no começo da tarde lançar uma mensagem tranquilizadora à população da ilha de La Palma, dando como garantida a chegada de recursos de solidariedade da União Europeia. Falando após a reunião do Pevolca e na presença de Sánchez, explicou que a ativação desses mecanismos, no caso de regiões ultraperiféricas da UE (caso das Canárias) ocorre quando os prejuízos superam 1% do PIB local, o que nesse caso equivaleria a 400 milhões de euros (quase 2,5 bilhões de reais), “cifra que, infelizmente, superaremos com sobra”, disse. De todo modo, a ajuda não bastará para compensar a perda das moradias de quase 200 famílias.

“A primeira zona afetada foi El Paraíso”, relata o prefeito Sergio Rodríguez em uma mesa do campo de futebol. “Inicialmente achávamos que se salvaria, mas na parte mais próxima a Los Llanos acabou sendo afetada”. Fora, no estacionamento do campo de futebol, perambula preocupada María Rodríguez, 58 anos, moradora desse bairro. “Minha casa é primeira de todas, grudada na montanha, lá em cima”, conta, nervosa. “Não sei o que foi dela... Fico preocupada com saques e penso: e daí se ela se salvar? Vou ficar lá sozinha, rodeada de lava e de todas estas más recordações?”

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