Afeganistão
Análise
Exposição educativa de ideias, suposições ou hipóteses, baseada em fatos comprovados (que não precisam ser estritamente atualidades) referidos no texto. Se excluem os juízos de valor e o texto se aproxima a um artigo de opinião, sem julgar ou fazer previsões, simplesmente formulando hipóteses, dando explicações justificadas e reunindo vários dados

Rússia aposta em domesticar o Talibã no Afeganistão

Milícia fundamentalista protege a embaixada de Moscou em Cabul e garante que “da cabeça dos diplomatas russos não cairá nem um fio de cabelo”

Combatentes do Talibã desfilam por Cabul nesta segunda-feira. Em vídeo, o Talibã toma o Palácio presidencial de Cabul.FOTO: EFE / VÍDEO: REUTERS / AL JAZEERA
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A Rússia reagiu com ostentosa calma perante a queda do Afeganistão nas mãos do Talibã e, formalmente, parece abraçar a ideia de que esta organização pode ser domesticável, embora por enquanto continue descrita como terrorista também por Moscou. “A Rússia não teme que o Afeganistão se transforme em um Estado islâmico terrorista, mas não se apressará em reconhecer o Talibã”, disse na segunda-feira o representante especial do presidente Vladimir Putin para o Afeganistão, Zamir Kabulov, à rádio Ekho Moskvy. Ele acrescentou que seu país tampouco está preocupado com a proximidade do Afeganistão com o Paquistão, cujo governo tem armas atômicas. Como se fosse pouco, os militantes do Talibã começaram a custodiar o terreno da Embaixada da Rússia em Cabul, dando garantias de que “da cabeça dos diplomatas russos não cairá nem um fio de cabelo”.

Mas nenhuma precaução é exagerada. A Rússia retirou parte do pessoal da embaixada em Cabul (integrada por uma centena de pessoas), e por enquanto não tem intenção de tirar o Talibã da sua lista de organizações consideradas terroristas, pois isso, segundo Kabulov, deve ser uma iniciativa do Conselho de Segurança da ONU, quando seus membros permanentes se convencerem de que os envolvidos “agem civilizadamente”. O veterano diplomata russo salientou que o Talibã costuma enfrentar “sem piedade” o Estado Islâmico, “diferentemente dos norte-americanos e de toda a OTAN junta, incluído o Governo afegão fugido, que não lutaram e inclusive chegaram a perdoá-los em alguns lugares”. Kabulov, que se reuniu em julho em Moscou com uma delegação oficial do Talibã, afirmou que um de seus dirigentes lhe reiterou que o grupo “não faz prisioneiros” do EI (ou seja, os executa diretamente). “Até o momento, a Rússia está satisfeita com o comportamento do Talibã, e que a transferência de poder tenha se realizado sem violência”, acrescentou Kabulov. Segundo ele, os dirigentes do Talibã que foram a Moscou aceitaram as exigências russas de não criar um emirado afegão e não utilizar o território do Afeganistão contra terceiros países.

A queda de Cabul era “até certo ponto inesperada” para Moscou, segundo o representante de Putin. “Supúnhamos que o Exército afegão, em qualquer cenário, oporia resistência durante algum tempo”, mas “pelo visto fomos muito otimistas ao avaliar a qualidade da preparação das forças armadas treinadas pelos norte-americanos e os países da OTAN”, sentenciou.

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Independentemente da consideração com que a Rússia trata o Talibã, a vitória dos fundamentalistas causa preocupação nos países da Ásia Central ex-soviética, dos quais três (Tadjiquistão, Uzbequistão e Turcomenistão) têm uma fronteira conjunta de 2.387 quilômetros com o Afeganistão, a qual o Talibã já controla.

“Nas fileiras do Talibã há diversos grupos étnicos, e no Afeganistão há muitas outras organizações terroristas, entre elas as que estão formadas por membros de etnias residentes na Ásia Central, como os uzbeques, os quirguizes, os turcomenos e os tadjiques”, aponta a este jornal um analista independente de uma capital centro-asiática. “Além da ameaça exterior do Afeganistão, a Ásia Central enfrenta a ameaça interna, consistente em que, estimulados pelo sucesso do Talibã, os radicais locais se ativem com apoio ativo ou passivo na sociedade nos diversos Estados da área”, comenta o analista, que pediu anonimato. Um efeito desestabilizador pode ter também o fluxo de refugiados que já começou. Fontes do Tadjiquistão e do Uzbequistão relatam a chegada de centenas de milhares de afegãos em busca de refúgio. Para o analista ouvido pelo EL PAÍS, a Rússia é o fiador da segurança centro-asiática, e a situação no Afeganistão lhe exigirá grandes recursos, assim como do Irã, da China e da própria Ásia Central.

Em entrevista à Ekho Moskvy em 22 de julho, Kabulov se mostrou satisfeito com a desocupação da coalizão liderada pelos EUA no Afeganistão, por considerar que sua presença naquele país estava mais dedicada a vigiar o entorno (China, Irã, Rússia) que a estabilizar o próprio Afeganistão. Para neutralizar ameaças na Ásia Central, Moscou conta com importantes instalações militares (a “Base 201”) em território tadjique e com o apoio dos sócios locais (Cazaquistão, Tadjiquistão, Quirguistão), membros da Organização do Acordo de Segurança Coletiva (ODKV, na sigla em russo), além de um acordo de associação estratégica com o Uzbequistão. O Turcomenistão, por sua vez, é um Estado neutro.

Kabulov defendeu que o foco seja na “profilaxia” da ameaça. Às manobras militares realizadas recentemente pela Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão se somarão outras da ODKV na fronteira tadjique-afegã, conforme anunciou esta organização na segunda-feira. Na Rússia, junto aos que se regozijam pelo fracasso norte-americano, há também vozes mais sóbrias, como a do cientista político Alexei Chesnakov, que em seu canal nas redes sociais advertiu que a “alegria pela desgraça alheia”, associada à pergunta “quem é o culpado”, não deve tirar a atenção da análise séria sobre “o que fazer”. O “exagero no primeiro só ressalta a falta de compreensão do segundo”, sentencia Chesnakov.

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